10 Jun 2021 | domtotal.com

Brasil, de potência latino-americana a republiqueta de banana

Nas atuais circunstâncias, apostar no lançamento de várias candidaturas para, no segundo turno, transferir votos a um ou outro candidato, se não é suicídio político é apostar no quanto pior, melhor

Mal tomou posse, o atual governante deu início à sua campanha para a reeleição e ao aparelhamento político-ideológico do Estado
Mal tomou posse, o atual governante deu início à sua campanha para a reeleição e ao aparelhamento político-ideológico do Estado (Evaristo Sá/AFP)

Flávio Saliba

Afigura-se muito complicada a formação de consenso em torno de uma candidatura de centro nas eleições presidenciais de 2022. Tanto a reeleição de um quanto o retorno de outro deixarão a nação politicamente polarizada e com os nervos à flor da pele. As instituições democráticas estão sendo ameaçadas e continuarão a sê-lo nos casos de reeleição ou de retorno ao populismo de esquerda. 

Mal tomou posse, o atual governante deu início à sua campanha para a reeleição e ao aparelhamento político-ideológico do Estado. Livrou-se de ministros e auxiliares que o ajudaram a se eleger, mas que despontaram como eventuais presidenciáveis. Alguns de seus fiéis escudeiros também foram afastados, não por desobediência ao chefe, mas pela pressão popular frente às barbaridades por eles cometidas em áreas como a da educação e a das relações internacionais. Espera-se o mesmo em relação ao ministro do Meio Ambiente que patrocina o desmantelamento dos órgãos de fiscalização ambiental e é suspeito de fazer vista grossa à extração ilegal de madeira na Amazônia. 

A imagem do país no exterior não poderia ser pior: a crise sanitária e a desastrosa política ambiental do governo rebaixam a nação ao nível de caricata república de banana. O noticiário internacional é prova disso. A fuga de capitais e a retaliação a produtos de exportação brasileiros podem se intensificar. Tal como o petróleo, que tende a ser substituído por fontes de energia alternativas, a importação de produtos agrários brasileiros pela China pode ser facilmente substituída por produtos oriundos da África, onde os chineses vêm ampliando sua influência.

A formação de uma frente ampla para viabilizar uma terceira via nas próximas eleições presidenciais encontra barreiras quase insuperáveis na descrença popular na política e nas veleidades de presidenciáveis pontuados nas pesquisas eleitorais. Para além das alianças partidárias parece imprescindível a criação de laços entre parlamentares independentes e éticos capazes de contribuir para a viabilização de uma terceira via. 

Basta dar uma olhada nas sessões da CPI da Covid para identificar senadores, do PT, do MDB, do PSD e de outros partidos, dignos da confiança popular. O mesmo pode ser dito de membros da Câmara Federal, das assembleias estaduais, dos meios acadêmico e jornalístico, de entidades de classe e de organizações não governamentais. 

Se comprometidos fossem com as causas nacionais e a democracia, os caudilhos de direita ou de esquerda deixariam de lado suas ambições pessoais para viabilizar uma candidatura de centro com menos rejeição nas pesquisas eleitorais. 

Nas atuais circunstâncias, apostar no lançamento de várias candidaturas para, no segundo turno, transferir votos a um ou outro candidato, se não é suicídio político é apostar no quanto pior, melhor. É favorecer a instabilidade das instituições democráticas em um ambiente político e social crescentemente polarizado.

Flávio Saliba
Formado em Ciências Sociais pela UFMG (1968), Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris (1980), Pós-doutorado na Berkeley University (1994), Professor de Sociologia da UFMG. Livros publicados: 'O diálogo dos clássicos: divisão do trabalho e modernidade na Sociologia' (Ed. C/Arte, BH, 2004), 'História e Sociologia' (Ed. Autêntica, BH, 2007). Vários artigos publicados em revistas e jornais nacionais.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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