16 Jun 2021 | domtotal.com

Vamos falar de gente

Seguir o rastro do dinheiro acaba levando aos envolvidos

Corpo do ex-senador Marco Maciel chega ao Congresso Nacional e é levado pelos Dragões da Independência em 12 de junho
Corpo do ex-senador Marco Maciel chega ao Congresso Nacional e é levado pelos Dragões da Independência em 12 de junho (Roque de Sá/Agência Senado)

Carlos Brickmann

O ídiche, língua derivada do alemão falada pelos judeus da Europa Central e Oriental, tem uma palavra difícil de traduzir: mensch. Literalmente, significa gente. Mas o significado é algo como "gente boa", "gente como todos deveriam ser".

Pois, lamentavelmente, com a morte de Marco Maciel, o Brasil perdeu um mensch. Marco Maciel foi um trabalhador compulsivo, das sete da manhã às três da madrugada, todos os dias. Estudava cada problema a enfrentar, em companhia de assessores da mesma estirpe. Era leal. Pertenceu à Arena, o partido que apoiava o regime militar, e ao PFL, que ainda hoje anda por aí, com o nome de DEM. Ninguém é perfeito. Mas jamais participou de forma alguma das barbaridades da ditadura. Deputado estadual, deputado federal, senador, governador, ministro, vice-presidente da República, jamais sofreu qualquer acusação: um homem limpo. E, sem dúvida, leal.

Conheci Maciel por meio de um de seus principais assessores, um mensch como ele, uma pessoa notável: o paulista Cláudio Lembo. Foi quem me disse para jamais aceitar convite de Maciel para almoçar: ele, apelidado de Mapa do Chile (basta ver sua foto de corpo inteiro para entender), costumava propor, para poupar tempo, trocar o almoço por um sorvete – um picolé. Mal comia: café preto por volta das seis da manhã, orações (católico praticante), o picolé de almoço, uma sopinha por volta de duas da manhã, acordar às seis. O resto do dia, trabalhar. Marco Maciel foi-se no domingo. Todos perdemos.

Longa duração

As vacinas da Janssen chegariam no finzinho do prazo de validade. Atrasaram. Mas a Anvisa e a FDA americana prorrogaram a validade e elas chegarão em condições legais de uso. Sem problemas: foram testadas quando completaram 30 dias, estavam em ordem, e este prazo (provisório) foi o adotado. Repetiu-se o teste aos quatro meses e meio, e a vacina continuava boa. Este é o atual prazo. Mas a pergunta é outra: por que tanta demora na encomenda, exigindo nova data de validade? Talvez porque, como no caso da vacina da Pfizer, o governo estivesse tão ocupado em importar matérias-primas da cloroquina que não lhe restasse tempo para cuidar de vacinas?

Brincando com os números

As primeiras informações difundidas por fontes bolsonarianas falavam em pouco mais de 1 milhão e 300 mil motocicletas no comício pré-eleitoral realizado em São Paulo. Depois caíram para 700 mil. Criaram também 700 toneladas de gêneros não-perecíveis doados por motoqueiros – e cadê essas toneladas todas, que não houve fotos? Grupos que fotografam até aniversário de boneca deixariam de fotografar algo que ocuparia umas quinze carretas?

Mas isso não tem importância: o fato é que é campanha eleitoral antecipada, com dinheiro federal e o uso de equipamentos e funcionários do Estado e da prefeitura. Que é que o TSE vai achar?

Que é que houve?

Paulo Marinho, suplente do senador Flávio Bolsonaro, teve importante contribuição para a vitória do atual presidente. Foi em sua casa, no Rio, que se instalou o QG de comunicação da campanha, liderado por Carluxo, filho 02. Ao verificar que, depois de eleito, Bolsonaro o ignorou, Paulo Marinho foi para o PSDB e fez denúncias contra o presidente e o filho senador. Mas alguma coisa mudou: Marinho, presidente do PSDB no Rio, foi embora do partido, sem se despedir, e mandou um auxiliar buscar suas coisas na sede. Terá sido ciúme do crescimento no partido do prefeito Eduardo Paes?

O rastro do dinheiro 1

Num livro de 1854, Les mohicans de Paris, Alexandre Dumas (pai) dizia que em todos os problemas havia uma mulher envolvida. A frase virou um clichê da literatura policial: Cherchez la femme, procurem a mulher. Mas o grande informante dos repórteres do caso Watergate, Garganta profunda, modificou a frase: "Sigam o dinheiro". Os repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward seguiram o rastro do dinheiro e acabaram levando o presidente Richard Nixon à renúncia (se não renunciasse, sofreria impeachment). Agora a CPI da Covid está seguindo um caminho parecido: buscando as relações do presidente Bolsonaro com empresas produtoras de cloroquina. Já se sabe, com base em documentos oficiais do Itamaraty, que o presidente telefonou para o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, pedindo-lhe que ajudasse a acelerar o fornecimento de matéria-prima para a produção de cloroquina, e citando o nome de duas empresas privadas brasileiras: a Apsen e a EMS.

O rastro do dinheiro 2

Isso mostraria a ferrenha crença do presidente nas virtudes da cloroquina, pela qual chegou a atuar como garoto-propaganda, tentando até oferecê-la para uma das emas do palácio. Mas há mais: a documentação do Itamaraty mostra que qualquer mensagem que se referisse a cloroquina foi sempre respondida no mesmo dia, às vezes em 15 minutos; já a oferta de vacinas da Pfizer ficou na gaveta, e só mereceu resposta (negativa) dois meses depois.

Carlos Brickmann
é jornalista e diretor do escritório Brickmann&Associados Comunicação, especializado em gerenciamento de crises. Desde 1963, quando se iniciou na profissão, passou por todos os grandes veículos de comunicação do país. Participou das reportagens que deram quatro Prêmios Esso de Equipe ao Jornal da Tarde, de São Paulo. Tem reportagens assinadas nas edições especiais de primeiras páginas da Folha de S.Paulo e do Jornal da Tarde.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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