30 Mar 2021 | domtotal.com

Não me diga verdadezinhas, dói demais

Porque gostamos mesmo é de uma boa mentira que nos ajude a viver iludidos, perdidos de nós mesmos

Já que é duro lidar com a realidade, fica mais fácil deixar-se iludir
Já que é duro lidar com a realidade, fica mais fácil deixar-se iludir (Unsplash/Rachit Tank)

Gilmar Pereira

O brasileiro é um povo místico, mesmo que não esteja tratando estritamente de religião. Sim, uma visão mágica permeia o olhar nestas terras, ainda que parte dele seja corroborada por teorias estrangeiras, como as difundidas no livro O segredo, que inclusive ganhou uma versão nacional, sua releitura feita por Ana Maria Braga.

Ter uma versão desse best seller pela apresentadora, que é devota de Nossa Senhora de Fátima, é testemunho da bricolagem nacional, que mistura credos sem fazer oposição entre eles. Como o faz Ana Maria, pode-se crer em Maria e postular a ideia do livro de uma lei da atração universal, como se fosse possível conquistar o que se quer pela força do pensamento. Talvez não pareçam ser credos opostos, mas podem não ser compatíveis a doutrina católica, da qual despende a devoção mariana, e as teorias que atribuem poder e confiança numa força obscura do universo ou de si mesmo.

O fato é que a crença na teoria da atração parece explicar o medo brasileiro de lidar com a realidade. Por exemplo, se alguém tomasse veneno e o médico dissesse que a pessoa iria morrer, não poderíamos dizer que a palavra do médico estaria atraindo a morte ou o mal, mas simplesmente traçando um prognóstico em vista do diagnóstico, a realidade do paciente. Contudo, quando alguém diz que determinado político não vai bem e que as consequências para o país serão ruins, muitos se arvoram em dizer: "Vocês têm que torcer pelo Brasil e não ficar o puxando pra baixo".

Bem, não se trata de torcer ou não. Não é o descrédito do povo que faz dar errado uma ação política, senão sua própria natureza viciada ou equivocada, dada a inaptidão de determinado mandatário para a gestão da coisa pública. O que se nota é que, como o eleitor se implica afetivamente àquele a quem elegeu, tenderá a justifica-lo ou buscar tangenciar o reconhecimento do equívoco de sua própria opção eleitoral.

Isso funciona com outras coisas também. Pense num medicamento, como a invermectina, que em laboratório aparece como útil contra a ação do coronavírus. Entretanto, para causar seu efeito no organismo precisa ser ingerida numa larga quantidade. O problema é que esse montante, necessário às células dos pulmões, também iria para órgãos como o fígado, que não o suportariam. Ou seja, a ideia de um tratamento precoce com o medicamento é cientificamente inviável. Não obstante, a pregação que se houve é a de que não se deve roubar a esperança do povo na possibilidade de um medicamento barato resolver seu problema.

Pois bem, não se trata de tirar ou dar esperanças, pois não é a crença no medicamento que o fará ser eficaz contra uma enfermidade. Porém, encarar essa realidade implica em lidar com a necessidade de isolamento e a angústia da possibilidade de se adquirir a doença enquanto se aguarda pela vacina.

Recentemente um conhecido esbravejava contra os que não sabem apoiar. É que ele passou a mexer com um desses novos aplicativos de day trader, que se parecem mais com um jogo de apostas. Ele fizera uma postagem sobre seus investimentos numa rede social digital e seus amigos o avisaram do risco que isso implicava. Bastou o alerta para que ele fizesse novas postagens contra os "falsos amigos" que queriam colocá-lo para baixo.

Não encarar a realidade dos riscos e de sua ignorância sobre o mercado de ações possibilitava a esse rapaz a coragem de arriscar. Era necessário criar uma ilusão sobre si. Se algo der errado, terá sido um imprevisto, o que tiraria dele a responsabilidade pelo seu erro no investimento. Na verdade, lidar com a responsabilidade sobre a própria vida é difícil. Implica em arcar, além dos possíveis sucessos, com a dureza dos fracassos.

Tudo isso nos faz lembrar uma frase eternizada numa música de Cazuza: "Mentiras sinceras me interessam". Já que é duro lidar com a realidade, fica mais fácil deixar-se iludir. Nota-se que esses que a negam usam como tática, sobretudo, o não aprofundamento sobre ela. É cômodo dizer que vários médicos ou várias pesquisas apoiam determinado postulado, do que ler e estudar esses argumentos, verificar sua validade e método. É mais prático reproduzir fake News e, assim, dar vazão à própria ira, do que apurar sua veracidade.

Negar a realidade é um mecanismo de defesa do ego. Se a realidade favorece algum tipo de conflito psíquico ou sofrimento ao indivíduo, este desenvolve um trabalho inconsciente de autoproteção, negando a realidade e substituindo-a por outra que mais agradável. Assim são criadas as justificativas mais adversas. Daí se vê uma mulher defendendo o marido que trai, culpando a amante, que teria seduzido o inocente homem; ou então a mãe que, não podendo admitir a homossexualidade do filho, atesta que este está confuso e tudo isso não passa de uma fase.

Na verdade, quem nega a realidade a conhece, apenas mente para si. O problema disso é que a negação pode ser sintoma de um problema maior, de não assumir quem se é na existência, um automascaramento para se ver melhor. A negação como defesa pode ser reflexo da negação de si, que filosoficamente chamamos de má-fé. No fundo, o que nos dói não são as mentiras. Elas são apenas tentativas de tamponar feridas, coisas que não queremos ver. De sorte que são elas que nos interessam. O que machuca mesmo é a realidade, esta que nos mostra a finitude, o erro, o feio, o fracasso de nossas vidas. O resultado adverso desse mascaramento é o tamponamento também do que é belo, bom e pode nos realizar.

Se o adulto tem como marca a autonomia, a capacidade de responder sobre a própria vida, fantasiar a realidade é uma forma de infantilização. Embora crescidos, muitos ainda não adulteceram e parecem modificar a letra de uma antiga canção, da novela infantil Chiquititas: "Não me diga verdadezinhas, dói demais". Tamponar a realidade talvez seja pior, já que ferida tampada pode não curar.

Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é doutorando em Mídia e Cotidiano e está em formação como psicanalista. Mestre em Comunicação e Semiótica, bacharel e licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, também possui formação em Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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