06 Abr 2021 | domtotal.com

Uma breve descrição de Auschwitz quando da chegada de Capesius

A partir de 1943, somente médicos selecionariam quem iria morre ou viver em Auschwitz, porque alguns seriam usados para experiências em laboratório

Mulheres e crianças judias selecionadas para morrer em Auschwitz-Birkenau caminham em direção às câmaras de gás
Mulheres e crianças judias selecionadas para morrer em Auschwitz-Birkenau caminham em direção às câmaras de gás (Anônimos, possivelmente os fotógrafos da SS E. Hoffmann & B. Walter)

Newton Teixeira Carvalho

Chegando em Auschwitz Capesius se apresentou ante o doutor Eduard Wirths, capitão da SS de trinta e quatro anos, que chefiava os vinte médicos daquele campo de horrores. Entretanto, seis meses antes da chegada de Capesius, Wirths fez algumas modificações que transformariam para sempre a vida naquele campo e a maneira pelo qual, no futuro, os médicos que lá serviram seriam julgados. É que, até princípios de 1943, os membros da SS, designados por Rudolf Hoss, comandante de Auschwitz e um assassino convicto, eram quem selecionavam as pessoas que iram viver ou morrer, tão logo chegassem naquele lugar, através de trem de ferro.

E, como dito em artigo anterior, já publicado neste veículo, a maioria dos prisioneiros considerados aptos ao trabalho, incluindo velhos, crianças e grávidas, se deslocavam para a esquerda, ou seja, morte em câmara de gás.  Foi assim que 1,5 milhões de deportados para aquele campo morreram imediatamente, nesta total banalização da vida e coisificação do ser humano. E ainda existem pessoas que querem negar tais fatos, apesar das várias provas documentais existentes e também de diversas pessoas que sobreviveram ao holocausto, em razão da derrota alemã.   Esses escolhidos na rampa da estação de trem recebiam tatuagem no antebraço, com a finalidade de identifica-los e vigiá-los.  

Os que eram direcionados à direita, para trabalho forçado, morriam rapidamente, em razão da subnutrição, enfermidades e maus tratos. E também trabalhavam como carpinteiros, eletricistas, barbeiros e na cozinha. E, de vez em quando, vigiados por guardas armados, trabalhavam fora do campo em canteiros, cavando túneis, tirando neve do caminho e escombros, depois dos ataques aéreos.

As mulheres eram obrigadas a trabalhar com as toneladas de pertences pessoais subtraídos dos prisioneiros recém chegados e também na preparação de objetos de valores que eram levados à Alemanha. Algumas mulheres eram obrigadas a "trabalhar" como escravas sexuais. Várias foram salvas da morte pelos médicos que as levavam para trabalhar como assistentes deles, dos farmacêuticos e dos dentistas.  

Com relação aos dentistas prisioneiros, eram eles obrigados a retirar ouro das bocas dos defuntos, que era transformado em moeda, quando não furtado lá mesmo, inclusive por Capesius. E os prisioneiros tidos como mais sadios, selecionados para viver, frequentemente tinha sob a responsabilidade deles a função, horrível, de retirar os cadáveres das câmaras de gás.

Entretanto, Wirths, o médico chefe, pretendia que a seleção dos presos recém chegados em trem ficasse sob o controle exclusivo dos médicos. Para este profissional, somente os médicos deviam tomar as decisões sobre quem iria viver ou morrer. E esse profissional inescrupuloso entendia, também, que tinha naquele campo a oportunidade, sem precedentes, para o avanço da ciência nazista. Por conseguinte, somente os próprios médicos é quem deveriam selecionar as pessoas, "os seus porquinhos da Índia", que, como sabido, são utilizados em experiência em laboratórios.

E esse entendimento de Wirths foi sobremaneira reforçado com a chegada naquele inferno na terra de outro doente, Josef Mengele, de trinta e dois anos. Este médico era protegido por Otmar Freiherr von Verschuer, um dos mais importantes geneticistas da Europa e que se encontrava na frente da pseudociência nazista. Ainda como estudante de medicina, Mengele trabalhou como assistente de investigação de Otmar no conceituado Instituto para a Pureza Hereditária, Biológica e Racial do Terceiro Reich da Universidade de Frankfurt.

O trabalho do mestre (Otmar) com o assistente (Mengele) fazia parte da emergente filosofia nazista, que entendia ser possível selecionar, manipular e melhorar e, por conseguinte, "purificar" os humanos.  E Otmar, nestas pesquisas, dedicou a maior parte em estudar os gêmeos.  Foi Otmar que insistiu na nomeação de Mengele para Auschwitz e também destinou a ele fundos para alguns experimentos médicos.

Em Auschwitz, Mengele precisava de muitos gêmeos para continuar com suas pesquisas. E localizá-los entre milhares de prisioneiros exaustos, sujos e desorganizados, que aportavam no campo, depois de inúmeras horas de viagem em trem de gado, era muito complicado e trabalho para especialistas, razão a mais para que os médicos fizessem a seleção dos prisioneiros recém chegados.

Assim foi que todos os médicos daquele campo, incluindo Wierths, ficaram responsáveis, durante vinte e quatro horas, pela seleção dos prisioneiros. Dois médicos recebiam os trens que chegavam.  Alguns profissionais não ficaram contentes com tais tarefas e um deles chegou a escrever que o Inferno de Dante não passava de mera comédia. Outros, entretanto, competiam para fazer parte da seleção por causa nada nobre, ou seja, por vantagens adicionais: quinta parte de um litro de vodca, cinco cigarros, cem gramas de salsicha e pão, conforme anota Patrícia Posner, no já sempre citado livro, El farmacéutico de Auschwitz, que embasa todos os artigos aqui publicados, com relação ao holocausto nazista.

Outros médicos não careciam de incentivo adicional, pois consideravam, absurdamente, esta tarefa, de selecionar pessoas para viver ou morrer, como um dever.  E Mengele, o que acabou morrendo no Brasil, muitos anos depois de aqui permanecer escondido, oferecia-se como voluntário para turnos extras. Assim foi que milhares de prisioneiros, tão logo chegavam na porta de Auschwitz, avistavam a imagem deste Oficial da SS, vestido impecavelmente, na ânsia de selecioná-los para a vida, por pouco tempo, ou para a morte, de imediato, em câmeras de gás.

Newton Teixeira Carvalho
Pós-Doutorado em Docência e Investigação pelo Instituto Universitário Italiano de Rosário (2019). Doutor em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2013), Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2004). Especialista em Direito de Empresa pela Fundação Dom Cabral (1987), Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1985). Desembargador da 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Juiz de Direito da 1ª Vara de Família até junho de 2012. Professor de Direito de Família da Escola Superior Dom Helder Câmara. Autor e coautor de vários livros e artigos na área de família, direito ambiental e processual civil.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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