16 Fev 2021 | domtotal.com

Nazismo, empreendimento, lucro e ausência de ética

Todo este acontecimento estava baseado no lucro, considerando que os nazistas faziam de cada pessoa morta dinheiro

Trabalhadores escravos do campo de concentração de Buchenwald perto de Weimar; muitos morreram de desnutrição
Trabalhadores escravos do campo de concentração de Buchenwald perto de Weimar; muitos morreram de desnutrição (Soldado H. Miller. (Exército)/Domínio Público)

Newton Teixeira Carvalho

Voltamos a falar sobre Auschwitz, a partir do livro de Patrícia Posner, El farmacéutico de Auschwitz (Barcelona, 2019) e, portanto, do envolvimento da Farben com o nazismo, com objetivo de obter lucro, para tanto de nada importando os meios empregados.

A Farben, na época, procurava um local para produção de borracha e petróleo sintéticos. Porém, necessitava de enormes quantidades de água, já que ambas as tecnologias químicas assim o exigiam.

Almejando tal objetivo é que o químico da empresa Farben, Otto Ambros, encontrou na Polônia um local em que três rios se cruzavam e que também possuía três linhas ferroviária. Outra vantagem: era próximo ao local abandonado que os nazistas estavam transformando em campo de concentração. Portanto, haveria fácil acesso à mão de obra forçada e barata.

Com a aprovação dos diretores da Farben e também do terceiro Reich, a empresa decidiu utilizar o nome do pequeno povo polaco, vizinho das instalações da nova divisão corporativa: I. G. Auschwitz. A empresa tinha grande planos de lucrar com o local, a ponto de recusar dinheiro do estado nazista - fato que também afastava os nazistas de serem seus sócios.

Assim é que a Farben gastou enorme soma de dinheiro na construção dessa ambiciosa instalação que ocupava vários quilômetros quadrados e que consumia mais eletricidade que Berlim. Heinrich Himmler, chefe da SS, considerando a importância do empreendimento, nomeou o seu confiável chefe de estado, o major general das SS Darl Wolff, com intermediário entre a Farben e a SS.

Em um encontro no dia 20 de março de 1941 em Berlin, Wolff e o químico e diretor da Farben, o tenente coronel da SS Heinrich Butefisch, se reuniram para estudar como o campo de concentração vizinho a Auschwitz poderia ajudar a Farben, considerando que muitos obreiros especializados estavam na frente de combate com as tropas nazistas. A empresa enfrentava escassez de trabalhadores. Assim, era necessário utilizar não somente da mão de obra alemã, como também dos que metaforicamente eram chamados de "trabalhadores livres" da Holanda, Bélgica, Franca e Polonia, com pagamento de salários baixíssimos.

Para também suprir a mão de obra escassa, Himmler determinou ao responsável pelo Campo de Concentração que enviasse até 12 mil presos, evidentemente e considerando que os campos de concentração, a exemplo de Auschwitz, eram centros de lucro da SS, certo é que Himmler almejada compensação financeira com tal atitude.

Assim é que, depois de árdua negociação a Farben concordou em pagar quatro Reichsmarks, que na época representava cerca de US$1,60, diários por presos qualificados e US$1,50 (US$ 0,60) por crianças. Entretanto, pare receber esse dinheiro a SS tinha a obrigação de transportar os prisioneiros desde os barracões de Auschwitz - que era distante cerca de 6,5 km do local da construção das novas instalações da Farben.

Comparecendo no local da construção Himmler ficou impressionado e prometeu continuar com o envio de prisioneiros para trabalhar na empresa. Entretanto, um outro problema surgiu: eis que a Farben não previu que os desumanos castigos infringidos pelos nazistas aos presos interferiram na força de trabalho daquelas pessoas.

Os abusos contra os prisioneiros, pela SS, constaram de memorandos internos da empresa, com os trabalhadores sendo castigados no local da construção da empresa e as pancadas eram aplicadas nas pessoas que se encontravam mais debilmente - já não podiam trabalhar duramente.

Depois, o trajeto diário que os presos desde Auschwitz faziam amofinava grande parte de sua força, mesmo antes de iniciada a jornada diária. Vinham os trabalhadores calçados com tamancos, de numeração menor, e vestidos com frágeis trajes de presidiários, que faziam todos eles padecerem de calor extremo em determinadas épocas do ano e frio em outras.

Os próprios gerentes da construção observavam que, em razão da fraqueza dos prisioneiros/trabalhadores, na maioria das vezes eram necessários de três a quatros pessoas para levantar e empilhar sacos de cimentos de 50 quilos. Portanto, os executivos da Farben criticaram internamente o fato de SS não haver entendido o que era preciso fazer para que a "a livre empresa" prosperasse. E a preocupação destes diretores não era humanitárias, mas sim em razão de estar perdendo dinheiro.

Para dificultar ainda mais a vida desses prisioneiros, os nazistas exigiam que cada um dos trabalhadores se apresentasse, para a ida à construção, às quatro horas da manhã e voltasse à noite, quando era passada a lista de presença.

Assim, e como consequência deste desumano tratamento, várias vezes na semana os nazistas transportavam caminhões de cadáveres até os crematórios. Todo este acontecimento estava baseado no lucro, considerando que os nazistas faziam de cada pessoa morta dinheiro, a partir da extração de dentes de ouros até o emprego de cabelo para enchimento de colchões e também para fabricação de meias para os tripulantes dos submarinos e para os pilotos da Lufwaffe.

Newton Teixeira Carvalho
Pós-Doutorado em Docência e Investigação pelo Instituto Universitário Italiano de Rosário (2019). Doutor em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2013), Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2004). Especialista em Direito de Empresa pela Fundação Dom Cabral (1987), Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1985). Desembargador da 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Juiz de Direito da 1ª Vara de Família até junho de 2012. Professor de Direito de Família da Escola Superior Dom Helder Câmara. Autor e coautor de vários livros e artigos na área de família, direito ambiental e processual civil.
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