14 Abr 2021 | domtotal.com

O jogo do perde-perde

Quem usa jacarés para tomar conta da casa precisa ter a certeza de que estão felizes e não passam fome

Governo precisa manter Centrão bem alimentado. Na foto, presidente em reunião com o vice-líder do governo no Congresso Nacional
Governo precisa manter Centrão bem alimentado. Na foto, presidente em reunião com o vice-líder do governo no Congresso Nacional (Isac Nóbrega/PR)

Carlos Brickmann

Com a CPI da Pandemia, aprovada pelo Senado e com ordem do STF para iniciá-la, quem ganha e quem perde?

  1. A CPI foi implantada como Bolsonaro quer, investigando também os prefeitos e vereadores. Assim se diluem as investigações – como disse o presidente, se a CPI fosse apenas sobre o governo federal, tudo cairia em cima dele. Só que o Brasil tem 5.568 municípios. É alvo demais para investigar. Se a CPI não anda, Bolsonaro e equipe não precisam responder sobre a inacreditável demora em comprar vacinas. Só que isso vale até o Centrão achar que deve: depois, fica mais caro.
  2. A CPI é implantada para valer. Bolsonaro terá de explicar por que não quis comprar vacinas da Pfizer, da Janssen, da Moderna, e só comprou a Coronavac (a "vachina", a "vacina do Dória", "aquela vacina comunista que não transmite segurança") porque São Paulo iria iniciar a vacinação e não haveria imunizantes para os demais estados.
  3. O presidente corre risco de impeachment e o Centrão é decisivo. Só que o acordo de Bolsonaro com o Centrão é para a campanha da reeleição. Impeachment não está no acerto. O Centrão pode apoiá-lo, tem condições de mantê-lo no poder, é forte o suficiente. Mas isso não é barato. Quantos ministérios e outros cargos custará o apoio?

O Centrão ganha. Governo e oposição perdem. Nós pagamos a conta.

Quem pode, pode 1

Bolsonaro brigou com o Supremo (lembre daquele seu ministro da Indukassão pouco educado que, em reunião ministerial, num linguajar de estrebaria, disse que queria prender o STF inteiro?); chamou o senador Randolfe Rodrigues de "bosta"; acusou o governador Dória de "patife"; disse que em todo o país governadores e prefeitos roubavam o dinheiro federal.

Quem pode, pode 2

Bolsonaro teve problemas com as Forças Armadas. Precisou nomear um general que (horror!) combateu direito a Covid para comandante do Exército. Tem apoio? Tem: o general Augusto Heleno e sua equipe o apoiam. Já o vice, o general Mourão, talvez se sinta chateado com as desfeitas que Bolsonaro lhe fez. Mas o presidente vai depender mesmo do Centrão e de Paulo Guedes, este para conseguir verbas que mantenham o Centrão bem alimentado. Uma recordação: Dilma caiu ao romper com o deputado Eduardo Cunha, à época expoente do Centrão. Quem usa jacarés para tomar conta da casa precisa ter a certeza de que estão felizes e não passam fome.

E faz quando não pode

Uma coisa devemos reconhecer: já que a oposição até agora não apareceu na briga, Bolsonaro ocupou com brilho o espaço desses a quem considera comunistas: João Dória, Eduardo Leite, Eduardo Paes, Fernando Henrique e (Por que não?) aquele comunista que já usou a fantasia de socialista fabiano, o professor (esses professores são sempre suspeitos) Delfim Netto. Há dias, falou longamente com o senador goiano Jorge Kajuru, dando-lhe instruções para melar a CPI e pressionar o STF. Kajuru é um front-runner, nunca segue os passos da manada. E é coerente: sempre grava suas conversas telefônicas e as distribui publicamente. Fez o que sempre faz: divulgou a conversa em que Bolsonaro lhe deu suas instruções (suficientes para dar base a um pedido de impeachment). E foi gentil: poupou Bolsonaro de uma parte do besteirol, deixando de divulgá-lo. Bolsonaro reclamou, e logo suas exigências foram atendidas: Kajuru divulgou a parte oculta, em que Bolsonaro ameaçava fisicamente o senador Randolfe Rodrigues, a quem chamou de "bosta".

A hora do zero à esquerda

O senador Flávio Bolsonaro, o filho 01 do presidente 000, resolveu ajudar o pai: anunciou que vai representar contra Kajuru na Comissão de Ética do Senado. Seria engraçado: Kajuru apenas divulgou a gravação da conversa, não foi ele que falou besteira. Mas não vai representar, não. A Comissão de Ética do Senado está fechada há 600 dias. Tudo não passa de jogo de cena.

Os 600 dias

O projeto que acaba com os supersalários no serviço público está há 600 dias aguardando que a Câmara dos Deputados vote sua urgência. O tema parou no dia 20 de agosto de 2012, esquecendo-se qualquer urgência.

O deputado federal Igor Timo requer que o texto seja pautado. Como diz, o projeto não é novidade: apenas regulamenta o teto salarial de servidores públicos estabelecido pela Constituição.

De acordo com documento enviado pelo Palácio do Planalto à Câmara em fevereiro, o projeto que elimina os supersalários é prioridade do governo para 2021. Estima-se que a economia será de R$ 2,3 bilhões por ano. Pelo projeto, auxílios, parcelas indenizatórias e outros penduricalhos passam a ser consideradas verbas sujeitas aos limites de rendimentos (R$ 39,2 mil por mês). Hoje, mais da metade dos magistrados ganha mais que o teto.

Carlos Brickmann
é jornalista e diretor do escritório Brickmann&Associados Comunicação, especializado em gerenciamento de crises. Desde 1963, quando se iniciou na profissão, passou por todos os grandes veículos de comunicação do país. Participou das reportagens que deram quatro Prêmios Esso de Equipe ao Jornal da Tarde, de São Paulo. Tem reportagens assinadas nas edições especiais de primeiras páginas da Folha de S.Paulo e do Jornal da Tarde.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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