04 Mai 2021 | domtotal.com

Flores para todos nós, ainda em vida, flores também para Algernon, sempre!

Livro analisa as várias outras facetas do viver em sociedade e a de conviver com as diferenças, sem desprezá-las

Algernon era o rato inteligente de Daniel Keyes
Algernon era o rato inteligente de Daniel Keyes (Unsplash/May)

Newton Teixeira Carvalho

Ainda ficaremos fora de Auschwitz, por mais esta semana, considerando que também não podemos deixar de mencionar sobre o livro de Daniel Keyes, Flores para Algernon, de leitura agradável, emocionante e obrigatória. Tal leitura nos induz a inúmeras reflexões, a partir dos direitos humanos, bem como das relações e das discriminações que os chamados cultos fazem no tocante aos menos cultos, esquecendo que tal visão é elitista, preconceituosa e desumana.

Aludido livro vai ao encontro de uma série de outros fatos cotidianos, como, por exemplo, quando um ministro de Estado, mais uma vez falando inverdades, ao pretender justificar o fim do financiamento estudantil, acaba por afirmar que o dinheiro não está sendo bem empregado, considerando que o filho de um porteiro, que tirou nota zero, está na faculdade, com financiado pelo governo.

A questão de notas, antes de tudo, também é relativa e depende muito da qualidade do ensino e do melhoramento das escolas públicas e não de desqualificá-las, com o escopo de privatizar o ensino, deixando distantes inúmeros brasileiros desta tão necessária inclusão educacional. Estudos são para todos e não apenas para os ricos e não se trata de despesas, mas sim de investimento, senhor ministro! 

Então, flores não somente para o Algernon, o rato inteligente de Daniel Keyes. Flores também para o filho do porteiro e para todos aqueles que, lutando contra as intempéries conseguem alcançar o ensino superior, até então, ou seja, antes do financiamento, muito elitista e perpetuador de desigualdade. Esse porteiro e várias outras pessoas, advindas da camada mais baixa, economicamente falando, poderá contribuir para o crescimento da sociedade e talvez até mesmo um dia se tornar ministro de Estado, porém com outra mentalidade, com outra visão, posto que preocupado na diminuição dos desníveis econômicos e sociais e não em perpetuá-los ou até mesmo aumenta-los.

Assim é Flores para Algernon, que nos induz a várias reflexões do dia a dia, inclusive as que fiz acima livremente, é também um livro filosófico, considerando que analisa as várias outras facetas do viver em sociedade e a de conviver com as diferenças, sem desprezá-las. É um livro em prol do humanismo.  

A cirurgia revolucionária que fez aumentar o QI de Charlie, então uma pessoa de pouca inteligência, não obstante uma ficção científica, serviu para demonstrar que a sociedade prefere que várias pessoas continuem "idiotizadas" para ajudá-la, talvez mais por remorso, piedade, pela ausência de pensar desta pessoa, que não incomoda e acaba aceitando tudo, inclusive as brincadeiras de mal gosto.

Caso essas pessoas, com menos esclarecimentos, com menos poder aquisitivo, com menos "pedigree", procurem crescer, por meio de estudo, da feitura de um bom currículo, eis que não se acomodam em apenas completar um curso superior, por exemplo, elas começam a ser desprezadas, criticadas e vários procuram algo para então desqualificá-las, derrubá-las, nesta selva de pedra que é o viver em sociedade.

Assim, nos olvidamos que essas pessoas são heroínas, eis que lutaram para superar obstáculos, que serão para muitos intransponíveis, infelizmente. Depois, muitas outras pessoas recebem tudo em mãos, sem nenhuma barreira, com ensino de ótima qualidade, desde o primário, entretanto jogam fora a oportunidade de crescimento. Isto sim é prejuízo!

Basta verificar que em diversas profissões quando alguém procura ir mais longe, se especializar, estudar constantemente, participar de cursos, seminários etc. é criticado por muitos, que já estão contentes com o que possuem e se esquecem de que, na verdade e em razão dessa inércia comodista, está cada diz sabendo menos, ensinando menos. Estão cada dia tais pessoas se distanciando da realidade. E, por conseguinte, distante de receber flores, posto que, na ausência de esforço para uma qualificação constante, está sendo menos que Algernon, o rato, que sempre e enquanto a pesquisa não retrocedeu, estava disposto a aprender mais.

Então, em Flores para Algernon, inicialmente uma pessoa, em competição com esse rato (Algernon), perdia toda a competição. E, após a cirurgia cada dia mencionada pessoa ficava mais inteligente e passou a ganhar todas as competições do rato Algernon, que nunca foi desprezado por Charles, a pessoa que ganhou inteligência, por meio de cirurgia, a ponto de, morto o rato, Charles o enterrar com as honras merecidas e enviar flores constantemente para ele, na sepultura.   

Porém, Charles, em razão da inteligência adquirida, começa a ser desprezado na padaria em que trabalhou, antes de ganhar inteligência, limpando chão e entregando pão. Foi promovido e começou a gerar ciúmes, eis que estava mais inteligente do que os antigos colegas. Depois, esta pessoa descobriu que um dos empregados, até então amigo dele, estava roubando do patrão e resolveu conversar com o amigo, exigindo que parasse com tal atitude. Logo depois deste diálogo, os próprios empregados exigiram a demissão do agora inteligente. Com a desculpa que já não era a mesma pessoa.  

Outra passagem interessante do livro, dentre várias, é quando a pessoa que teve a inteligência melhorada, por meio cirúrgico, começa a perceber e a dialogar com o psiquiatra, psicólogo e médico, e a perceber que, quando tinha pouca inteligência, na verdade não era tratado como um ser humano e que, portanto, era tido mais como coisa, eis que não entendiam os especialistas que afeto, carinho, independe de inteligência. Portanto, também não passava de um "rato de laboratório". 

E também é destacada a vaidade dos "inteligentes", dos especialistas, considerando que estavam os pesquisadores, principalmente o médico, mais interessado em apresentar a pesquisa, em congresso, apesar de o estudo ainda não estar concluído.  Portanto, em questão a velha vaidade!

E na passagem de inteligência quase zero até o advento de um gênio, que se transformou Charlie, há também uma demonstração, coerente com os fatos da vida, no sentido de que o mais inteligente acaba se afastando dos menos inteligente, em razão da dificuldade de diálogo ou da falsa superioridade.

Assim é que o Charlie inteligente, que começa a fazer palestras, escrever, falar inúmeras línguas, acaba perdendo amigos, ficando em contato apenas com a professora que o conheceu em uma Escola para deficiente e que permaneceu com ele e se envolveu emocionalmente com o mesmo.

E, para terminar o resumido comentário de Flores para Algernon, o próprio Charlie, complementando a pesquisa inconclusa dos médicos envolvidos, toma ciência de que a sua inteligência será perdida, em breve, o que realmente acontece e ele acaba novamente na padaria, na limpeza de chão e como voltou a não ter inteligência, foi bem recebido pelos colegas de trabalho.

Newton Teixeira Carvalho
Pós-Doutorado em Docência e Investigação pelo Instituto Universitário Italiano de Rosário (2019). Doutor em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2013), Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2004). Especialista em Direito de Empresa pela Fundação Dom Cabral (1987), Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1985). Desembargador da 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Juiz de Direito da 1ª Vara de Família até junho de 2012. Professor de Direito de Família da Escola Superior Dom Helder Câmara. Autor e coautor de vários livros e artigos na área de família, direito ambiental e processual civil.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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