29 Abr 2021 | domtotal.com

As ilusões perdidas

Brasil não parece ter chances de entrar para o 'Primeiro Mundo'

Lambe lambe em muro na Avenida Paulista, próximo da rua Haddock Lobo, anuncia que a fome no Brasil voltou
Lambe lambe em muro na Avenida Paulista, próximo da rua Haddock Lobo, anuncia que a fome no Brasil voltou (Roberto Parizotti)

Flávio Saliba

Manuel Castells foi, talvez, o mais brilhante analista do processo de globalização e dos impactos das novas tecnologias de informação na sociedade contemporânea. Ele apontou com pelo menos quatro décadas de antecedência para o fenômeno da brutal concentração de renda a nível mundial e ao nível de cada nação. Observou o processo de desindustrialização dos países desenvolvidos e alertou sobre a emergência do que ele chamou de Quarto Mundo. Este seria composto por nações pobres, dependentes da exportação de uma ou outra matéria prima, cuja desvantajosa inserção na nova divisão internacional do trabalho os levaria à catástrofe social.

Tais nações tendem a inserir-se no mercado mundial através de todo tipo de atividades ilegais como o tráfico de armas, drogas, pessoas e, mesmo, de órgãos para transplante. Trata-se de um prato cheio para a violência individual e coletiva e, pior, para a crescente infiltração do crime organizado no aparelho de Estado. Em muitos destes países campeiam as guerras e atos de terror promovidos pelo narcotráfico e por disputas étnico-religiosas.

Enquanto para Castells a massa de trabalhadores não qualificados está saindo de uma posição estrutural de exploração para uma posição estrutural de irrelevância, Wanderley Guilherme dos Santos argumenta em as Razões da desordem que o Brasil jamais alcançará os padrões de desenvolvimento do Primeiro Mundo. Isto porque, mesmo apresentando taxas menos elevadas de crescimento do produto interno bruto, as economias desenvolvidas continuam crescendo e as análises estatísticas indicam que o Brasil não tem como alcança-las.

Nos últimos anos o Brasil vem se desindustrializando antes mesmo de tornar-se uma economia plenamente industrial. Aqui vai uma longa citação de Santos: Em um mundo, "composto por Estados-nação, a divisão crucial entre países ricos e avançados, por um lado, e países pobres e atrasados, por outro, é institucional. Enquanto em países ricos as instituições públicas são[...] usadas para garantir justiça na competição política, social e econômica[...] nos países pobres, [...] as instituições públicas são fundamentalmente um circuito alternativo às transações de mercado para a acumulação de riqueza privada".

Por sua vez, as guerras, a perseguição política, o desemprego e a fome em muitas nações pobres têm promovido intensos fluxos migratórios em direção aos países ricos. Acontece que as elevadas taxas de desemprego e a diminuição das oportunidades de ascensão social nestes países têm contribuído para acentuar a xenofobia e a emergência de movimentos e governos de extrema direita.

Por razões que não cabe discutir aqui, o Brasil também vive um período de extrema polarização política e de sérias ameaças às instituições democráticas como revelam as referências do chefe da nação ao "meu exército". Mas, por uma questão de coerência, é bom lembrar que, quando acuado, Lula também ameaçou convocar "seu exército": o MST.

Flávio Saliba
Formado em Ciências Sociais pela UFMG (1968), Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris (1980), Pós-doutorado na Berkeley University (1994), Professor de Sociologia da UFMG. Livros publicados: 'O diálogo dos clássicos: divisão do trabalho e modernidade na Sociologia' (Ed. C/Arte, BH, 2004), 'História e Sociologia' (Ed. Autêntica, BH, 2007). Vários artigos publicados em revistas e jornais nacionais.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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