15 Abr 2021 | domtotal.com

A risada das hienas

A credibilidade do governo cai na mesma proporção em que aumenta o número de mortos pelo coronavírus

As gargalhadas do presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores revelam o estado de espírito do mandatário
As gargalhadas do presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores revelam o estado de espírito do mandatário (ABr)

Jorge Fernando dos Santos

Num dos seus mais impressionantes relatos de caça, Ernest Hemingway narra a cena em que uma hiena ferida devora o próprio intestino até à morte. Isso mostra que a selvageria excessiva pode levar ao autocanibalismo. As gargalhadas do presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores, ao saberem que o pedido de impeachment de Alexandre de Moraes, do STF, havia caído no colo do ministro Kássio Nunes, revelam o estado de espírito do mandatário.



As risadas de terça-feira comprovam, mais uma vez, a alienação e a indiferença dessa gente diante do sofrimento humano. Naquele mesmo dia, o número de brasileiros mortos pela Covid-19 ultrapassava a marca dos 355 mil. Tal comportamento também demonstra que o presidente tem plena confiança no seu protegido. Como um agente infiltrado no Supremo a serviço do Executivo, mais uma vez Nunes fará de tudo para agradar o padrinho.

No entanto, como diz o velho ditado, "quem não deve, não teme". Ao querer intimidar aqueles que trabalharam em favor da CPI da Covid-19, Bolsonaro mostra que tem culpa no cartório. Se tivesse certeza da inocência, não hostilizaria Moraes publicamente e tampouco tentaria incluir governadores e prefeitos no mesmo inquérito. Afinal, se a CPI não der em nada, ele sairia no lucro.

Fato é que a credibilidade do governo cai na mesma proporção em que aumenta o número de mortos pelo Coronavírus. Portanto, tudo o que Bolsonaro menos deseja é ter que assistir ao depoimento do general Eduardo Pazuello na CPI. Uma vez pressionado pelos senadores, dificilmente o ex-ministro da Saúde assumirá sozinho a responsabilidade pelos erros cometidos durante a sua gestão.

A evidência dos fatos

Um presidente sem partido, cuja popularidade afunda a olhos vistos, dificilmente encontrará quem o defenda diante da evidência dos fatos. Oxalá seu filho 01, senador Flávio Bolsonaro, consiga argumentar em seu favor. Outro que talvez possa defendê-lo é Jaques Wagner, que declarou considerar inoportuna a abertura da CPI no ápice da pandemia.

A opinião do senador baiano reflete a estratégia petista, que visa empurrar o presidente com a barriga até as eleições de 2022, quando Lula tentará chutá-lo nas urnas feito um cachorro morto. Em outras palavras, lulistas radicais têm na Covid-19 uma grande aliada. Quanto mais mortes durante o atual governo, menos eleitores Bolsonaro terá e Lula ressurgiria como o salvador da pátria. No jargão militar, essas mortes seriam consideradas "danos colaterais".

Contudo, aguardar o fim da pandemia para investigar o governo seria, no mínimo, adiar o inadiável. Trata-se da maior tragédia já ocorrida no país e ninguém sabe onde ela vai parar. Boa parte das mortes e do sofrimento da população poderia ter sido evitada se o presidente tivesse agido a contento, assumindo a liderança que lhe cabia. Em vez disso, preferiu se deixar levar pela vaidade e pelo orgulho ferido, atitude típica de psicopatas quando são contrariados.

Vale lembrar que o STF só autorizou a ação de governadores e prefeitos contra a pandemia devido à inoperância da administração federal. Isso não tirou do presidente a responsabilidade que lhe cabe. Também não significa que outros não devam ser investigados. No entanto, longe de ser um bode expiatório, Bolsonaro sabe que vai pagar pelos próprios erros e tenta misturar as coisas para criar o caos e sair ileso. Como a hiena ferida, sua gargalhada é também de nervosismo, fruto de preocupação e de noites mal dormidas. Não que a consciência lhe pese, mas por se saber culpado da própria derrota.        

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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