20 Mai 2021 | domtotal.com

A polêmica sobre o voto eletrônico

A birra de Jair Bolsonaro é com a democracia, por medo de não ser reeleito em 2022

A urna eletrônica nacional foi projetada e fabricada no Brasil por brasileiros
A urna eletrônica nacional foi projetada e fabricada no Brasil por brasileiros (Gabriela Korossy/ Câmara dos Deputados)

Jorge Fernando dos Santos

As suspeitas ora levantadas sobre o voto eletrônico no Brasil visam, ao que tudo indica, tumultuar as eleições do ano que vem. Bolsonaro e seus filhos foram eleitos pelo atual sistema de votação. Portanto, não teriam motivos para suspeitar de fraudes. Se houve alguma, os principais suspeitos seriam eles, justamente por terem sido vitoriosos.

Embora muitos países não abram mão do voto de papel, 46 nações em todo o mundo já utilizam urnas eletrônicas. A informação é do Instituto para Democracia e Assistência Eleitoral Internacional (Idea). Trata-se de uma organização intergovernamental de apoio a democracias sustentáveis, entidade que reúne 34 países, entre eles a Austrália, Canadá, Noruega, Suíça, Portugal e o próprio Brasil.

Adotada há exatamente 25 anos, a urna eletrônica nacional foi projetada e fabricada no Brasil por brasileiros, sem influência estrangeria de qualquer natureza. Quem garante é o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), responsável pelo desenvolvimento do software. No entanto, nada impediria que o eleitor pudesse ter um comprovante do seu voto fornecido pela própria urna na hora da votação. Isso certamente aumentaria a confiança no sistema. 

Campanha do TSE

Durante a ocupação do Capitólio por trumpistas, em janeiro deste ano, Bolsonaro declarou que algo pior poderia ocorrer no Brasil, caso o TSE mantenha o processo de votação eletrônica. Essa atitude comprova seu interesse em atrapalhar ou até mesmo invalidar as eleições de 2022, caso seja derrotado. De lá para cá, ele tem ressaltado sua desconfiança no sistema eleitoral, chegando a afirmar que Lula só vencerá "na fraude".

Em meio à polêmica, o TSE lançou na sexta-feira (14/5) uma campanha garantindo a "segurança, transparência e auditabilidade" do sistema eleitoral brasileiro. Na ocasião, o presidente do tribunal, ministro Luís Roberto Barroso, lembrou que o país enfrenta uma dura crise com a Covid-19. Portanto, segundo ele, mudar o sistema de votação não deveria ser prioridade de nenhum governante neste momento.

Barroso deixou claro que a campanha não tem o objetivo de dar uma resposta a Bolsonaro, pois já vinha sendo pensada há mais de um ano. A iniciativa visa a tranquilizar a sociedade brasileira sobre a lisura do sistema eleitoral. Contudo, a iniciativa não deixa de ser oportuna, servindo de contraponto às teorias conspiratórias alimentadas justamente por aquele que foi eleito presidente da República, com quase 57 milhões de votos.

Eleições americanas

Se as alegações de Bolsonaro fossem verdadeiras, as eleições para a Casa Branca não teriam gerado tanta confusão. Afinal, muitos estados americanos ainda utilizam cédulas de papel. Por outro lado, antes da implantação das urnas eletrônicas, havia no Brasil os famosos votos marmita e de cabresto, que facilitavam a fraude e o controle das votações por cabos eleitorais e caciques políticos. Isso também dificultava a conclusão do pleito num país de dimensões continentais. Por isso mesmo era comum aos perdedores exigirem a recontagem de votos.

Ainda que o sistema eletrônico possa não ser de todo infalível, fato é que a votação no papel é muito mais sujeita a fraudes e manipulações. De qualquer modo, há que se lembrar nesta hora a eficiência dos bancos, cujas movimentações são processadas à distância, por meio de aplicativos. Ainda que, de vez em quando, alguém possa ter sua conta hackeada, o sistema bancário segue cada vez mais informatizado em todo o mundo.

 Aqueles que defendem o fim das urnas eletrônicas deveriam trocar seus computadores por velhas máquinas datilográficas, bem como substituir os celulares por telefones analógicos. Isso evitaria muitos aborrecimentos para aqueles que disseminam fake news e teorias conspiratórias. Na verdade, figuras autoritárias não têm nada contra o voto eletrônico propriamente dito. A birra de Jair Bolsonaro é com a democracia, por medo de não ser reeleito em 2022.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor e compositor, tem 46 livros publicados. Entre eles, Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa 1989), Alguém tem que ficar no gol (finalista do Prêmio Jabuti 2014), Vandré - O homem que disse não (finalista do Prêmio APCA 2015), A Turma da Savassi e Condomínio Solidão (menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte 2012).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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