22 Jan 2021 | domtotal.com

O vírus não é democrático!


Pacientes internados na região Norte e Nordeste têm maior taxa de mortalidade
Pacientes internados na região Norte e Nordeste têm maior taxa de mortalidade (AFP)

Marcel Farah

Fake news sempre existiram, mas só agora receberam este nome. O nome advém, em grande parte, do fato de que as grandes empresas de comunicação perderam o monopólio da mentira editorializada, e passaram a chamar as mentiras dos outros pelo termo em inglês, fake news.

Com a enxurrada de mentiras que temos convivido, é preciso desmenti-las cotidianamente, e buscar um meio de extingui-las estruturalmente. Acredito ser o caminho da educação crítica e libertadora, o melhor meio para acabar com as mentirosas notícias a longo prazo. Mas, no momento me dedicarei a desconstruir uma que tenho pensado ser central, sobre quem é atingido pelo Coronavirus, ou qualquer outro vírus, ou doença, de forma mais letal.

Em recente levantamento, feito com mais de 250 mil pacientes de Covid-19 no Brasil (estudo publicado na revista científica The Lancet Respiratory Medicine), constatou-se que mesmo com pacientes mais jovens, em geral, as regiões norte e nordeste tiveram mais infectados que necessitaram de UTI e mais mortes entre quem passou pelo tratamento intensivo.

No geral, entre pacientes internados em UTI a mortalidade foi de 55%. Na região Norte foi de 79%, Nordeste 66%, Centro-Oeste 51%, Sul 53% e Sudeste 49%. Ou seja, uma das conclusões da pesquisa foi que as desigualdades regionais agravaram a mortalidade da Covid-19.

Outro dado esclarecedor trata do aumento da mortalidade a depender da escolaridade e da etnia. Enquanto, no geral, a mortalidade hospitalar (de quem esteve internado) foi de 38%, entre analfabetos foi de 63%, negros e negras 43% e indígenas 42%.

Portanto, a vulnerabilidade social determinada pelas diferenças regionais, de classe e étnicas agravam a mortalidade da Covid-19, e podemos dizer que o mesmo vale para todas as doenças. Concluindo que a garantia do direito à saúde depende das condições de igualdade socioeconômica.

Não por acaso, o art. 196 da Constituição Federal diz que a saúde é direito de todos, dever do Estado e deve ser garantido não só por políticas sociais, mas também econômicas. Sabiamente o constituinte entende o efeito sistêmico das políticas econômicas sobre a saúde da população.

É por essas e outras que devemos reafirmar, não é uma fake news politizar a vacina, pois ela é política. Não é mentira relacionar o agravamento da pandemia com as omissões do Governo Bolsonaro, pois ele é sim responsável.

Por fim, dizer que o vírus é democrático é uma fake news, pois ele mata mais os pobres, pretos, indígenas das periferias e das regiões mais pobres do país. Por estes critérios, inclusive, é que deveríamos estabelecer as prioridades de vacinação, onde mais tem gente morrendo. Pelos mesmos critérios temos que mobilizar as pessoas a dizerem em alto e bom som #ForaBolsonaro, por medida sanitária, e consequentemente política.

Marcel Farah
Educador Popular
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