15 Abr 2021 | domtotal.com

Psicopatia e cultura de massa

Caso do menino Henri levanta questão da psicopatia na sociedade

Mãe de Henry e padrasto foram presos pela Polícia Civil do Rio de Janeiro após investigar apontar que menino foi assassinado
Mãe de Henry e padrasto foram presos pela Polícia Civil do Rio de Janeiro após investigar apontar que menino foi assassinado (Reprodução/Redes sociais)

Flávio Saliba

Psicopatia

A morte do menino Henri Borel me faz retomar um tema abordado neste espaço há mais de uma década: o da psicopatia. Segundo a psiquiatra Ana Beatriz Silva, o psicopata desconhece as regras sociais e é desprovido de sentimento de culpa ou remorso. É um mentiroso contumaz, conquista facilmente as pessoas e só é capaz de estabelecer relações superficiais, que terminam assim que ele atinge seus objetivos.

O psicopata não tem alucinações e é plenamente consciente de seus atos. Os portadores desse transtorno são possessivos, jamais reconhecem os próprios erros, adoram ser o centro das atenções e, com frequência, causam danos a amigos e familiares. Mas há gradações entre os psicopatas dos tipos leve, médio e severo e, ao que se sabe, apenas estes últimos seriam propensos a matar e a praticar atos de crueldade extrema. Alguma dúvida sobre onde se encaixam os responsáveis pela morte de Henri?

Estima-se que 3% da população brasileira seja composta de psicopatas e que entre presidiários este percentual esbarre nos 40%. Estima-se, também, que nos últimos cinquenta anos o número de portadores deste mal tenha crescido vertiginosamente já que "o cenário social dos nossos tempos favorece o estilo de vida do psicopata". Eles se infiltram em todos âmbitos do tecido social: na medicina, no direito e, notadamente, na vida política.

Cultura de massa

Dois recentes artigos na revista Época abordam as relações entre negócios e música condenando a postura elitista dos críticos de gêneros como o axé, o sertanejo e o funk.  Em seu artigo, Jerônimo Teixeira afirma que "O preconceito contra o artista que ganha dinheiro com seu trabalho já era sentido no Renascimento. Vender as obras era algo malvisto". Já o artigo assinado pela cantora Anitta faz uma aberta defesa do funk.

Concordo com ela que "o barquinho vai, a tardinha cai" não corresponde à realidade do povão. O Brasil virou uma sociedade de massa com profundas desigualdades sociais sabiamente exploradas pela indústria fonográfica e a mídia. Há uma simbiose entre elas e o gosto popular que se reforçam. Anitta se pergunta: "Se para o funkeiro a diversão é rebolar, se é pelo prazer da conquista entre duas pessoas, se o sexo não é um tabu e é visto como algo natural e prazeroso, qual o problema?".  E responde, "Nenhum".

Eu me pergunto: quem vai cuidar dos rebentos dessa farra? A pobreza no Brasil tornou-se hereditária entre famílias chefiadas por mulheres com renda inferior a dois salários mínimos. Estas correspondem a cerca de 40% das famílias nesta faixa de renda, ultrapassando os 50% nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro e Salvador.

Por sua vez, um médico que cuidava de 250 pacientes de Covid num hospital de São Paulo, acionou a polícia para interromper um "pancadão" que o impedia de escutar os enfermos. A polícia alegou não poder interromper o evento que concentrava mais de duas mil pessoas. Não mencionou o fato de que sua ação costuma ser impedida em áreas controladas pelo crime organizado.

Flávio Saliba
Formado em Ciências Sociais pela UFMG (1968), Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris (1980), Pós-doutorado na Berkeley University (1994), Professor de Sociologia da UFMG. Livros publicados: 'O diálogo dos clássicos: divisão do trabalho e modernidade na Sociologia' (Ed. C/Arte, BH, 2004), 'História e Sociologia' (Ed. Autêntica, BH, 2007). Vários artigos publicados em revistas e jornais nacionais.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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