25 Fev 2021 | domtotal.com

O desabafo de Diego Amorim

Ainda existem pessoas capazes de refletir sobre os fatos, sem se deixar levar pela cegueira das paixões

'Como foi que a gente só passou a viver de ódio, confusão, caos, acusação?', questiona Diego Amorim
'Como foi que a gente só passou a viver de ódio, confusão, caos, acusação?', questiona Diego Amorim (Reprodução Twitter Diego Amorim)

Jorge Fernando dos Santos

Num tempo obscuro, marcado por pandemia e pandemônio político, no qual jornalismo e ativismo se misturam e confundem a opinião pública, vale saber que ainda existem pessoas capazes de refletir sobre os fatos, sem se deixar levar pela cegueira das paixões.

No início da semana, li no Facebook um texto atribuído ao colega Diego Amorim, a quem não conheço pessoalmente. Sei que já trabalhou na UnB e no Correio Braziliense, sendo hoje ligado ao site O Antagonista. Trata-se de um desabafo pessoal, no qual são feitas as grandes perguntas que todos deveríamos tentar responder:

"Como foi que a gente veio parar aqui? Como foi que a gente passou a se ver em uma pandemia se agravando, sem vacinas, com colapso no sistema de saúde e uma sensação de que estamos desgovernados, indo para momentos ainda piores?

Como foi que a gente passou a se dividir tanto? Como foi que a gente começou a chamar os outros de 'lixo', de 'petista vagabundo', de 'bolsonarista filho da puta'? Como foi que a gente só passou a viver de ódio, confusão, caos, acusação?

Como foi que a gente começou a pirar em teorias conspiratórias, a viver a insanidade das fake news? Como foi que a gente teve que escolher entre um candidato de presidiário e isto que está aí? Como foi que tornamos tudo tão dual, como se só existissem duas opções para tudo?

Como foi que deixamos de raciocinar para só sentir e sentir mal? Como foi que isto aí virou referência de ‘cristianismo’, meu Deus do céu, de ‘conservadorismo’? Como foi que começamos a falar de armas e AI-5?

Como foi que o noticiário se transformou nesse troço pesado, que causa angústia e tristeza nas pessoas (e em quem faz notícia)? Como foi que permitimos viver assim, sempre amenizando tragédias e se enroscando em narrativas que nos satisfaçam?

Como foi que as famílias passaram a falar só de ódio político? Como foi que as amizades viraram pó na guerrinha ideológica? Como foi que tivemos que nos contentar com o ‘menos pior’? Como foi que deixamos tudo isso acontecer?

Desculpem o desabafo (de um pai de família, não de um jornalista), mas a culpa é nossa. Minha e sua. Erramos. Erramos muito em algum momento. Pode ser ingênuo de minha parte, pode ser o que for, mas precisamos mudar. A começar por nós. E para ontem".

Ferida aberta

De certa forma, Diego Amorim põe o dedo na ferida que teima em não cicatrizar. Uma ferida que, pelo contrário, vai aos poucos gangrenando e cujo mau cheiro se espalha a cada dia, atraindo moscas e urubus famintos.

O mundo mudou muito nos últimos dez anos. E, pelo visto, mudou para pior. Talvez seja o impacto das mídias sociais ou o nosso despreparo para lidar com elas. Houve tempo em que o jornalismo ouvia "os dois lados" e as pessoas não se digladiavam por opiniões contrárias. Hoje, o fato e a versão se misturam, disseminando ódio, desinformação e teorias conspiratórias.

Tudo isso não bastassem as agruras do dia a dia, o descompromisso das autoridades com a coisa pública, a desfaçatez dos corruptos, o aumento dos preços e do desemprego, o descontrole da pandemia e da inflação, as sandices de um presidente irresponsável e radicalmente perigoso.

Realmente, todos nós erramos em algum momento. Quando e onde, é difícil dizer. O mais importante, no entanto, é retomar o caminho para consertar o malfeito, buscando harmonia, tolerância e respeito mútuo. O país é de todos nós e somente juntos poderemos construir um futuro melhor, mais justo e solidário, no qual teremos orgulho de ser brasileiros.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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