09 Jun 2021 | domtotal.com

Sabedoria libertadora de Jesus: e nós?


Jesus aprendeu que não pode viver conciliando com podres instituições. Descobriu que só solidariedade não transforma relações sociais opressoras. Jesus aprendeu que é preciso lutar por justiça profunda

Convivendo com o povo simples e oprimido, Jesus aprendeu a pedagogia da partilha dos pães que desagua na abundância
Convivendo com o povo simples e oprimido, Jesus aprendeu a pedagogia da partilha dos pães que desagua na abundância (LUMO project)

Gilvander Moreira

Em contexto de deturpação da imagem verdadeira de Jesus Cristo privatizado e domesticado por certos tipos de movimentos religiosos (neo)pentecostais na linha da "teologia" da prosperidade (melhor dizendo, ideologia da prosperidade) faz-se necessário e imprescindível resgatarmos o Jesus histórico com sua sabedoria libertadora, o que poderá inspirar nossa postura ética no rumo da superação das gravíssimas injustiças e violências que campeiam no nosso país.

O que é sabedoria libertadora? É o conhecimento e a práxis que libertam, com sabor de vida, não é intelectualismo e nem erudição, muito menos tecnicismo. A sabedoria popular é sábia, mas, muitas vezes, ambígua e, às vezes, contraditória e pode estar contaminada pela ideologia dominante - as ideias da elite, ideias particulares a partir do lugar social de dominação que são trombeteadas aos quatro ventos como se fossem ideias universais. Entretanto, são meios que carregam preconceitos, discriminações e escamoteiam as verdadeiras causas das injustiças sociais colocando os violentados como responsáveis últimos das violências que sofrem.

Jesus não nasceu sábio e pronto, mas, ao longo da sua curta vida, se tornou um sábio libertador, aprendeu muito com todos(as) e com tudo. No ventre de Maria grávida de Jesus, Deus assume o humano. Por ser "filho de mulher" (Gal 4,4), Jesus aprendeu que o divino transcende o humano, mas está tão unido ao humano como "carne e unha". Na carpintaria de José operário, homem justo, Jesus tomou consciência de ser da classe trabalhadora. Com Maria, sua mãe, e as mulheres da Galileia, Jesus aprendeu a não ser machista e nem patriarcal. Por isso, mesmo em um contexto patriarcal que proibia o homem de entrar em casa onde só tivesse mulheres, Jesus entrou na casa de Marta e Maria e acolheu Maria como discípula e ainda corrigiu com fraternidade Marta, convidando-a a se desvencilhar das amarras do mundo privado e a participar como Maria da vida pública (Cf. Lc 10,38-42).

Em uma Sinagoga da periferia, na Galileia, Jesus aprendeu a ser porta-voz dos exilados e escravizados. Por isso, ao anunciar seu projeto de missão pública, Jesus propôs libertação integral, o que está descrito em Lc 4,16-21, inspirando-se nos servos sofredores da história e nos discípulos do grande profeta Isaías (Is 61,1-2). Em uma pequena e simples sinagoga, o jovem galileu, "movido pelo Espírito", como toda pessoa humana, proclamou seu projeto de libertação integral. Jesus aprendeu que na missão libertadora se deve propor "ótima notícia para os pobres", que é libertação econômica; "libertar os presos", que é libertação política; "resgatar a visão" (Lc 4,18), que é libertação ideológica; "implantar o Ano da Graça" (Lc 4,19), que é Jubileu Bíblico, que significa reorganização geral da sociedade com devolução das terras para os seus antigos donos (os "ancestrais"), perdão geral de dívidas do povo, ou seja, conquista de uma Terra sem males, uma sociedade do bem viver e conviver, em linguagem afrolatíndia de hoje.

Com o profeta João Batista, Jesus aprendeu a necessidade de lutar pela superação das desigualdades socioeconômicas. Com os zelotas, Jesus aprendeu que precisava combinar solidariedade com luta para conquistar a emancipação política do povo. Com os idosos, Jesus aprendeu a ler os sinais dos tempos. Assumindo a causa dos empobrecidos, Jesus aprendeu a fazer análise da conjuntura de forma crítica e criativa, o que está, por exemplo, em Lc 13,1-9, onde Jesus alerta para não aceitar ingenuamente o que é noticiado pela mídia e nem pela ideologia dominante.

Ao ver e sentir a exploração que o imperialismo romano causava, Jesus denunciou o governador Herodes ("uma raposa", Lc 13,31-33), a tributação injusta (Lc 20,25), o aprisionamento em massa e por esta sabedoria, Jesus foi condenado à pena de morte pelo Estado em conluio com o sinédrio, poder religioso dominado por saduceus, que eram os grandes proprietários de terra da época. 

Com a mulher cananeia (Mt 15,21-28, sirofenícia, segundo Mc 7,24-30), Jesus se libertou do patriotismo e do "verde amarelismo" que excluíam. Com os que eram considerados impuros e hereges, Jesus aprendeu a ser subversivo. Por isso, apontou um samaritano como exemplo a ser seguido e "chutou o pau da barraca" ao expulsar os vendilhões do templo, os que lucravam usando e abusando do nome do Deus da vida. 

Com parte dos fariseus, Jesus aprendeu a contar parábolas, linguagem que o povo entendia e ficava com os olhos brilhando diante das descobertas desconcertantes e provocantes que ele suscitava com suas metáforas exemplares. Convivendo com o povo superexplorado, Jesus aprendeu que tinha que ser "pé no chão", estar junto do povo, misturado, partilhando suas dores e alegrias. Jesus aprendeu que não podia tolerar a privatização do sistema de saúde nas mãos dos sacerdotes que cobravam para fazer ritos de purificação, após expulsar a maioria do povo para fora da cidade, taxando-os de impuros. Por isso, Jesus fazia os milagres gratuitamente em processos de solidariedade libertadora. 

Convivendo com o povo simples e oprimido, Jesus aprendeu a pedagogia da partilha dos pães (Cf. Jo 6,1-15; Mt 14,13-21; Mc 6,32-44; Lc 9,10-17) que desagua na abundância e envolve uma série de passos articulados e interdependentes: 1) Jesus está no meio do povo faminto convivendo; 2) Vê a realidade nua e crua a partir dos empobrecidos; 3) Comove-se com a dor do povo sofrido; 4) Provoca a todos(as) a buscar solução para o grave problema social, fruto de injustiça social - a fome; 5) Discerne qual projeto pode ser o caminho da superação da fome; 6) Exclui a postura de quem queria se esquivar da responsabilidade diante do problema -  "despede as multidões para elas irem..." – e o projeto de mercado apresentado por Filipe: "comprar pão para..."; 7) Acolhe o projeto socialista, de partilha (humano) apresentado pelo discípulo André: "Eis uma criança com cinco pães e dois peixes"; 8) Propõe organizar o povo em grupos de 5, de 10, de 50, de 100, etc.; 9) Abençoa os pães e os peixes, ou seja, cultiva a espiritualidade e a mística que envolve nossa vida e toda a realidade; 10) Conta com lideranças no meio do povo para "repartir o pão!"; 11) Propõe que seja recolhido o que está sobrando: "recolham o que sobrar". Eis a pedagogia libertadora e emancipatória de Jesus.

Jesus aprendeu que não pode viver conciliando com podres instituições. Descobriu que só solidariedade não transforma relações sociais opressoras. Jesus aprendeu que é preciso lutar por justiça profunda. Jesus aprendeu a "sabedoria da luz, do sal e do fermento". Mesmo pouca e pequena, a luz escorraça as trevas, pois incomoda muito os "filhos das trevas". Em quantidade ínfima, o sal, aparentemente frágil, incomoda "o arroz, o feijão, a carne e é imprescindível ao cozinhar". O fermento, mesmo sendo pouco, incomoda a massa e, por isso, a faz crescer.

Jesus aprendeu a acreditar no humano, pois via nas pessoas sofredoras não um poço de miséria, mas uma infinita força e luz interior, o que é manifestado pela exclamação de Jesus, repetida sempre: "Tua fé te salvou", ou seja, postura existencial de cabeça erguida, amor no coração e utopia no olhar: o paralisado que "dá um salto", o cego que "quer ver" e não se contenta em ficar recebendo migalhas, etc..

Ao perguntarmos aos quatro Evangelhos da Bíblia qual é a característica primordial de Jesus Cristo enfatizada em cada um deles percebemos que o Evangelho de Marcos revela Jesus priorizando a luta pela superação da opressão política; o Evangelho de Lucas revela um Jesus indignado diante da opressão econômica; o Evangelho de Mateus mostra Jesus lendo a história na ótica dos oprimidos sob o crivo da misericórdia e não do sacrifício; o Evangelho de João mostra Jesus apontando o poder religioso como opressor. 

Jesus é como o "vinho novo" que torna a vida uma festa sem fim. Por outro lado, o quarto evangelista mostra a institucionalidade religiosa enrijecida e opressora. Enfim, Jesus aprendeu uma sabedoria libertadora. Nós também podemos assimilar o que liberta e nos desvencilhar de tudo o que nos desumaniza. Com a sabedoria libertadora de Jesus, que está em sintonia com a sabedoria dos povos indígenas e dos povos tradicionais, podemos e precisamos ser "luz no mundo", "sal da terra" e "fermento na massa".

1 – Sabedoria libertadora de Jesus: e nós? – CEBI do Vale do Aço, MG. Por Frei Gilvander – 06/6/2021

2 – Frei Carlos Mesters: Explicando a Bíblia a partir da vida do povo | Quadro: Fé na periferia do mundo

3 – Em Jesus, Deus vem até nós – Frei Carlos Mesters – 09/5/2020

4 – A mensagem de Jesus é feita para os pobres – Palavras de Fé, com frei Gilvander – 18/3/2021

5 – Dimensão social do Evangelho de Jesus e o lugar social do CEBI: LUTA POR JUSTIÇA. Por Frei Gilvander


Gilvander Moreira
é frei e padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutor em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, CEBs, SAB e Ocupações Urbanas; professor de “Direitos Humanos e Movimentos Populares” em curso de pós-graduação do IDH, em Belo Horizonte, MG, autor de livros e artigos.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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