24 Mar 2021 | domtotal.com

Bolsonaro e a guerra do vírus: ao invés de investir em Saúde, governo libera churrasco e aumento para militares

Segundo o orçamento, o problema do Brasil Orçamento, não são os quase 300 mil mortos: a verba da saúde é a mesma de 2020 e os profissionais da saúde não terão aumento nenhum

De cada 5 reais que sobraram, um é dos militares.
De cada 5 reais que sobraram, um é dos militares. (Alan Santos/PR)

Carlos Brickmann

Respondendo a pressões americanas contra incêndios na Amazônia e no Pantanal, no fim do ano passado, Bolsonaro disse que quando as palavras acabam chega a hora da pólvora. Pois agora, cansado das palavras contra a Covid, parece ter decidido ir à guerra contra os coronavírus: destinou 20% do orçamento oficial para as Forças Armadas. Serão destruídos a bala!

Além disso, para estimular os combatentes, decidiu que os militares serão os únicos servidores a ter reajuste neste ano. A nutrida tropa (nutrida com 700 mil kg de picanha, 80 mil litros de cerveja, boa parte importada, uísque do bom e enorme estoque de leite condensado) terá armas à vontade. Tremei, vírus!

Não é brincadeira, é a sério. O problema do Brasil, ensina o Orçamento, não são os quase 300 mil mortos: a verba da saúde é a mesma de 2020 e os profissionais da saúde não terão aumento nenhum. Já os militares poderão, sem problema de recursos, tocar o projeto do submarino nuclear e construir os convencionais, comprar blindados, caças, desenvolver o cargueiro tático. O vírus não terá como fugir, perseguido com poderosas armas de fogo no ar, na terra e no mar! E, sugere este colunista, não vamos esquecer que o general Pazuello, que acaba de deixar a Saúde, pode liderar a guerra ao vírus.

O orçamento deve ser votado por estes dias. Já não há grandes recursos para investimentos, mas, de cada 5 reais que sobraram, um é dos militares.

Curioso é que o Centrão não reclamou. E, afinal, sobra menos para eles.

Organizações Tabajara

O caro leitor reparou que Israel e Nova Zelândia liberaram o uso de um spray nasal israelense contra o coronavírus?

Lembra que, há alguns dias, uma delegação brasileira de dez pessoas foi a Israel comprar um spray nasal israelense contra o coronavírus?

Pois é: mas negociaram o errado. A fabricante do spray que foi liberado, a Sanotize, informou à CNN que seu produto nada tem a ver com o EXO-CD-24, que entusiasmou o presidente Bolsonaro. Efetivamente, o EXO-CD-24 está só agora iniciando a primeira fase de testes, enquanto o produto da Sanotize já está liberado e à venda. Disse a assessoria da Sanotize:

“O governo brasileiro está negociando o spray errado. Sanotize é diferente, com desenvolvimento mais avançado e resultados mais fortes que o EXO-CD-24”.

Claro que a empresa tende a apresentar seu produto como melhor que o eventual concorrente, só que no caso o concorrente ainda está em teste.

Mas tudo certo: se o Governo brasileiro levou sete meses para comprar a vacina da Pfizer, para os responsáveis pelo combate à Covid esperar um remédio ser testado enquanto outro já está na praça deve parecer normal.

Acelerando

Um grupo de empresários, liderado por Luciano Hang, da Havan, e Carlos Wizard, da Sforza, quer importar vacinas por sua conta, mas mudando um pouco as regras do jogo: hoje, poderiam importar as vacinas por sua conta, mas doando todas ao SUS até que todos os grupos prioritários tivessem sido atendidos. Eles pretendem imunizar seus funcionários e famílias, e lembram que as pessoas que vacinassem sairiam da fila do SUS. Há, no grupo, alguns que concordariam em doar parte das vacinas ao SUS (fala-se em metade) e utilizar a outra metade para imunizar seus funcionários. Hang, muito ligado a Bolsonaro, e Wizard, também bolsonarista, querem conversar ainda nesta semana com o presidente da República.

Por que não?

Na opinião deste colunista (que não conversou com especialistas, pode estar totalmente enganado, mas só usa o bom senso), o pedido de ambos não tem nada de estranho: é melhor vacinar os funcionários do que fechar as empresas por longo tempo. E qual o mal? De qualquer forma, o SUS ganha, ou com mais vacinas ou com menos gente a vacinar. Seria interessante um bom debate sobre o tema. E, se eles conseguem importar vacinas, por que o Governo não consegue?

Sem ter qualquer ligação com vacinas, soube que uma trading company oferece vacinas russas Sputnik V ao Brasil, a partir de 500 mil doses. São sérios? Não sei; mas pessoal de importação levanta a ficha da firma, discute contratos, datas de entrega – e, se o endereço caiu nas mãos de um leigo, certamente terá chegado a quem é do ramo.

Em nome das doações

Alô, governador João Doria: está em suas mãos – e esperamos que o vete – o PL 507/2015. O projeto obriga as distribuidoras de eletricidade a detalhar minuciosamente os dados referentes a consumo e a encargos setoriais. Até aí, ótimo: mas é comum que os consumidores autorizem a cobrança, na conta, de doações para entidades assistenciais ou filantrópicas, tipo Santa Casa.

Diz o projeto que está nas mãos do governador que estas doações precisam ter códigos de barras separados. Se alguém autoriza doações a uma ou duas filantrópicas, mais o pagamento de seu seguro, a conta vai ficar com tantos códigos de barras que os caixas das instituições certamente se confundirão.

Carlos Brickmann
é jornalista e diretor do escritório Brickmann&Associados Comunicação, especializado em gerenciamento de crises. Desde 1963, quando se iniciou na profissão, passou por todos os grandes veículos de comunicação do país. Participou das reportagens que deram quatro Prêmios Esso de Equipe ao Jornal da Tarde, de São Paulo. Tem reportagens assinadas nas edições especiais de primeiras páginas da Folha de S.Paulo e do Jornal da Tarde.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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