02 Fev 2021 | domtotal.com

Uma grande indústria alemã aderindo e alimentando o pesadelo nazista

As divergências entre os nazistas e a Farben cessaram em julho de 1938

Robert Ley, vestido de branco, com sua esposa Inga em Munique, julho de 1939
Robert Ley, vestido de branco, com sua esposa Inga em Munique, julho de 1939 (Wikimedia)

Newton Teixeira Carvalho

A chegada da Farben, a qual mencionamos em nosso último artigo, em Auschwitz, teve que superar vários obstáculos, apesar de tanto Hitler como Bosch, diretor daquela companhia, terem por objetivo comum um programa intensivo para a independência energética da Alemanha. Porém, Bosch era ético. Hitler, um alienado no poder.  E o pior é que vários malucos estão galgando o poder, em tempos atuais.

Assim é que Bosch, em fins de 1933 e depois de encontrar-se com o ditador nazista, expressou a crescente preocupação dele com a então acelerada exclusão dos judeus das ciências. Para o ponderado Bosch, a química e a física sofreriam retrocessos de cem anos, com a saída dos cientistas judeus. E a resposta de Hitler foi categórica e digna de todos os ditadores, sempre os donos da verdade: então trabalharemos cem anos sem física e sem química.

Outra dificuldade inicial da aliança da Farben com o regime nazista de Hitler foi em razão da aprovação da Lei Habilitante, ou Lei de Concessão de Plenos Poderes de 1933, que conferia ao ditador autoridade para eliminar os judeus da ciência e da tecnologia, bem como de ensinar nas universidades, trabalhar nos serviços públicos e também não poderia o governo utilizar dos serviços dos judeus. E, apesar da opinião contrária dos colegas, Bosch continuou fazendo campanha em favor dos cientistas judeus. Portanto, a distância entre Bosch e Hitler era grande. E Bosch precisava ser deixado de lado, a bem da Farben.

E, em razão da resistência de Bosch, não fosse a Farben uma empresa grande, talvez não teria sobrevivido.  Entretanto, os nazistas precisavam do conhecimento da Farben e foi assim que, em início do ano de 1937, essa empresa foi nazificada e o Sr. Robert Ley, químico da Bayer, se tornou em ministro nazista encarregado da Frente de Trabalho Alemã.

Assim, todos os empregados judeus foram demitidos. Um terço do Conselho Supervisor de Diretores foram expulsos a força de seus escritórios, com a proibição de qualquer contato com as empresas. Os cientistas judeus que dirigiam as divisões de investigação foram afastados e substituídos sumariamente.

E no momento que os judeus foram retirados dos postos mais altos da Farben, Carl Bosch acabou como presidente honorário de empresa, uma posição de pouca valia. Morreu três anos depois, com depressão e alcoólatra, falando aos médicos que Hitler conduziria a Alemanha à destruição.

Em julho de 1938 as divergências entre os nazistas e a Farben não mais existiam. Assim é que muitos diretores daquela empresa se converteram em membros do partido nazista, com alguns se filiando a famigerada e assassina SS.  A Farben, desavergonhadamente, requereu, portanto, certificado, de que era uma empresa alemã, que cumpria, integralmente, as leis raciais.

Em março de 1938, com a anexação da Áustria por Hitler a associação entre o Terceiro Reich e a empresa Farben alcançara o ápice. A Farben tomou o controle da maior empresa química da Áustria. Em seguida, a Farben transferiu técnicos e direitos, bem como expulsou, à força, todos os judeus que ocupavam altos postos.

Ainda em 1938, no enfrentamento entre Alemanha e Checoslováquia, a Farben ameaçou uma invasão nazista para comprar Aussger Verein, a maior companhia química daquele país, a baixo preço, como já fizera na Áustria, na "compra" da Skoda.

Com a caída da Polônia a Farben se aproximou mais ainda do chefe da SS, Heinrich Himmler, que era o poder máximo, em se tratando de empresas e propriedades. Foi assim que a Farben se apoderou de três empresas polonesas mais importantes.

Em 1940 a Farben, por meio de uma sociedade controladora, conseguiu também se apoderar da reconhecida indústria química francesa que foi, durante muito tempo, a que mais competia com a Alemanha.

Portanto e como esclarece Patrícia Posner, em El farmacéutìco de Auschwitz  (Barcelona, 2019, p. 28), com tradução livre nossa, também em várias passagens deste artigo, as ambições do conglomerado cresciam concomitantemente com a vitória alemã nos campos de batalha.

Por consequência, os diretores da Faber pretendiam desmembrar as indústrias não somente nos países ocupados, como também com relação às futuras conquistas, incluindo os países neutros, a exemplo da Suíça, bem como as dos aliados de Alemanha, Itália e a União Soviética e também Inglaterra e Estados Unidos.  Neste momento a companhia já era responsável por 85% dos insumos militares que os nazistas utilizavam em seus esforços bélicos.

Com a caída da França, o exército alemão passou a atacar a Inglaterra, que permaneceu firme. E mesmo com a resistência da Inglaterra, Hitler, ignorando conselhos de seus generais, se preparou para a invasão da Rússia, apesar do enorme consumo de combustíveis, munições e borrachas, no primeiro ano de guerra. O começo da derrocada do regime nazista foi com a abertura desta nova frente de guerra.

Assim e por exigência de Hitler, a Farben, sempre obediente e interessada, duplicou a produção de borracha e petróleo sintético, com a construção de enormes prédios, inclusive em outros países, tudo em prol de azeitar a máquina de guerra hitlerista, que começaria a sofrer contratempos.

Newton Teixeira Carvalho
Pós-Doutorado em Docência e Investigação pelo Instituto Universitário Italiano de Rosário (2019). Doutor em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2013), Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2004). Especialista em Direito de Empresa pela Fundação Dom Cabral (1987), Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1985). Desembargador da 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Juiz de Direito da 1ª Vara de Família até junho de 2012. Professor de Direito de Família da Escola Superior Dom Helder Câmara. Autor e coautor de vários livros e artigos na área de família, direito ambiental e processual civil.
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