25 Mar 2021 | domtotal.com

O centenário da rainha do choro

Ademilde Fonseca foi uma cantora superlativa, de raro talento e perfeita divisão rítmica

Em seis décadas de carreira, Ademilde lançou mais de 60 discos
Em seis décadas de carreira, Ademilde lançou mais de 60 discos (Reprodução/Agência Senado)

Jorge Fernando dos Santos

Todo mundo conhece as grandes cantoras americanas, entre elas Billy Holiday, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan – a meu ver as três maiores. No entanto, quais seriam as principais intérpretes brasileiras do século 20? Elis Regina e Carmen Miranda, com certeza, ainda são festejadas, mas pouca gente se lembra, por exemplo, de Ademilde Fonseca, cujo centenário merece registro.

Ademilde Fonseca Delfino nasceu em São Gonçalo do Amarante, RN, em 4 de março de 1921. Começou a cantar muito nova e migrou para o Rio de Janeiro em busca de oportunidades. Enturmada com os grandes músicos da época, não demorou a gravar com o regional de Benedito Lacerda. Sua estreia se deu em 1942, com Tico-tico no fubá, de Zequinha de Abreu e Eurico Barreiros. O sucesso a consagrou como a rainha do choro.

Essa história foi bem contada por Lígia Jacques, no sábado passado, no programa Roda de Choro, apresentado por Ruy Godinho pela Rádio Câmara e outras emissoras do país. A cantora belo-horizontina lançou em 2011 o CD Choro cantado, em homenagem aos 90 anos de Ademilde. Ambas se encontraram no Sem censura, programa de Leda Nagle pela TVE. A rainha do choro morreria um ano depois, logo após uma apresentação.

Técnica insuperável

Ademilde Fonseca foi uma cantora superlativa, de raro talento e perfeita divisão rítmica. Mesmo cantando rápido, ela pronunciava as palavras com exatidão, sem desafinar ou engolir sílabas. Fazia isso numa época em que as gravações eram realizadas ao vivo e sem remendos. Outras cantoras, como Carmen Miranda, Baby Consuelo e Nara Leão, também gravaram choros. Contudo, nenhuma a superou em termos técnicos.

Ao longo de seis décadas de carreira, Ademilde lançou mais de 60 discos, entre 78 rotações, LPs e CDs. Além dos choros que a consagraram, como o famoso Brasileirinho, de Waldir Azevedo, gravou com a mesma maestria baiões, maxixes e sambas de breque. Foi durante muito tempo uma das principais atrações do rádio, trabalhou na TV Tupi e fez shows em todo o país e também no exterior.

Uma das mais belas homenagens que lhe prestaram foi a composição Títulos de nobreza, de João Bosco e Aldir Blanc, cujo subtítulo é justamente Ademilde no choro. A letra é um verdadeiro relicário de clássicos do gênero. Essa música foi escolhida a dedo para encerrar o segundo CD de Lígia Jacques, cuja história também merece ser contada.

As flores em vida

Ao tentar lançar seu primeiro disco, Choro barroco, no Clube do Choro de Brasília, Lígia ouviu a desculpa de que ali era um espaço exclusivo para música instrumental. Quando ela me contou o caso, sugeri fazermos um disco em desagravo, lembrando que a voz humana é o instrumento primordial que antecede todos os outros. Até porque foi a voz de Ademilde que transformou o choro no popular "chorinho", aclamado pelas multidões.

Para agravar a pirraça, substituímos o tradicional conjunto regional por um trio de base formado por violão de seis cordas (Rogério Leonel), baixo acústico (Milton Ramos) e percussões (Sérgio Silva). Leonel escreveu todos os arranjos, colocando a solista Lígia, sua esposa, para fazer também um coro de quatro vozes quadruplicadas no estúdio.

Nasceu assim Choro cantado, que contou com as participações do cantor Celso Adolfo (em Domingueiro, uma de minhas parcerias com Valter Braga), do cavaquinista Ausier Vinícius (em Pedacinhos do céu, de Waldir Azevedo e Miguel Lima) e do bandolinista Hudson Brasil (em Satan, de Chiquinha Gonzaga com letra de minha autoria).

O dono do estúdio, Jairo de Lara, fez a direção artística, tocando sax e flauta em algumas das 10 faixas – cinco das quais fizeram parte do repertório de Ademilde. O resultado não teria sido o mesmo sem a técnica de Eloísio Oliveira e a coordenação do saudoso Tião Rodrigues. Alegria maior foram os aplausos da homenageada, ao receber nossas flores em vida.

Confira o programa Roda de Choro na Rádio Câmara.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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