23 Mar 2021 | domtotal.com

Ainda os antecedentes de Capesius antes de chegar em Auschwitz

A naturalização do ódio, que de tempos em tempos retorna fortalecida entre os governantes e alguns adeptos idiotizados, sempre é perigosa

O livro reconstitui a trajetória de Capesius por meio dos registros de seu julgamento
O livro reconstitui a trajetória de Capesius por meio dos registros de seu julgamento (Reprodução)

Newton Teixeira Carvalho

Terminamos nosso artigo da semana passada e continuaremos neste com a proposta de   demonstrar como Capesius, que será o responsável por milhares de mortes em Auschwitz, inclusive desprezando velhos amigos e várias pessoas que com ele fizeram negócios com produtos que o mesmo vendia da Farber, acabou se tornando um monstro, aderindo integralmente aos absurdos nazistas.

Porém, ainda estamos com este próspero vendedor de produtos farmacêuticos na terra natal dele, Transilvânia, que desde 87 d.C sempre perseguiu os judeus, impondo restrições diversas a este sofrido povo, de modo a dificultar a convivência destas pessoas com os demais cidadãos.  

Assim e sempre com Patrícia Poster, in: El farmacêutico de Auschwitz urge retornar à Transilvânia, considerando que, apesar das teorias liberais que se estenderam por grande parte da Europa, depois da Revolução Francesa de 1789, Transilvânia resistia a rever o conceito preconceituoso, errôneo e excludente no tocante aos irmãos judeus.

Assim é que, em 1866, uma nova Constituição deixou expresso que somente os cristãos eram cidadãos e, por conseguinte, os direitos e propriedades dos apátridas judeus foram restringidos mais ainda. Com certeza, esses cristãos o eram apenas de rótulo, posto que não entenderam a mensagem de Jesus Cristos, no sentido de que somos todos irmãos e merecedores de iguais considerações.  

Continuando o racismo desenfreado e sempre crescente, em 1940 o marechal Antonescu iniciou a "romenização", um programa similar à "arianização" do outro ditador Hitler, confiscando todos os capitais judeus e, consequentemente, os distribuindo entre os romenos, proposta que ia ao encontro do objetivo do regime daquele ditador, seguidor de Hitler, qual seja, o de expulsar a todos os judeus da Romênia.

E alguns dos professores e amigos próximos a Capesius eram entusiastas deste sempre crescente ódio aos judeus. E como é perigosa esta naturalização do ódio, que de tempos em tempos retorna fortalecida entre os governantes e alguns adeptos idiotizados.

Assim é que um professor de ciência, reverenciado por Capesius, ao aderir ao nacional-socialismo, também entendia, absurdamente, que os alemães de nascimento realmente deveriam ser protegidos de povos inferiores. Capesius também tinha amigo na milícia neofacista, como Roland Albert, que sempre emitia opiniões contra os judeus e em desfavor aos ciganos da Romênia, considerando para tanto que, desgraçadamente, "uma alta percentagem e dos tontos e dos idiotas dos povos e os débeis de todo o tipo estão contaminado a estirpes da Romênia.".    

Aliás, tal proposta, de povos inferiores e povos superiores permanece, paradoxal, até os dias de hoje, com a europeização, posto que chegam a falar em povo do primeiro e do terceiro mundo, simplesmente desprezando a cultura local dos chamados povos inferiorizados, do terceiro mundo. Portanto, Hitler continua vivo, infelizmente, na mente de muitos falsos intelectuais, o que demonstra, mais uma vez, que a democracia está em constante perigo, eis que é sempre relativizada, frente aos interesses do momento e até mesmo de uma falsa proteção da "lei e da ordem".

Porém, Capesius permanecia na retaguarda, não deixando transparecer o ódio aos judeus, principalmente em razão do trabalho dele na Farber. Entretanto, em 1943 quando os bombardeios aliados alcançaram a Romênia os nazistas aceleraram o recrutamento dos alemães de origem e, os dezoito meses de Capesius como representante da Farber/Bayer chegou ao fim, considerando que nosso "herói", no dia 1 de agosto de 1943 foi chamado a servir o exército alemão e o foi de bom grado, além de ser Romeno.  

De esclarecer que o recrutamento de Capesius e de vários alemães de origem, mesmo estando em outros país, foi consequência das severas baixas na batalha de Stalingrado e, portanto, já era pensamentos de muitos que era questão de tempo para a tropa soviética adentrar na Romênia e no resto da Europa Oriental.

Capesius não se preocupava com a iminência de ser colocado em combate. A inquietação dele era a de comprovar a ascendência ariana até o século 18, o que o tornava apto para um treinamento de seis meses na Waffen-SS (unidade de combate da temível SS). E, para tanto, omitiu que a esposa dele, Fritzi, em razão da interpretação nazista da religião como sangue, era meio judia.

E, acabado no treinamento, Capesius se tornou capitão, recebendo o selo de pertencimento à SS, ou seja, uma pequena tatuagem negra, próxima à axila esquerda, a indicar o tipo de sangue dele. Este homem serviu durante breves intervalos como farmacêutico nas farmácias da SS e também em diversos campos de concentração fora de Berlim e Munique, criados para prisioneiros políticos, inicialmente. Entretanto, tais campos, a exemplo de Sachsenhausen e Dachau, acabaram albergando cada vez mais judeus em suas dependências.

Ressalta que, não obstante as condições desumanas desses aludidos campos, nenhum deles era de extermínio, ainda. E, considerando o pedigree Bayer, Capesius era o eleito natural para as farmácias daqueles campos, considerando que a Farber dirigia todas as farmácias naqueles campos.

Entretanto, Capesius sabia que ele e os alemães de origem da então Iugoslávia, da Bulgária e de outros países da Europa Central eram considerados por Himmler, o todo poderoso comandante da SS, e outros influentes nazistas, como alemães de segunda classe. Entretanto e apesar da discriminação, no campo de Dachau o médico e coronel Enno Lolling agradou de Capesius. Aliás, Lolling era o responsável por todos os médicos da SS, em todos os campos de concentração.

Na próxima semana continuamos a saga Capesius, até este farmacêutico adentrar em Auschwitz e lá praticar as maiores barbáries contra os judeus. Coisa de louco, se é que houvesse pessoas sadias, mentalmente, no regime de Hitler.

Newton Teixeira Carvalho
Pós-Doutorado em Docência e Investigação pelo Instituto Universitário Italiano de Rosário (2019). Doutor em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2013), Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2004). Especialista em Direito de Empresa pela Fundação Dom Cabral (1987), Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1985). Desembargador da 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Juiz de Direito da 1ª Vara de Família até junho de 2012. Professor de Direito de Família da Escola Superior Dom Helder Câmara. Autor e coautor de vários livros e artigos na área de família, direito ambiental e processual civil.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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