26 Jan 2021 | domtotal.com

A ciência, a indústria e a tecnologia se aproximando de Auschwitz

Proteger os animais é ótimo; desproteger, por completo, as pessoas, é loucura!

Auschwitz, Polônia
Auschwitz, Polônia (Unsplash/Severinus Dewantara)

Newton Teixeira Carvalho

Falamos, nos dois artigos anteriores, a respeito de Auschwitz, volvendo àquele tempo, com nosso personagem Capesius que, conforme veremos, apesar das atrocidades perpetradas em Auschwitz, com o dinheiro do ouro que os nazistas extraíram dos dentes dos mortos e que Capesius furtou, grande parte, conseguiu contratar bons advogados e prosperar com uma loja de cosméticos, depois da guerra, até que, vários anos depois, foi finalmente julgado.

Auschwitz foi o local em que aconteceu o maior número de experimentação médica, de trabalho forçado e de extermínio de pessoas que os alemães pretendiam, por intermédio de Hitler, varrer deste mundo, tudo em prol da raça ariana, rotulada pelos alienados no poder, na época, de raça pura.

E, o que não pode também passar despercebido, em uma época em que até o fato presente deixam de existir, mesmo acontecendo na frente de nossos olhos, é que Auschwitz foi o engenho mortal de uma associação militar, industrial e política entre os nazistas e a I. G. Farben, a maior empresa da Alemanha, conforme relata Patrícia Posner, no livro El farmacéutico de Auschwitz, ed. Barcelona, 2019, p. 23.

Ressaltamos que nossos artigos sobre Auschwitz são sempre com base no livro antes citado, em razão das sérias colocações de Patrícia, todas documentadas, com as notas no final daquele livro, de leitura obrigatória e que também já foi traduzido para o português.  

Antes da guerra Capesius trabalhava para Farben e a subsidiária desta empresa, Bayer. E, até pouco antes do começo da segunda guerra mundial, a empresa Farben recebeu quatro prêmios Nobel em Química e Medicina. E tinha o monopólio de patentes inovadoras de matérias primas sintéticas, incluído borrachas e petróleo.

Bayer tinha também revolucionários remédios para sífilis e malária, assim como patentes de morfina, novocaína (anestésico local) e o direito exclusivo sobre a aspirina, como analgésico. E também inúmeros outros produtos, a exemplo de adoçantes, bem como potentes gases venenosos e promissores combustíveis para foguetes.

Naquela época a Faber já tinha 250 mil empregados e era a maior companhia química do mundo e o quatro maior conglomerado industrial. Era a empresa alemã, de longe, a mais rendável.

E, desde a rendição, em razão da derrota na primeira guerra mundial, o povo alemão não gostou das imposições dos vencedores e tal fato acaba por ascender Hitler ao poder.

E Hitler estava convencido de que a Alemanha tinha que ser autossuficiente militarmente falando. E a tecnologia da Farben oferecia a ele a oportunidade única para a reconstrução da Alemanha e também de aquele país não ser dependente de outros no que tange ao petróleo, borrachas e nitratos. Portanto, estrategicamente, a aliança entre a Alemanha e a Farben era uma necessidade para quem pretendia voltar a guerrear.  

Entretanto, a aproximação entre os emergentes nacionalistas da direita e a Faber não foi fácil, eis que, dentre os melhores cientistas daquela empresa, aproximadamente 1/3 eram judeus. Assim e para os nazistas a Farben aparecia como instrumento do capital financeiro internacional.

E os nazistas ainda criticavam a Farben, severamente, no que tange à divisão farmacêutica, em razão de utilizar-se, habitualmente, animais de laboratório para teste de medicamentos. Ironicamente os nazistas eram ativistas em defesa dos direitos dos animais e Hitler era vegetariano, que pretendia eliminar, mais tarde, a Alemanha dos matadouros de gado.

Também ironicamente os nazistas aprovaram leis para proteção dos animais, com relação aos caçadores, bem como proibiram a utilização de animais em circo e em filmes. E o castigo para os experimentos de laboratório com animais era a ida para campo de concentração e, em alguns casos, pena de morte.

A ironia disto tudo é que, logo em seguida, os nazistas desumanizavam as pessoas, em razão de suas origens, credos ou gênero, e as matavam, a porretadas, tiros na nuca, até chegar à chacina de milhares de pessoas nas câmaras de gás. Ao que parece e para os nazistas estas pessoas sequer animais eram, portanto.  

Proteger os animais é ótimo. Porém, desproteger, por completo, as pessoas, é loucura! É irracionalidade!

O prêmio Nobel de química, Carl Bosch, que dirigia a Farben, não era um admirador de Hitler, principalmente por considerar que os nazistas não tinham nenhum apreço pela inovação científica, espinhal dorsal daquela empresa e o que a tornou grande e reconhecida no mundo.  

Porém, com a ascensão de Hitler ao poder, o cientista Bosch entendeu que a Farben tinha que se transformar de uma empresa pouco confiável em uma parceira indispensável. Foi assim que a Farben, por meio de Bosch, se converteu em a maior patrocinadora financeira das eleições de 1933, aquela que Hitler obtive cerca de seis milhões de votos e solidificou sua posição como cancelar.

Newton Teixeira Carvalho
Pós-Doutorado em Docência e Investigação pelo Instituto Universitário Italiano de Rosário (2019). Doutor em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2013), Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2004). Especialista em Direito de Empresa pela Fundação Dom Cabral (1987), Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1985). Desembargador da 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Juiz de Direito da 1ª Vara de Família até junho de 2012. Professor de Direito de Família da Escola Superior Dom Helder Câmara. Autor e coautor de vários livros e artigos na área de família, direito ambiental e processual civil.
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