13 Mai 2021 | domtotal.com

A violência na ordem do dia

Alguém precisa avisar ao presidente que um país se faz com homens e livros, e não com homens e armas

Eventos como o de Jacarezinho tendem a se repetir, colocando em risco a vida de inocentes
Eventos como o de Jacarezinho tendem a se repetir, colocando em risco a vida de inocentes (Fabio Teixeira/NurPhoto/AFP)

Jorge Fernando dos Santos

A operação policial Exceptis, que resultou em 28 mortes na quinta-feira (06/5), na favela carioca do Jacarezinho, é mais um episódio da guerra civil que assola o país há vários anos. Uma guerra sem heroísmos, na qual as populações carentes são as principais vítimas. O fato faz lembrar pelo menos dois eventos de igual repercussão, que chocaram a opinião pública.

O primeiro foi o massacre do Carandiru, ocorrido no presídio de mesmo nome. Convocada para controlar uma rebelião, em 02/10/1992, a PM de São Paulo matou a tiros 111 detentos. O segundo caso foi a chacina da Cinelândia, no Rio, quando oito menores que dormiam na rua foram executados por um grupo de extermínio, na madrugada de 23/7/1993.

A principal diferença entre os três episódios é de ordem política. Nas duas tragédias anteriores, nenhuma autoridade comemorou publicamente a carnificina, como fizeram o presidente da República e seu filho 02, Carlos Bolsonaro – que debochou da viúva de um dos mortos numa rede social. Também o vice-presidente, Hamilton Mourão, não perdeu tempo em justificar as mortes, afirmando que "era tudo bandido".

Imperícia policial

Durante a operação, um inspetor morreu com um tiro na cabeça e outros dois policiais ficaram feridos, assim como dois passageiros do metrô e um morador da favela. O objetivo da Polícia Civil era cumprir 21 mandados de prisão contra marginais ligados ao Comando Vermelho.

Segundo testemunhas, suspeitos rendidos teriam sido executados. A denúncia está sendo apurada pelo Ministério Público do Rio. Enquanto isso, o Estadão publicou que um terço dos mortos não tinha ações penais registradas no Tribunal de Justiça. O episódio gerou protestos e investigações por parte de entidades que defendem os direitos humanos.

Casos como esse evidenciam a violência do tráfico, a imperícia policial e o descontrole do Estado, principalmente em áreas de risco social disputadas por traficantes e milicianos, como aqueles do Escritório do Crime. Esse tipo de ocorrência espelha a barbárie, que tende a crescer devido à impunidade e à apologia das armas feita pelo atual ocupante do Palácio do Planalto.

Em vez de combater o contrabando e dificultar o comércio, Jair Bolsonaro insiste não apenas em ampliar o número de armas nas mãos do cidadão comum, como também estender-lhe a posse de armamento restrito das Forças Armadas. Ao fazer isso, ele incentiva ações violentas e transfere à população os riscos e o dever do Estado de protegê-la.

Produto de roubo

Todo cidadão deve ter assegurado o direito à legítima defesa, sem dúvida. No entanto, o acesso às armas não garante segurança a ninguém. Boa parte do arsenal apreendido em operações como a de Jacarezinho são produto de roubo. Por outro lado, lidar com armamento não é tarefa para amadores. É algo que exige sangue frio, preparo técnico e psicológico. A imperícia é a principal causa de acidentes com armas de fogo no país.  

Se andar armado resolvesse alguma coisa, o próprio Bolsonaro não teria sido rendido por assaltantes, em 04/7/1995. Na ocasião, ele teve roubadas a moto e a pistola que trazia consigo. "Mesmo armado, me senti indefeso", declarou à imprensa o então deputado federal pelo Rio de Janeiro.

Por essas e outras, alguém precisa avisar ao presidente que um país se faz com homens e livros, e não com homens e armas, como ele supõe. Com seu discurso belicista e o apoio tácito daqueles que se dizem "pessoas de bem", eventos como o de Jacarezinho tendem a se repetir, colocando em risco a vida de inocentes. Vale lembrar que o tráfico e o consumo de drogas não se restringem às favelas, mas a ação policial não é a mesma, quando se trata de condomínio de luxo.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor e compositor, tem 46 livros publicados. Entre eles, Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa 1989), Alguém tem que ficar no gol (finalista do Prêmio Jabuti 2014), Vandré - O homem que disse não (finalista do Prêmio APCA 2015), A Turma da Savassi e Condomínio Solidão (menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte 2012).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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