10 Jun 2021 | domtotal.com

É conversando que a gente se entende

Há quem diga que a comunicação virtual pode comprometer para sempre as relações humanas

Em vez de prosear, a maioria das pessoas prefere teclar ou gravar mensagens
Em vez de prosear, a maioria das pessoas prefere teclar ou gravar mensagens (AFP)

Jorge Fernando dos Santos

O isolamento adotado em função da pandemia de Covid-19 acelerou o processo de mudança de hábitos que teve início com o surgimento das redes sociais. Refiro-me à diminuição da conversa entre as pessoas. Em vez de prosear, a maioria prefere teclar ou gravar mensagens. No entanto, há quem diga que a comunicação virtual pode comprometer para sempre as relações humanas.

Antigamente, na impossibilidade de encontrar os amigos e familiares, passávamos horas falando ao telefone. Mesmo à distância, a conversa é direta e mais objetiva que a comunicação por meio de GIFs, fotos, gravações, lives ou textos curtos. A boa prosa evidencia a emoção, o tom e a intenção do discurso. Tanto que a psicanálise se dá pela fala do paciente. Nas redes sociais, ficamos mais sujeitos aos ruídos e ao desentendimento.

Isso talvez explique a carga de hostilidade presente no ambiente virtual, bem como a ruptura de velhas amizades por mera discordância de ideias e opiniões, sobretudo no âmbito político. A coisa piora quando se trata do debate aberto em grupos da internet, que expõem publicamente os participantes, gerando constrangimento e mal-estar. Como dizia o saudoso Chacrinha, "quem não se comunica se trumbica".

Um bom diálogo, ainda que por telefone e sem os irritantes picotes e travamentos do Skype ou do WhatsApp, permite modulação e inflexões vocais, o que dá às palavras o sentido mais próximo daquilo que desejamos expressar. Deve ser por isso que os serviços de telemarketing insistem tanto em falar conosco à viva voz, em vez de apenas enviar mensagens frias pela internet.

A importância da fala

Quem convive com adolescentes já deve ter notado que muitos preferem teclar em vez de telefonar ou conversar tête-à-tête. De certa forma, os apetrechos tecnológicos funcionam como trincheiras para a timidez e a dificuldade de argumentação. O curioso é que muitos adultos entraram na onda. O resultado disso é a diminuição no repertório de palavras, bem como o aumento da ansiedade e diminuição da empatia.

Fato é que a evolução humana está diretamente ligada ao progresso cognitivo proporcionado pelo dom da fala e pelo domínio de vocabulário. A argumentação oral é indispensável à nossa espécie, sendo o que de fato nos diferencia dos outros animais. Sem conversar, o homem certamente ainda estaria nas cavernas. A boa prosa é tão ou mais importante que a própria invenção da escrita.

Com o isolamento social, também aumentaram o trabalho home office, o ensino à distância e as terapias virtuais. O prolongamento desse estado de coisas poderá ter sérias consequências no futuro próximo, sobretudo para as novas gerações. Afinal de contas, boa parte das relações sociais é construída na escola e no ambiente profissional. O contato pessoal e o olho no olho também são fundamentais para o bom resultado terapêutico.

Somos seres gregários e tribais, carentes de afeto e atenção. Portanto, a socialização nos ajuda a amadurecer emocionalmente. Os bares vivem cheios não só porque vendem bebidas, mas por serem espaços democráticos de convivência. A internet tem sua utilidade, mas não podemos nos permitir ser isolados em bolhas virtuais que podem atrapalhar o desenvolvimento pessoal e coletivo. Nenhuma live, por melhor que seja, é capaz de substituir a emoção do encontro.

Sem dúvida, a novas ferramentas de comunicação não devem ser abandonadas ou banidas do nosso dia a dia, o que, aliás, seria impossível. Contudo, temos que aprender a lidar com elas sem abrir mão do bate-papo ao vivo, da empatia e das relações interpessoais. Até porque o objetivo da tecnologia é contribuir para a evolução e o bem-estar das pessoas, e não para a derrocada do ser humano enquanto espécie. Passada a pandemia, será urgente corrermos para o abraço.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor e compositor, tem 46 livros publicados. Entre eles, Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa 1989), Alguém tem que ficar no gol (finalista do Prêmio Jabuti 2014), Vandré - O homem que disse não (finalista do Prêmio APCA 2015), A Turma da Savassi e Condomínio Solidão (menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte 2012).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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