05 Mai 2021 | domtotal.com

Templo de Jerusalém e rebeldia de Jesus: e nós?

Jesus chuta o pau da barraca do deus capital

'Cristo purificando o Templo', obra de Bernardino Mei
'Cristo purificando o Templo', obra de Bernardino Mei (Google Art Project/Wikimedia)

Gilvander Moreira

Segundo as comunidades cristãs do quarto evangelho da Bíblia, levou-se 46 anos para que o templo de Jerusalém fosse reconstruído pelo governador Herodes, o grande (Jo 2,20), que mandou construir a fortaleza Antônia, em um dos vértices do Templo de Jerusalém, o que foi considerado por muitos judeus como uma profanação ao modelo do templo construído pelo rei Salomão. Herodes mandou colocar no templo várias esculturas pagãs do Império Romano, inclusive a Águia Imperial, que motivou a ira de jovens judeus que se amotinaram e foram, por isso, presos e queimados vivos, a mando do rei Herodes Agripa. Essa foi uma obra faraônica que exigiu o trabalho de cerca de 10 mil operários diariamente.

Na época de Jesus, Jerusalém tinha cerca de 30 mil pessoas, estima-se. O templo era meio de vida para muita gente, pois gerava emprego para cerca de 18 mil pessoas; era símbolo de identidade; lugar de comércio com lucro abusivo; lugar de carestia: de 3 a 6 vezes mais caro do que no interior da Palestina; lugar de cobrança de impostos (de 25% a 50%); centro de peregrinação; "morada de Deus" no meio da comunidade e casa de oração.

O templo de Jerusalém era centro de romarias e peregrinações. Foi destruído pela força militar do Império Romano, sob o comando do general Tito Flávio, nos anos 70 do século 1º, e outra vez no ano de 135 da era cristã. Bastante suntuoso, composto de degraus, pórticos e tabernáculo com o Santo dos Santos, com arca da aliança e as tábuas da Lei. Muitos consideravam o templo como a morada de Deus no meio do povo. No Santo dos Santos só o sumo sacerdote entrava apenas uma vez por ano. Era considerado pelos judeus o lugar mais sagrado do mundo. Para consertar o Santo dos Santos os operários tinham que ser pendurados e baixados para não pisar no chão sagrado. Os judeus rasgavam suas roupas ao verem o templo pela primeira vez. Ainda hoje na hora do casamento, o noivo precisa quebrar um prato para lembrar a todos a tristeza que sente pela perda do templo. Os judeus de todo o mundo ao orarem se voltam para Jerusalém. Na época de Jesus, estima-se que a população da Palestina era cerca de 600 mil habitantes. Em Jerusalém, 30 mil. Na festa da Páscoa, Jerusalém chegava a receber 180 mil pessoas. Além disso, havia mais de 7 mil sacerdotes na Palestina, a maioria em Jerusalém, divididos em 24 grupos que se revezaram nos trabalhos litúrgicos do templo.

A aristocracia de sacerdotes e os saduceus administravam o tesouro do templo. Historiador da época das primeiras comunidades cristãs, Flávio Josefo fala que na época de Jesus havia inflação, salários baixos, greves e revoltas populares. No livro Guerra judaica, Josefo descreve assim o templo construído por Herodes: "O exterior arrebatava os olhos e o espírito. Por estar recoberto de ouro, refletia desde o amanhecer a luz do Sol tão intensamente, que obrigava a afastar a vista aos que queriam observá-lo. Aos estrangeiros que chegavam parecia uma montanha de neve, pois onde não estava coberto de ouro brilhava mármore branquíssimo. O cimo estava eriçado de pontas de ouro afiadas para impedir que as aves pousassem e sujassem o teto. Algumas das pedras da construção tinham vinte metros de comprimento..." (Guerra judaica, V, 222).

A revolta popular de 66 da era cristã, liderada pelo movimento popular religioso dos zelotas, foi o estopim da Guerra Judaica, pois visava também destruir os arquivos do templo onde estavam registradas as dívidas do povo escravizado e os impostos. 

Enfim, o Templo de Jerusalém era o centro religioso-econômico e cultural da Palestina, era também centro político, pois aí se reunia o sinédrio, sob a chefia do sumo-sacerdote, vitalício e quase sempre do grupo dos saduceus – latifundiários da época –, os maiores detentores do poder econômico da época. Tudo parecia inquestionável, mas ...

De forma clandestina, Jesus e os seus entram em Jerusalém. Após uma longa marcha da Galileia a Jerusalém (Lc 9,51-19,27), Jesus e o seu movimento popular religioso estão às portas daquela cidade. De forma clandestina, não confessando os verdadeiros motivos, Jesus e o seu movimento entram em Jerusalém, narra o Evangelho de Lucas (Lc 19,29-40). De alguma forma deve ter acontecido essa entrada de Jesus na capital Jerusalém. O tom midráxico da narrativa torna presente e viva uma profecia do passado, ainda que provavelmente não tenha acontecido tal como narrado pelo evangelho.

Dois discípulos recebem a tarefa de viabilizar a entrada na capital, de forma humilde, mas firme e corajosa. Deviam arrumar um jumentinho – meio de transporte dos pobres –, mas deviam fazer isso disfarçadamente, de forma "clandestina". O texto repete o seguinte: "Se alguém lhes perguntar: "Por que vocês estão desamarrando o jumentinho?", digam somente: 'Porque o Senhor precisa dele'". A repetição indica a necessidade de se fazer a preparação da entrada na capital de forma clandestina, sutil, sem alarde. Se dissessem a verdade, a entrada em Jerusalém seria proibida pelas forças de repressão. Com os "próprios mantos" prepararam o jumentinho para Jesus montar. Foi com o pouco de cada um/a que a entrada em Jerusalém foi realizada. A alegria era grande no coração dos discípulos e discípulas, povo camponês e de periferia. "Bendito o que vem como rei..." (Lc 19,38). Viam em Jesus outro modo de exercer o poder, não mais como dominação, mas como gerenciamento do bem comum.

Ao ouvir o anúncio dos discípulos e discípulas – um novo jeito de exercício do poder – certo tipo de fariseu, aliado do poder opressor, se incomoda e tenta sufocar aquele evangelho. Hipocritamente chamam Jesus de mestre, mas querem domesticá-lo, domá-lo. "Manda que teus discípulos se calem" (Lc 19,39), impunham os que se julgavam salvos e os mais religiosos. "Manda...!" Dentro do paradigma "mandar-obedecer", eles são os que mandam. Não sabem dialogar, mas só impor. "Que se calem!", gritam. Quem anuncia a paz como fruto da justiça testemunha fraternidade e luta por justiça, o que incomoda o status quo opressor. Mas Jesus, em alto e bom som, com a autoridade de quem vive o que ensina, profetisa: "Se meus discípulos/as (profetas) se calarem, as pedras gritarão" (Lc 19,40). Esse alerta do galileu virou refrão de música das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs): "Se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão. Se fecharem uns poucos caminhos, mil trilhas nascerão... O poder tem raízes na areia, o tempo faz cair. União é a rocha que o povo usou pra construir...!".

Jesus chuta o pau da barraca do deus capital. Os quatro evangelhos da Bíblia (Mt 21,12-13; Mc 11,15-19; Lc 19,45-46 e Jo 2,13-17) narram que Jesus, próximo à maior festa judaico-cristã, a Páscoa, impulsionado por uma ira santa, invadiu o templo de Jerusalém, lugar mais sagrado do que os templos da idolatria do capital que muitas vezes tem a cruz de Cristo pendurada em um ponto de destaque. Furioso como todo profeta, ao descobrir que a instituição tinha transformado o templo em uma espécie de Banco Central do país + sistema bancário + bolsa de valores, Jesus "fez um chicote de cordas e expulsou todos do templo, bem como as ovelhas e bois, destinados aos sacrifícios. Derramou pelo chão as moedas dos cambistas e virou suas mesas. Aos que vendiam pombas (eram os que diretamente negociavam com os mais pobres, porque os pobres só conseguiam comprar pombos e não bois), Jesus ordenou: "Tirem estas coisas daqui e não façam da casa do meu Pai uma casa de negócio". Essa ação de Jesus foi o estopim para sua condenação à pena de morte, mas Jesus ressuscitou e vive também em milhões de pessoas que resistem em face de toda forma de  opressão: fascismo, política de morte (necropolítica) e genocídio, como o que brutalmente acontece no Brasil atualmente.

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Gilvander Moreira
é frei e padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutor em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, CEBs, SAB e Ocupações Urbanas; professor de “Direitos Humanos e Movimentos Populares” em curso de pós-graduação do IDH, em Belo Horizonte, MG, autor de livros e artigos.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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