11 Fev 2021 | domtotal.com

Monopólios, poder e prepotência

Diz a teoria econômica que cada nação tem uma taxa média de lucro. Boa parte das empresas trabalha dentro da faixa média e sobrevive, enquanto as empresas que auferem lucros inferiores à média simplesmente desaparecem

Diz a teoria econômica que cada nação tem uma taxa média de lucro. Boa parte das empresas trabalha dentro da faixa média e sobrevive, enquanto as empresas que auferem lucros inferiores à média simplesmente desaparecem
Diz a teoria econômica que cada nação tem uma taxa média de lucro. Boa parte das empresas trabalha dentro da faixa média e sobrevive, enquanto as empresas que auferem lucros inferiores à média simplesmente desaparecem (Christian Wiediger / Unsplash)

Flávio Saliba

A feliz observação do jornalista Larry Rother sobre a nova economia mundial resume os efeitos perversos do processo de globalização: "Conforme cresce a rentabilidade e o poder da internet, aumenta também sua prepotência". 

Nada contra o milagre da internet e os benefícios da tecnologia. Sabe-se, no entanto, que a tecnologia não é neutra e que historicamente seus avanços foram impulsionados pela busca de ampliação dos lucros via aumento da produtividade e a substituição de homens por máquinas. 

A coisa funcionou bem durante algum tempo, em especial, durante a maior parte do século passado devido não só a produção em massa, intensiva em mão de obra, mas também à emergência do Estado de bem estar. Lá pelo final dos anos 1970 este arranjo começa a fazer água, já que os custos trabalhistas e o poder dos sindicatos impunham limites à realização de lucros. De acordo com Manuel Castells os anos que se seguem foram marcados pela vitória do capital sobre o trabalho, através dos avanços tecnológicos e das reformas políticas e sociais de governos conservadores.

Diz a teoria econômica que cada nação tem uma taxa média de lucro. Boa parte das empresas trabalha dentro da faixa média e sobrevive, enquanto as empresas que auferem lucros inferiores à média simplesmente desaparecem. É o que confirma a curta duração de pequenas empresas e os elevadíssimos números de falências registradas a cada ano. 

As novas tecnologias da informação são fundadas no conhecimento e não na produção material. Não é à toa que ela floresceu junto a grandes universidades e centros de pesquisa onde encontra sua mão de obra altamente qualificada.

Mesmo tendo nascido de mentes privilegiadas, posando de bons moços e, não raro, instalados em garagens, as novas tecnologias tornaram-se fontes de altíssimos lucros atraindo grandes investidores. Como os investimentos nestes setores exigem somas bilionárias o resultado foi a crescente associação de capitais, a fusão de empresas e a compra de concorrentes menores. Trata-se de algumas dezenas de investidores bilionários que auferem lucros muitíssimo acima das taxas médias de lucros e que, enquanto grandes monopólios, não dão satisfações a governos. 

Ainda segundo Rother, "o filme A rede social deixou bem claro que o cara (Zuckerberg) é completamente sem escrúpulos" e que, na falta de um poder regulador de suas manobras, quem vai vigiá-lo? Ainda segundo ele, "para algumas plataformas como Uber, o Brasil é seu segundo mercado", e me pergunto: Quem está pensando nos direitos laborais dos motoboys mal pagos que correm nas ruas das principais cidades brasileiras? 

A Amazon, por sua vez, tenta bloquear a sindicalização de seus empregados, que trabalham muito, ganham pouco e aguentam condições insalubres. "Tudo para que Jeff Bezos, o dono, possa lucrar e seguir seu sonho de viajar para a Lua".

Flávio Saliba
Formado em Ciências Sociais pela UFMG (1968), Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris (1980), Pós-doutorado na Berkeley University (1994), Professor de Sociologia da UFMG. Livros publicados: 'O diálogo dos clássicos: divisão do trabalho e modernidade na Sociologia' (Ed. C/Arte, BH, 2004), 'História e Sociologia' (Ed. Autêntica, BH, 2007). Vários artigos publicados em revistas e jornais nacionais.
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