30 Mar 2021 | domtotal.com

Capesius, finalmente, chega em Auschwitz

Adolf Kromer, o farmacêutico de Auschwitz, necessitava com urgência de um competente assistente

Capesius (com óculos) como réu no julgamento de Auschwitz
Capesius (com óculos) como réu no julgamento de Auschwitz (Arquivo/'Das Auschwitz-Album')

Newton Teixeira Carvalho

No artigo da semana passada vimos que Capesius tinha o privilégio de trabalhar nas farmácias dos campos de concentração, embora considerado alemão de segunda classe. Apesar de ser romeno, este farmacêutico acabou caindo nas graças, no campo de Dachau, do médico e coronel Enno Lolling, o responsável por todos os médicos da SS, em todos os campos de concentração.

Esse médico, Lolling, gostava do macabro, do absurdo, a ponto de ter ordenado que nos campos de concentração centenas de peles humanas tatuadas fossem retiradas dos presos. Para tanto, essas pessoas eram assassinadas com injeções de fenol no coração e a pele cuidadosamente retirada e secada. Depois deste desumano processo as peles eram enviadas aos lotes para Lolling, conforme relata Patrícia Posner na página 45 de El farmacéutico de Auschwitz.

Também algumas dessas peles humanas eram enviadas ao Instituto Kaiser Guilhermo, em Berlin, o preeminente centro de investigação do Terceiro Reich, que possuía a disciplina: "Higiene racial" e outra, recente, sobre
"eugenia." Entretanto, as melhores peles eram transformadas pelo médico Lolling em presentes (carteiras ou cigarreiras) para os colegas oficiais, amigos dele.

Lolling deu instruções aos colegas médicos da SS, no campo de concentração de Buchenwald, para que investigassem como reduzir cabeças humanas, uma outra fascinação mórbida deste médico, que negou, constantemente, os valores defendidos por Hipócrates, o pai da medicina. Da experiência realizada em trinta prisioneiros, somente três cabeças foram "exitosamente reduzidas" ao tamanho de uma maça e uma delas o comandante do campo de Buchenwald a utilizava como peso para colocar sobre os papéis. Como disse Arendt: é a total banalização da vida humana.   

Chegado o ano de 1943 esse monstro/médico chamado Lolling, protetor de Capesius, o informou que o iriam transferir para Auschwitz, e Capesius sabia que a Alemanha já tinha inúmeros campos de concentração. Porém, Auschwitz era considerado especial, em razão do tamanho e a já impressionante reputação, como campo de prisioneiros. E, conforme visto em artigos anteriores veiculados aqui, foi lá que a I. G. Farben construiu Monowitz, a somente sete quilômetros de distância daquele que passou para a história com o pior centro de horrores praticados contra seres humanos.

E Auschwitz, em razão da invasão dos nazistas da União Soviética, em setembro de 1941, cresceu em número populacional enormemente. Os alemães tinham em poucos meses aproximadamente 1,5 milhões de prisioneiros de guerra e careciam de lugares para colocá-los. Para tanto, Himmler, o chefe da SS, ordenou a construção de um segundo campo, chamado de Birkenau. Localizado próximo da linha de trem de ferro, programado para receber duzentos mil prisioneiros, vários deles enviados para trabalhar na Farben, Krupp e Siemens. Ressalte-se que outras empresas alemãs exigiam a abertura de mais campos, todas pensando na força de trabalho escravo, em razão da desumanização dos prisioneiros.  

Porém, o plano inicial de que Birkenau fosse apenas um gigantesco campo de prisioneiro de guerra durou pouco, considerando que, em fevereiro de 1942, os nazistas decidiram oficialmente pelo absurdo dos absurdos, em plena metade do século 20, ou seja, optaram pela adoção da Solução Final que, como sabido, era a política de exterminar todos os judeus da Europa.

Assim e em razão da Solução Final, necessário foi criar campos de extermínio em várias partes dentro da Polônia, como Treblinka, Majdanek, Chelmno e Sobibor que, entretanto, não tinham a capacidade para matar rapidamente os milhões de judeus que viviam em países conquistados pelos nazistas. Foi com esta necessidade que Birkenau foi remodelado, passando de campo de trabalho forçado para também campo de extermínio, com as mais avançadas câmaras de gazes.

Capesius sabia que Auschwitz, já um campo de prisão, de trabalho forçado e de morte, era diferente de todos os outros. Também sabia Capesius que era naquele local que os médicos da SS e as empresas farmacêuticas alemãs tinha o maior número de "porquinhos da Índia", na verdade "humanos judeus", para levar a cabo os experimentos com remédios e as mais atrozes experiências médicas praticadas entre os vivos e os também mortos, posto que tal fato, ou seja, a vida, pouco importava para aqueles monstros.

Segundo relatou Lolling a Capesius, Adolf Kromer, o farmacêutico de Auschwitz, necessitava com urgência de um competente assistente, considerando que Kromer não conseguia cumprir a contento com todas as lúgubres tarefas e já se encontrava sob depressão. Entretanto, Capesius não pretendia ir para aquele campo. Preferia ficar em Dachau e, para tanto, sem sucesso, postulou junto ao amigo o cancelamento de tal transferência.

Assim é que, em dezembro de 1941, Capesius adentra em Auschwitz, se apresentando ao doutor Eduard Wirths, um capitão da SS de trinta e quatro anos, que tinha sob a responsabilidade dele os vinte médicos daquele campo. Esses médicos, quando da chegada de Capesius, eram responsáveis por tudo o que ocorreria no Campo, desde o atendimento médico pessoal da própria SS, bem como manter a vida dos trabalhadores forçados e também supervisionar os famosos, negativamente falando, e atrozes experimentos médicos.

Capesius sabia, antes de chegar naquele campo, que Wirths trabalhava na investigação tanto da esterilização em série como também no câncer cervical. Porém, não era do conhecimento de Capesius que Wirths, esse outro médico/monstro/nazista autorizou experimentos em várias presas, destruindo os ovários delas com radiação ou arrancando-os, mediante cirurgias rudimentares, que resultava em 80% de mortes.

Os absurdos perpetrados ou autorizados por Wirhts eram tamanhos que Helmut, um irmão mais novo dele, um conhecido ginecologista de Hamburgo, esteve em Auschwitz, em 1943, para cooperar com os experimentos. Entretanto, Helmut não quis se unir a tais barbáries e, após discussão com o irmão, não quis permanecer mais naquele campo.

Newton Teixeira Carvalho
Pós-Doutorado em Docência e Investigação pelo Instituto Universitário Italiano de Rosário (2019). Doutor em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2013), Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2004). Especialista em Direito de Empresa pela Fundação Dom Cabral (1987), Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1985). Desembargador da 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Juiz de Direito da 1ª Vara de Família até junho de 2012. Professor de Direito de Família da Escola Superior Dom Helder Câmara. Autor e coautor de vários livros e artigos na área de família, direito ambiental e processual civil.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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