19 Jan 2021 | domtotal.com

Recepção dos judeus, nossos irmãos, em Auschwitz

Se porventura perdermos nossa capacidade de pensar, seremos capazes de atrocidades

Auschwitz, Polônia
Auschwitz, Polônia (Unsplash/Fadjar Djulizar)

Newton Teixeira Carvalho

O maior templo de genocídio nazista foi Auschwitz que, não obstante a tentativa de destruir o máximo de prova possível acerca das barbáries praticadas naquele local, com a chegada dos aliados, é visitado, por milhares de pessoas, na atualidade.

Entretanto, os documentos remanescentes, além das testemunhas oculares, e os julgamentos que ocorreram após a guerra, com relação aos criminosos que cooperaram, muitos deles, de boa vontade, com o nazismo, são provas cabais do que somos capazes, se porventura percamos nossa capacidade de pensar.

Esse campo de concentração laborava, em maio de 1944, em sua capacidade máxima e em escala industrial, "fabricando" mortes, principalmente dos judeus que, pela solução final do extremista Hitler, deveriam ser varridos da Europa, tudo em nome de um nacionalismo radical, na busca adoecida e irracional de uma raça pura.

E o pior de tudo isso é que Hitler não estava sozinho nesta monstruosa empreitada. Teve adesão de várias pessoas, inclusive de intelectuais, bem como de grande parte do povo alemão, o que levou à discussão, finda a guerra, no sentido de que, neste caso, havia culpa coletiva e não apenas individualizada de todos os envolvidos.  

Naquele mês de maio de 1944 o Terceiro Reich deportou oitocentos mil judeus húngaros para as câmaras de gás de Auschwitz, a fábrica de morte de milhares de pessoas.   

De destacar-se que, dentre os judeus húngaros, enviados à morte em Auschwitz, estava o médico Berner, sua esposa e filhas, procedentes, juntamente com mais oitenta vizinhos judeus, da Transilvânia, que era controlada pelos Húngaros.

Essas pessoas, que começaram a ser desumanizadas e coisificadas dia após dia depois que Hitler, da extrema direita, galgou o poder, chegaram ao amanhecer naquela fábrica de matar, depois de uma longa jornada de três dias, em condições adversas, em vagões de gado. Assim, já não eram pessoas, mas sim coisas! Objetos de barganhas ou negociações. Chegou ao absurdo de pretender trocar, em outra passagem, um milhão de judeus por dez mil caminhões!

Berner conta que logo na chegada dele e família em Auschwitz puderam ver as chaminés industriais que lançavam grandes colunas de fumaças. Apenas ainda não sabia ele que tudo aquilo era produto da queima de milhares de pessoas, que tão logo adentravam naquele campo eram gaseadas e em seguida, em razão do aumento da produção, queimadas, após a extração dos dentes de outros e de outros objetos de valor.

Era o aperfeiçoamento da técnica de consumir com os corpos, que não eram mais lançados em valas, aos milhares. A produção não podia parar. A técnica era toda em prol da solução final. E técnicos existiam aos montões.   

Doutor Berner, apesar de amedrontado, afirmou para a esposa e filhas, tentando tranquilizá-la, que deveriam ficar juntos, que nada os separariam. Porém, logo em seguida um oficial da terrível e assassina SS emitiu a ordem: os homens, a direita; as mulheres, a esquerda.

Ir à direta era o caminho da morte imediata; geralmente era o percurso das mulheres com filhos, crianças e inválidos. Ir à direta era adiar um pouco mais a morte, eis que tais pessoas eram direcionadas aos trabalhos forçados, com uma média posterior de vida de três meses.

Assim, Berner foi para a direita e a esposa e filha para a esquerda. Soube ele, que sobreviveu às atrocidades nazistas, que uma hora depois da chegada naquele campo de horrores que não tinha mais família. Esposa e filha foram para a Câmara de gás, juntamente com várias outras pessoas, fato este rotineiro naquele campo sob a direção de monstros.    

Naquele fatídico dia, Berner viu Mengele, com o poder de vida e morte, na seleção das pessoas, bem como um pouco atrás deste médico/monstro, Victor Capesius, o farmacêutico de Auschwitz, que também tinha tal poder, ao selecionar as pessoas em direção à morte, de imediato, ou a morte, pouco tempo depois, em razão de trabalhos forçados.

E fato é que Capesius foi um farmacêutico na cidade natal de Berner e na década de 1930 foi representante de vendas da I.G. Farben, o gigantesco conglomerado químico e industrial da Alemanha. Esta empresa utilizava das pessoas que, na seleção que ocorria na descida do trem, eram encaminhadas à direita, para trabalho forçado. Os prisioneiros eram comprados, a baixo custo. Vamos falar dessa empresa, ainda, cujos diretores foram absolvidos ou tiveram penas ridículas, em um julgamento que muitos sequer queriam que se realizasse! 

Berner, ao reconhecer Capesius, pediu-lhe socorro. E esse farmacêutico tranquilizou-o e rogou que parasse de chorar e que a esposa e filhas dele estavam se banhando e que voltariam dentro de uma hora. Berner foi enviado a um subcampo de trabalhos forçados de Auschwitz e depois da guerra soube que a família foi gaseada uma hora depois da chegada naquele campo.  

Capesius foi reconhecido na rampa de seleção por várias outras pessoas, inclusive como vendedor de Bayer, antes de adentrar no nazismo e especialmente nas fileiras da famigerada SS e, portanto, voltamos a falar sobre a atitude insana desta pessoa, durante o período em que permaneceu e enriqueceu, com furto dos dentes de ouros e outros objetos das vítimas, em Auschwitz.

Newton Teixeira Carvalho
Pós-Doutorado em Docência e Investigação pelo Instituto Universitário Italiano de Rosário (2019). Doutor em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2013), Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2004). Especialista em Direito de Empresa pela Fundação Dom Cabral (1987), Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1985). Desembargador da 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Juiz de Direito da 1ª Vara de Família até junho de 2012. Professor de Direito de Família da Escola Superior Dom Helder Câmara. Autor e coautor de vários livros e artigos na área de família, direito ambiental e processual civil.
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