27 Abr 2021 | domtotal.com

'A memória do mar', repensando atitudes, no que tange aos refugiados!

Sem outra opção, famílias inteiras são obrigadas a se lançar às águas

Um policial turco carrega o cadáver de uma criança migrante (Aylan Shenu) na costa de Bodrum, no sul da Turquia, em 2 de setembro de 2015, depois que um barco que transportava refugiados afundou ao chegar à ilha grega de Kos
Um policial turco carrega o cadáver de uma criança migrante (Aylan Shenu) na costa de Bodrum, no sul da Turquia, em 2 de setembro de 2015, depois que um barco que transportava refugiados afundou ao chegar à ilha grega de Kos (Nilufer Demir/Dogan News Agenc/yAFP)

Newton Teixeira Carvalho

Ainda nesta semana vamos esquecer Auschwitz para falar do livro que carece de ser lido por todos nós, professores, alunos, empregados, aposentados, enfim, por todas as pessoas. A memória do mar é escrito dor Khaled Hosseini, o mesmo que escreveu O caçador de pipas, A cidade do sol e O silêncio das montanhas, todos também excelentes, porém mais profundos. Nesse livro citado, A memória do mar, tradução de Pedro Bial, de leitura rápida, no máximo em 20 minutos é possível lê-lo, foi inspirado na história de Alan Kurdi, o refugiado sírio que se afogou no mar Mediterrâneo, com três anos de idade apenas, quando tentava chegar com segurança na Europa. A fotografia rodou e chocou o mundo, momento em que apareceu um policial com o menino nos braços, na praia local aonde as ondas deixaram o corpo desta criança.

Em A memória do mar, que demonstra a preocupação com os refugiados, com os que, por algum motivo, têm que deixar as terras natais, há uma descrição de como àqueles pessoas que, sem outra opção, são obrigadas, com família inteira, a se arriscar em alto mar, rumo a um país desconhecido, alguns fechando as portas a essas pessoas, hostilizando-as ou, então, apenas como desencargo de consciência, colocando-as em guetos, segregando-as dos demais, em pleno século 21, E tais atitudes acontecem depois de passarmos pela mancha indelével do holocausto que, infelizmente, ainda não serviu de lição para grande parte da humanidade que, bestializada, pretende fazer de conta que essas barbáries não aconteceram e, por conseguinte, contribuem para que esses crassos erros do passado não tão distante se repitam no presente e tenham projeção no futuro.

Assim é que em A memória do mar o autor lembra que os hoje refugiados também tiveram uma infância como a nossa, que acordavam todos manhãs sempre na esperança de um ótimo dia. Podiam planejar até mesmo aonde ir ou com o que brincar. Tudo muito simples, como são brincadeiras das maiorias das crianças pobres, porém um necessário ritual da infância para que possamos não pular fases rumo ao desenvolvimento intelectual e emocional, que é uma construção diária.

Assim, Khaled Hosseini também nos transporta à cidade de Homs, local onde todos podiam viver suas diferenças, com mesquita para os muçulmanos e igreja para os vizinhos cristãos. Mercado para todos, local em que se vendia de tudo, de pingentes de ouro, alimentos frescos e vestidos de noiva, o que nos faz recordar também do mercado central de Belo Horizonte, como um espaço democrático e onde se vende de tudo, de pastel à eletrodomésticos, passando pela questionável venda de animais, que já é uma tradição e que, bem tratados, como acontece, não somos contra, principalmente considerando que já compramos, para criação, inúmeros coelhos naquele espaço, que também é uma terapia para todos nós, desde que não deixamos que comer pastéis, beber suco de cama ou de abocanhar pedaços de abacaxis, caso você não seja adepto de uma cerveja gelada.

Assim e depois de descrever a cidade de Homs, com ruas lotadas e cheirando a quibe frito, Khaled demonstra que tudo de repente se tornou um sonho, em razão dos protestos, no início, de depois o cerco àqueles povos. E, logo em seguida, "Os céus que cuspiam bombas. Fome. Enterros". Uma vida, antes descrita, que muitas das crianças daqueles país não mais puderem ter, ou seja, não mais a liberdade, a infância na fazenda, a ida ao mercado, tudo agora se torna distante e até mesmo inalcançável para inúmeras daquelas crianças nascidas debaixo de uma injustificável guerra.

Consequência da guerra, portanto, foi a drástica mudança na vida daquelas pessoas, que tiveram que naturalizar os acontecimentos, no sentido de que passaram a viver com eles cotidianamente, sob os escombros da guerra, com prédios caídos, vigas expostas, restos de corpos humanos e pessoas vivendo às escondidas no meio de uma nova e inesperada realidade.

Portanto, para àqueles povos (Afegãos, somalis, iraquianos, eritreus e sírios) o mar, rumo à algum país acolhedor, e da dependência total das intempéries, era uma saída, apesar de, se vivos chegassem, poderiam ser recusados, indesejados que eram por inúmeros países que se dizem democráticos e que afirmam praticar os direitos humanos, como se tais direitos fosse exclusivos dos nacionais e como se a soberania de um povo os cegasse para a realidade, para ao espírito de fraternidade e para a necessária prática da empatia.

Assim é que todos aqueles nossos irmãos indesejados, sem outra alternativa, acorrem para a praia na espera do barco, certos de que, com certeza, teriam outra acolhida se todos nós tivéssemos passados pelo sofrimento deles, pelas angústias deles. Portanto, família inteira adentra em barcos, com excesso de pessoas. Porém, não havia outra solução. Talvez chegam com vida. Melhor tentar do que morrer na própria terra, pelos próprios irmãos, que ainda não entenderam o que é viver na pluralidade, que querem impor a verdade, em nome de um Deus, olvidando esses ditadores, antes de tudo, de que Deus é bondade, amor, é pai e, por conseguinte, quer o bem de todos nós, independentemente de raça, nacionalidade, de cor, sexo, ideologia etc. etc.

Nesta viagem mar adentro, só resta rezar. "Rezar para que Deus bem conduza o barco, quando a costa se perder de vista e nós formos só um cisco nas altas águas, rodando e afundando, facilmente engolidos. Porque você, você é uma carga preciosa, Marwan, a mais preciosa que já existiu. Rezo para que o mar saiba disso. Oxalá".

Marwan é Alan Kurdi, o menino acima mencionado. Marwan são várias outras crianças e adultos que também fazem a travessia oceânica, em busca de paz, de vida nova, de amizade e que, se conseguem chegar com vidas, são recusados, discriminados e colocados em guetos em vários países que, por conseguinte, não os querem entre eles.

Porém, o mar, por diversas vezes, e como estão agindo diversos países, se faz de surdo e, por conseguinte, já matou vários refugiados, que poderiam não estar passando por estas constrangedoras e mortíferas situações, caso realmente os organismos internacionais fosse eficiente e também caso não fossem os direitos humanos apenas uma promessa, que se encontra distante de milhares e milhares de pessoas, a exemplo destes nossos irmãos que obrigatoriamente têm de deixar seus países e se arriscarem mar adentro, muitos deles rumo à morte! Está faltando também solidariedade! Está faltando humanidade!

Newton Teixeira Carvalho
Pós-Doutorado em Docência e Investigação pelo Instituto Universitário Italiano de Rosário (2019). Doutor em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2013), Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2004). Especialista em Direito de Empresa pela Fundação Dom Cabral (1987), Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1985). Desembargador da 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Juiz de Direito da 1ª Vara de Família até junho de 2012. Professor de Direito de Família da Escola Superior Dom Helder Câmara. Autor e coautor de vários livros e artigos na área de família, direito ambiental e processual civil.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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