11 Fev 2021 | domtotal.com

'O diabo de cada dia', um filme inquietante

Trata-se de uma produção original, cuja linguagem mistura simplicidade, crueza e realismo

O elenco é encabeçado por Tom Holland, numa interpretação sem artifícios
O elenco é encabeçado por Tom Holland, numa interpretação sem artifícios (Glen Wilson/Netflix)

Jorge Fernando dos Santos

A Netflix se tornou, de fato, um grande catálogo de opções para cinéfilos de todos os tipos. Sua programação é extensa, com filmes e séries de vários países, nos mais variados gêneros. No meio disso, muita coisa boa pode passar despercebida, mesmo aos espectadores mais atentos. Entre os longas que demorei a assistir está O diabo de cada dia, de Antonio Campos.

Trata-se, de certa forma, de um filme de suspense, cujo tema central é a maldade humana e a maneira como ela pode brotar em lugares e momentos dos mais improváveis. Pessoas comuns e de vida pacata são capazes de praticar atrocidades das quais nem mesmo elas desconfiam. Tudo depende da motivação e da índole de cada um.

No campo de batalha, numa ilha do Pacífico, um jovem soldado e sua patrulha se deparam com o sargento crucificado e deixado vivo pelos japoneses, para ser comido por vespas. O rapaz nunca mais seria o mesmo e o trauma acaba repercutindo anos depois. O elenco é encabeçado por Tom Holland, numa interpretação sem artifícios. Também se destacam Bill Skarsgard, Halley Bennett, Harry Meling e Robert Pattinson.

Narrativa literária

O diabo de cada dia se passa numa cidadezinha do Meio-Oeste americano, na qual o ex-combatente tenta reconstruir a vida. O filme traz personagens anacrônicos, como um xerife corrupto; sua irmã prostituta ligada a um serial killer; um jovem pastor que usa a palavra de Deus para seduzir jovens desavisadas etc. Tudo isso numa comunidade conservadora, marcada pelo fanatismo religioso e pela violência.

Em cartaz há vários meses, o filme tem atraído a atenção de um público diferenciado, que busca no cinema algo de inquietante e questionador. No entanto, não tem gozado do merecido prestígio junto aos acadêmicos de Hollywood. Afinal, ele foge à bula do politicamente correto. É um filme que narra histórias de simples caipiras, que a qualquer momento podem se deparar com a face oculta do mal. Tudo isso sem discursos ou a pretensão de salvar o mundo.  

Além de assinar a direção, Antonio Campos escreveu o roteiro em parceria com Paulo Campos, seu irmão, adaptando o livro homônimo de Donald Ray Pollock. O filme é narrado pelo próprio escritor, como se lesse trechos do seu original. Isso lhe dá um ritmo literário, que prende a atenção do espectador desde as primeiras cenas, principalmente devido à imprevisibilidade.

Produção familiar

A fragmentação inicial de acontecimentos bizarros, aparentemente desconexos, ganha sentido no decorrer da história. Nota-se nos personagens e no ritmo lento uma certa familiaridade com o estilo dos irmãos Cohen. No entanto, trata-se de uma produção original, cuja linguagem mistura simplicidade, crueza e realismo.

Filho de brasileiros (seu pai é o jornalista Lucas Mendes), Antonio Campos nasceu em Nova York, em agosto de 1983. Apaixonado por cinema desde a infância, chegou a trabalhar de lanterninha na adolescência. Hoje, de certa forma, já pode ser considerado um cineasta veterano. Sua estreia como diretor, produtor e roteirista se deu em 2005, com Buy it now.  

Em 2008, ele escreveu e dirigiu o longa Afterschool, que estreou no Festival de Cannes e entrou no circuito comercial em 2009. Em seguida, dirigiu o festejado Simon killer, com Brady Cobert no papel principal. Em 2016, foi a vez de Christine, estrelado por Rebecca Hall. Em seu novo filme, além da parceria com o irmão, Antonio Campos contou com a esposa, Sofía Subercaseaux, na edição, e ainda colocou o bebê do casal numa das cenas. Simplesmente imperdível!

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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