08 Abr 2021 | domtotal.com

Abril despedaçado

Se as medidas corretas tivessem sido adotadas desde o início da pandemia, os resultados seriam outros

Nenhum presidente foi tão insensível e irresponsável quanto Jair Bolsonaro
Nenhum presidente foi tão insensível e irresponsável quanto Jair Bolsonaro (Evaristo Sá/AFP)

Jorge Fernando dos Santos

A primeira frase do poema O enterro dos mortos, de T. S. Eliot, ecoa com a força de uma profecia funesta: "Abril é o mais cruel dos meses"... Segundo especialistas, o Brasil viverá nos próximos dias os piores momentos da pandemia de Covid-19. Mesmo que ouvidos moucos não ouçam, fato é que o mês da mentira já não nos permite meias verdades.

O aumento da contaminação pelas novas cepas do coronavírus tem sobrecarregado hospitais e cemitérios em várias partes do país. Por outro lado, constata-se que nenhum presidente foi tão insensível e irresponsável quanto Jair Bolsonaro, cujas trapalhadas contribuíram para o agravamento da crise. Se as medidas corretas tivessem sido adotadas desde o início da pandemia, os resultados seriam outros.

Esta semana batemos a marca diária de 4 mil mortes por Covid-19, ultrapassando o total de 340 mil. Ainda assim, existem aqueles que ignoram as dimensões da tragédia. Ao festejar seu aniversário em frente ao Palácio da Alvorada, em 21 de março, mais uma vez Bolsonaro estimulou a aglomeração, dando provas de sua estupidez. Ao combater o lockdown e o uso de máscaras, ele e seus seguidores fanáticos promovem o genocídio.

Entre o enfrentamento e a covardia, o problema maior nas horas mais graves é a indiferença. Nada mais lamentável que a falta de empatia somada à alienação diante da realidade dos fatos. Se não podemos agir diretamente para aliviar a dor alheia, o sentimento de solidariedade não deixa de ser uma oração silenciosa por aqueles que sofrem.

Ensinamento cristão

Houve um tempo em que sequer podia-se ligar o rádio em dias de velório. Muitas vezes era preciso aguardar a missa de sétimo dia. Este ano, em plena Semana Santa, vários religiosos contestaram o fechamento dos templos devido aos riscos de contaminação pelo coronavírus. É inacreditável que essa gente que se diz cristã ignore o ensinamento do próprio Cristo. Em vez de escrever, talvez Mateus devesse ter desenhado no seu Evangelho:

"Quando orardes, não sejais como os hipócritas, pois que apreciam orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem admirados pelos outros. Com toda a certeza vos afirmo que eles já receberam o seu galardão. Tu, porém, quando orares, vai para teu quarto e, após ter fechado a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto, e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará plenamente..."

Se Deus está em toda parte, qual o sentido de aglomerar fiéis em pleno auge da pandemia? A resposta plausível é que talvez aqueles que defendem a abertura dos templos pretendam, tão somente, antecipar o encontro com Ele. No entanto, se Deus é amor, só o amor pode nos conduzir ao Seu reino. Fora isso, o destino da alma seria outro. Pelo visto, tem muita gente adorando o Messias errado. Ou, melhor dizendo, o falso Messias.

Diante do negacionismo e da ignorância galopante, só nos resta apelar para o bom senso dos incautos. Quem não teme por si, deveria temer por seus entes queridos. Como escreveu o poeta John Donne, "nenhum homem é uma ilha isolada... A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti".

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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