27 Mai 2021 | domtotal.com

Almoço indigesto

Possível aliança entre PSDB e PT não apagará da memória nacional a dicotomia entre as duas legendas

A exemplo de FHC, Lula comprou apoio do mesmo Centrão que hoje está com Bolsonaro
A exemplo de FHC, Lula comprou apoio do mesmo Centrão que hoje está com Bolsonaro (Reprodução / Twitter)

Jorge Fernando dos Santos

Causou grande repercussão o almoço dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, na última quinta-feira (20/5), em São Paulo. Intermediado pelo ex-ministro Nelson Jobim, o encontro pode ter sido o primeiro passo para unir forças contra Bolsonaro nas eleições do ano que vem.

No entanto, uma possível aliança entre PSDB e PT não apagará da memória nacional a dicotomia entre as duas legendas. "A ética do PT é roubar". A acusação parece ter saído da boca de Bolsonaro, mas foi proferida por FHC à revista IstoÉ, em fevereiro de 2006. Na época, as denúncias do mensalão monopolizavam as manchetes, enquanto os psdebistas posavam de mocinhos.

No programa Roda Viva da TV Cultura, o líder tucano voltaria à carga, dizendo que nunca antes no Brasil "se errou tanto e roubou tanto em nome de uma causa". Durante as denúncias do Petrolão, sua reação foi a mesma. Lula, por sua vez, cumpriu dois mandatos responsabilizando o colega pelas mazelas do país. O fato era tão bizarro que parecia a fábula do príncipe das esquerdas e o "sapo barbudo", epíteto cunhado pelo saudoso Leonel Brizola.

As pontas da tesoura

O líder petista acusava o PSDB de neoliberal, representante das elites. Surgido em 1980 como partido sindical de esquerda, o PT adotou o discurso reformista para chegar ao poder e acabou se rendendo às práticas neoliberais para poder governar. A exemplo de FHC, Lula comprou apoio do mesmo Centrão que hoje está com Bolsonaro e que, no final das contas, traiu e derrubou o PT.

Por trás das aparências, Lula e FHC (que sempre foram amigos) aplicavam a chamada Estratégia das Tesouras. Propagada por Lênin e Gramsci, a fórmula consiste em jogar com as contradições no plano teórico para conquistar e manter o poder de forma dialética. Com falsas discórdias e poucas diferenças ideológicas, PSDB e PT polarizavam o eleitorado, ofuscando seus principais adversários. Ou seja, os liberais e conservadores.

O excesso de retórica e o desgaste das duas legendas contribuíram para levar à Presidência, em 2018, um candidato reacionário e genocida, que surfou a onda de denúncias contra o PT e outros partidos. Ano passado, Lula não elegeu sequer um prefeito em cidade de relevância política. Inocentado pelo STF das condenações da Lava-Jato, ele agora renasce das cinzas como provável candidato ao Planalto sob as bênçãos de FHC.

O que mais importa

Oxalá o indigesto almoço de quinta-feira tenha tido como sobremesa a mea-culpa dos dois caciques. Sem reconhecer os próprios erros, será difícil serem levados a sério. Mesmo que a dupla possa influenciar uma guinada nos destinos da nação, o ideal seria uma terceira via política. Uma candidatura de centro, capaz de reunir as forças democráticas com o objetivo de pacificar e reconstruir o país após a governança mais desastrosa e irresponsável da nossa História.

É preciso reconhecer que a direita está em desvantagem no momento, já que o neofacista Bolsonaro se elegeu presidente fingindo-se liberal-conservador (o que, na verdade, ele nunca foi). Como o eleitor comum não sabe diferenciar alhos e bugalhos no espectro ideológico, o tiro de uma oposição que tenha Lula como principal candidato corre o risco de sair pela culatra.

Até outro dia, petistas e psdebistas viviam feito cães e gatos. Sem compreender as nuances da rivalidade aparente, xingavam-se de petralhas e coxinhas, enquanto os dois partidos afundavam na corrupção. Nesse sentido, convém lembrar o diálogo de Ernest Hemingway, testemunha ocular do ódio entre estalinistas e trotskistas que lutaram do lado republicano na Guerra Civil Espanhola, tema do seu romance Por quem os sinos dobram:

- Quem estará nas trincheiras ao teu lado?
- E isso importa?
- Mais do que a própria guerra.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor e compositor, tem 46 livros publicados. Entre eles, Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa 1989), Alguém tem que ficar no gol (finalista do Prêmio Jabuti 2014), Vandré - O homem que disse não (finalista do Prêmio APCA 2015), A Turma da Savassi e Condomínio Solidão (menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte 2012).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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