02 Mai 2021 | domtotal.com

Apagando o fogo com pólvora

CPI todos sabem como começa, ninguém imagina como acaba

A vida não se limita a xingar adversários
A vida não se limita a xingar adversários (Alan Santos/PR)

Carlos Brickmann

E não é que Bolsonaro tinha razão, ao dizer que quando acaba a saliva a pólvora é que fala? Aparentemente, monta-se um cenário em que, acabada a fase de desconstruir a imagem de Bolsonaro, começa o tiroteio de verdade.

Há dois movimentos paralelos: o primeiro é a CPI da Covid. O governo vem reagindo com provocações: Flávio Bolsonaro fingindo usar máscara, o Gabinete do Ódio agredindo senadores adversários (até com mensagens de ameaça à família), ataques pesados a Renan Calheiros – que, seja ele o que for, conhece o Senado como poucos. Está errado: o Senado é um clube, e os ataques abaixo da linha da cintura provocam solidariedade. E não sabem com quem lidam: o presidente da CPI, Omar Aziz, que Bolsonaro acha que está no pacote de compra do Centrão, tinha um irmão que morreu de Covid, no Amazonas. Digamos que pelo menos o general Pazuello não terá vida fácil.

O segundo movimento é o acúmulo de forças e a abertura de novas frentes de luta. Há 130 oposicionistas na Câmara; faltam 41 para abrir uma CPI. Aí o ministro Tarcísio de Freitas, próximo de Bolsonaro, resolve ignorar um diretor da Agência Nacional de Transportes Terrestres, ANTT, Weber Ciloni - técnico conceituado, ligado a Baleia Rossi, do PMDB. Ciloni sai do cargo nesta semana. Baleia e Renan, juntos, podem levar o PMDB para a oposição.

Há duas CPIs em mira, ambas na Câmara, uma sobre meio ambiente, área de alta sensibilidade internacional. A vida não se limita a xingar adversários.

O caminho das pedradas

Mesmo antes de outras CPIs, a que começa nesta semana tem potencial para dar dores de cabeça ao presidente. Para ter uma ideia do clima, o senador Omar Aziz ameaça mandar prender, por mentir à CPI, quem defender o uso de remédios não-comprovados, ou nocivos, contra a Covid. Outros temas (são 112): os índios que ficaram sem vacinação; a história real da troca das vacinas de Manaus pelas de Macapá; o motivo que levou o Governo a enviar cloroquina para Manaus quando o que faltava era oxigênio.

E, claro, os depoimentos. Teme-se que o general Pazuello, que até agora preferiu ignorar perguntas e ironizar adversários, tenha problemas quando tiver de responder. Será interessante, digamos, saber sua versão a respeito de ignorar as ofertas de vacinas feitas por laboratórios de prestígio, sem se dar ao trabalho de respondê-las; ou de cancelar a compra de vacinas do Instituto Butantan depois de ter-se comprometido a isso. Há quem tema que Fábio Wajngarten, por ser explosivo, caia em provocações da oposição. Não há motivo para esse temor: Fábio é frio o suficiente para dizer apenas o que julgar necessário, sem cair em provocações. O problema é o que ele vai considerar necessário contar à CPI. Uma história, talvez, de como a Pfizer foi rechaçada quando tentou vender vacinas aqui, para pronta entrega.

Fora do campo

Há ainda a ouvir os ex-ministros Luiz Mandetta e Nelson Teich, ambos contra remédios que não davam certo, ambos favoráveis à vacinação maciça e à testagem do maior número possível de pessoas; ambos contrários a juntar gente, a andar sem máscaras, tudo aquilo a que se dedicava o presidente. E o clima externo também não é favorável às teses de Bolsonaro: na quinta, 29, a 6ª Vara Cível Federal de São Paulo determinou, em liminar, que o Governo não patrocine publicidade referente a remédios sem eficácia comprovada contra a Covid, incluindo expressões como “tratamento precoce” e “kit Covid”. A União alegou que a propaganda procurava estimular a população apenas a procurar atendimento médico sem demora, e não a usar remédios não-comprovados. Ou seja, quando Bolsonaro ofereceu cloroquina até às emas do Palácio, seu objetivo era convencer a população a buscar tratamento.

Mas que as emas o bicaram, bicaram.

Lição de casa

CPI todos sabem como começa, ninguém imagina como acaba. Às vezes é difícil engolir uma derrota. Mas é interessante lembrar um fato histórico, ocorrido com um fiel aliado de Bolsonaro, o presidente Collor. Na véspera da votação do impeachment, o deputado paranaense Onaireves Moura, da tropa de choque do presidente Collor, foi visitá-lo para dizer que tinha um problema a resolver no Paraná e não estaria presente à votação. No dia seguinte, pegou o avião e saiu de Brasília. Mas, previdente, escolheu um voo com escala em São Paulo. Soube que o impeachment ganharia com folga.

Pegou o avião de volta para Brasília, foi ao plenário e votou contra Collor.

Calado é um poeta

Paulo Guedes abriu a boca de novo. Falou mal da China, maior parceiro comercial do Brasil (“o chinês inventa um vírus, os americanos fazem vacina melhor que a deles”).

E atacou o FIES, porque até o filho do porteiro do seu prédio foi aprovado com média zero. Fake, ministro. Se a média fosse zero, a faculdade inescrupulosa, louca para preencher mais uma vaga com dinheiro público, não deixaria rastros: colocaria outra média qualquer.

Carlos Brickmann
é jornalista e diretor do escritório Brickmann&Associados Comunicação, especializado em gerenciamento de crises. Desde 1963, quando se iniciou na profissão, passou por todos os grandes veículos de comunicação do país. Participou das reportagens que deram quatro Prêmios Esso de Equipe ao Jornal da Tarde, de São Paulo. Tem reportagens assinadas nas edições especiais de primeiras páginas da Folha de S.Paulo e do Jornal da Tarde.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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