23 Fev 2021 | domtotal.com

Uma grande empresa cooperando com as barbáries nazista


'O trabalho liberta' - portão principal de Auschwitz
'O trabalho liberta' - portão principal de Auschwitz (Muzeum Auschwitz-Birkenau)

Newton Teixeira Carvalho

A Farben estava com a construção de uma fábrica para produção de borracha e petróleo sintéticos paralisada, próxima a Auschwitz, considerando que os prisioneiros enviados para o trabalho forçado naquele empreendimento não eram bem alimentados e também eram castigados constantemente.

Preocupada com a paralização do empreendimento, eis que a SS poderia culpar a empresa, que não queria incorrer na cólera de Hitler e Himmler, caso não fornecesse o material necessário para o possível sucesso da guerra em curso. Em julho de 1942, a Farben encontrou e aprovou uma maneira de suprir a escassez de mão de obra: a construção do próprio campo de concentração dela.

Assim, foi escolhido um local próximo a Auschwitz, após a aprovação da construção do campo pelo ministro do Trabalho nazista, posto que era a melhor maneira de explorar os presos até o maior grau possível de resistência. Este novo campo se chamou Monowitz Buna-Werke.

E o acesso constante de trabalhadores escravos animou a Farben e a outras empresas alemães a construir 45 subcampos de minas de carvão, metalurgia, de produtos químicos e também de processamento de alimentos, que atingia uma área de cerca de 50 quilômetros.

Monowitz era uma cópia, em menores proporções, de Auschwitz. Era rodeado de cerca elétrica, torres de vigilância, com guardas armados, cachorros patrulhando e refletores que iluminavam o campo à noite para evitar fugas.

Não esqueceram de criar naquele local um bordel, exigindo que as presas trabalhassem como escravas sexuais dos alemães. E ainda imitando Auschwitz, também foi colocado o letreiro de "boas vindas", na entrada do edifício, com os dizeres sarcásticos: Arbeit Macht Frei (o trabalho liberta).

Além de arcar com todo o custo da construção, a Farben também encampou as despesas com alimentação e alojamento. Ficou a cargo da SS a segurança do local.

Entretanto, e considerando que a preocupação da empresa era com o lucro, os trabalhadores eram tidos como objeto. Três dormiam em cama construída para apenas uma pessoa. Os alimentos eram servidos em quantidades mínimas. A nazificação da Farben estava completa.

Consta de documentos internos da empresa que seus funcionários entendiam que os presos mortos, consequência de trabalhos desumanos, poderiam ser facilmente substituídos por novos prisioneiros, que a cada dia lá aportavam, forçadamente.

Absurda atitude foi observada por Benjamim Ferecz, um importante fiscal americano de crimes de guerra, que afirmou, conforme anota Patrícia Posner, em El farmacéutico de Auschwitz, (Barcelona, 2019), em tradução livre: "Os trabalhadores judeus dos campos de concentração eram menos que escravos. Os donos de escravos cuidavam de sua propriedade humana e tratavam de conservá-la. A intenção e os planos dos nazis eram que os judeus fossem usados e depois queimados".

Não é nenhuma apologia à escravidão, evidentemente. Tanto a escravidão como o nazismo coisificaram seres humanos, transformando-os em meras máquinas, que poderiam ser repostas por outras a qualquer momento. Tanto a escravidão como o nazismo marcaram a humanidade para sempre e em época alguma podem ser tolerados.

Entretanto e nesta busca em prol do lucro, na qual a vida de muitos nada valia, a qual a Farben aceitou e participou ativa e despreocupadamente, problemas sempre surgiam e a desconfiava também era uma constância.

Assim, logo a Farben percebeu que a SS enviava prisioneiros que, na maioria, iam direto para a câmara de gás, o que para ela era prejuízo certo em razão do atraso na produção. A título de exemplo, de 5.022 judeus que chegaram em um trem, 4.092 foram assassinados imediatamente.

Tal descontentamento por parte da empresa foi objeto de uma reclamação formal e, por consequência, foi fechado um acordo por meio do qual alguns trens seriam descarregados perto do campo da Farben que poderia escolher trabalhadores idôneos, em primeira mão.

No primeiro trem descarregado em Monowitz, dos 4.807 prisioneiros, metade evitaram a câmara de gás e se "converteram" em trabalhadores forçados, evitando a morte imediata, para morrer três meses depois, em consequência dos trabalhos excessivos.

A Farben ainda não estava contente ao observar nos trens a presença de mulheres, meninos, assim como judeus velhos, que não podiam trabalhar. Tais pessoas, se não aproveitadas em macabras experiências científicas, eram gaseificadas de imediato, em Auschwitz.

Cerca de 25 mil trabalhadores forçados foram explorados até à morte. Aproximadamente 300 mil trabalhadores escravos passaram por lá. Entre eles dois excelentes escritores, Elie Wiesel, de 52 anos, e Primo Levi de 25, que sobreviveram para contar as atrocidades perpetradas naquele local, estupidez que muitos agora querem negar.

Newton Teixeira Carvalho
Pós-Doutorado em Docência e Investigação pelo Instituto Universitário Italiano de Rosário (2019). Doutor em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2013), Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2004). Especialista em Direito de Empresa pela Fundação Dom Cabral (1987), Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1985). Desembargador da 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Juiz de Direito da 1ª Vara de Família até junho de 2012. Professor de Direito de Família da Escola Superior Dom Helder Câmara. Autor e coautor de vários livros e artigos na área de família, direito ambiental e processual civil.
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