05 Fev 2021 | domtotal.com

Eleições no Congresso, quem saiu vencedor?

Por mais que digam que o preço a se pagar pelo apoio do Centrão é grande, o fato é que Bolsonaro saiu fortalecido

Arthur Lira, novo presidente da Câmara dos Deputados, e Rodrigo Pacheco, novo presidente do Senado
Arthur Lira, novo presidente da Câmara dos Deputados, e Rodrigo Pacheco, novo presidente do Senado (Agência Brasil/Agência Senado)

Marcel Farah

Deu nas manchetes dos jornais que os candidatos do Bolsonaro foram eleitos nas duas casas legislativas, ainda em primeiro turno.

Tanto o novo presidente do Senado quanto o da Câmara, realmente foram apoiados pelo governo, que, agora, consolidou sua base no Congresso.

Por mais que digam que o preço a se pagar pelo apoio do Centrão é grande, e que se trata de uma “vitória de pirro”, o fato é que Bolsonaro saiu fortalecido.

Curiosamente, quando se desenhava um avanço da luta pelo impedimento do presidente, devido à piora nas condições de saúde advindas das omissões do governo federal no combate à pandemia, o Congresso resolveu dar aval à postura do governo.

No dia seguinte às eleições, a bolsa de valores fechou em alta e o dólar em baixa. Sinais de que o “mercado” gostou do resultado.

Também no dia seguinte, Lira, presidente da Câmara, se reuniu em jantar com grandes empresários para conversar sobre a situação do país e as prioridades do Congresso. As notícias relacionadas ao jantar/reunião se referiram à prioridade que o novo presidente dedicaria à reforma tributária e às desonerações das folhas de pagamento das empresas. Visto de outra forma, trata-se do planejamento para redução de direitos trabalhistas, mais ainda.

Ou seja, o país consolida a rota que (re)assumiu desde 2016, de colocar a culpa nos direitos sociais. A reforma trabalhista e previdenciária ocorreram nesse mesmo clima.

Vivemos um momento de consolidação da transição para uma economia neoliberal, que fora iniciada com a abertura de Collor no início dos anos 90, aprofundada com as privatizações e financeirização da economia de FHC no final dos 90, pausada pelos governos Lula e Dilma nos anos 2000 e início dos 2010, e retomada com o golpe de 2016, com Temer e agora Bolsonaro, ou devemos dizer Guedes?

Não há dúvidas que Bolsonaro controle bem seu superministro Paulo Guedes, contudo, o sucesso do primeiro entre as elites se deve à credibilidade do segundo. Guedes é o avalista de Bolsonaro.

Não importa se Lira e Pacheco são do Centrão, se um é agressor de mulheres, se eventualmente são homofóbicos, machistas, ou mesmo, se são complacentes com a escrotidão de Bolsonaro, afinal, falam a mesma língua do mito. O importante, assim pensa a maioria do empresariado, é que vão desobstruir a pauta econômica, e permitir o avanço das privatizações, da retirada de direitos trabalhistas, da reforma administrativa contra os servidores, da redução do estado e dos direitos sociais universais. Caminhamos em definitivo para uma sociedade de “ubers” em todos os setores, sem direitos trabalhistas, com MEIs, Pjotização, e terceirização generalizada, o sonho dos neoliberais, inferno de quem vive do trabalho.

Por essas e outras, a oposição de esquerda errou sobre seus erros anteriores. Aliou-se aos golpistas de ontem para barrar Bolsonaro na disputa do Congresso, acatou o raciocínio de que a direita concordaria em impor limites ao grotesco, ao antidemocrático, ao desumano genocídio do negacionismo. Deu no que deu, a “maior taxa de traição” de que se tem notícia.

O candidato do Maia, que representava a “direita limpinha” (como se isso existisse), recebeu 145 votos contra 302 da “direita suja”. Contudo, somente os partidos da esquerda e centro-esquerda que compuseram o bloco, tinham 123 votos: PT, 52, PSB, 30, PDT, 27, PCdoB, 9, PV, 4 e REDE, 1.

Pelo visto, o alto nível de traição ocorreu contra a esquerda e não contra o Maia. O capital, rapidamente se alinhou em torno das ofertas de cargos e emendas orçamentárias, mais uma vez, deixando de lado qualquer preocupação com a democracia, com a pandemia, com o chamado obscurantismo, com os direitos das minorias, mulheres, LGBT, pretos e pretas.

Ao final, quem venceu?

Marcel Farah
Educador Popular

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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