02 Jul 2021 | domtotal.com

Seu autoritarismo não cabe aqui


No país de nossos sonhos, pra mudar é preciso mesmo revolucionar, sem desigualdade, sem concentração, sem autoritarismo, sem violência, sem assassinatos

Manifestação 'Fora Bolsonaro', na Avenida Paulista, São Paulo, em 26 de junho de 2021
Manifestação 'Fora Bolsonaro', na Avenida Paulista, São Paulo, em 26 de junho de 2021 (Roberto Parizotti/FotosPúblicas)

Marcel Farah

É verdade que estamos diante de um dos governos mais incompetentes da história de nosso país. Comparável à vergonhosa administração de Fernando Collor de Melo, para pior.

Isso tem desgastado o governo e feito a população perder a confiança nele. Mas não o suficiente para vê-lo derrubado como foi Collor.

É verdade que estamos diante de um dos governantes mais bizarros e preconceituosos que já tivemos notícias. Mesmo populistas como Jânio Quadros, me parece, tinha mais civilidade que o asqueroso Bolsonaro. Contudo, isso não foi o suficiente para nosso povo deixar de elegê-lo e seus filhos, nem é, agora, para derrubá-los.

É verdade que este governo reviveu as políticas neoliberais com um autêntico "Chicago boy" como ministro da economia. Lembra os anos neoliberais de filas de desempregados de FHC, mas foi uma continuidade muito nítida do golpista Temer em termos econômicos. A parte mais trágica é que o ministro Guedes tem um chip do preconceito de classe acoplado que reluz a toda sugestão de política social a ser realizada com as migalhas da classe média. Nem isso foi suficiente para reduzir o apoio popular do governo a ponto de derrubá-lo.

Nunca vivemos um desastre sanitário como a pandemia de Covid-19, e surpreende como tivemos a má sorte de passar por este período nas mãos de um presidente genocida. Mesmo assim, nem mais de meio milhão de mortes (que poderiam estar na casa das cem mil, não fosse a política assassina do negacionismo) foi suficiente para interromper este governo.

Também é verdade que somos vitimados por diversos grupos de sanguessugas do orçamento público: banqueiros, latifundiários (do "Agro é Pop"), grandes empresários do setor imobiliário, das telecomunicações, das montadoras de automóveis, e até mesmo as grandes corporações estatais, como o Exército, o Judiciário, o MP, etc.. Esses se tornam mais sedentos nas crises, mas estão sugando o sangue do povo há muitos anos. Portanto, nem a reforma da previdência, nem a trabalhista, nem a privatização da Eletrobras, pelo lobby deles foi o suficiente para ver o governo emparedado pelo povo.

Entretanto, tudo isso deu uma balançada boa no conjunto e os apoios dos bolsonaristas, da extrema direita e dos grupos fascistas foi reduzido. Não vivemos mais aqueles tempos de 2018 em que as pessoas se convenciam de que Bolsonaro seria aceitável para evitar outro mal.

Hoje vemos o outro mal nos lugares em que sempre esteve: a corrupção está em quem financia, em quem patrocina, em quem elege deputados ricos que governam para os ricos, naqueles que querem transformar nosso Estado em um grande patrão e reduzir cada vez mais os rendimentos de seus empregados funcionários públicos, com propostas como a PEC 32 da reforma administrativa.

Aquele mal não está com os trabalhadores e trabalhadoras, com os movimentos sociais, com os sindicatos ou com partidos de esquerda, nem nunca esteve, como ainda quer a Rede Globo.

Entendendo isso, a classe trabalhadora, a maioria do povo, as periferias, os empregados, os MEIs, os motoristas de Uber, os movimentos e sindicatos, tem que continuar fazendo mobilizações. Pois eles são o empurrão que falta para derrotar o genocida.

Aliás, sem a esquerda organizada e nas ruas, continuaríamos relatando fatos que não foram o suficiente para derrotar a barbárie. Pois quem sempre esteve contra o Bolsonaro, no primeiro, segundo e terceiro turnos foi a esquerda, e não a direita ou o centro agora arrependidos (ou não).

A civilização está do lado esquerdo do espectro político. Não há como construir democracia e igualdade num sistema tributário que concentra renda, ou sistema educacional que deseduca a cidadania, ou sistema trabalhista que empurra para o trabalho precarizado chamando-o de empreendedorismo, ou numa sociedade que a família tradicional brasileira luta contra a família da maior parte do povo, em que as polícias prendem filhos e filhas por serem pretos, pobres e das periferias.

O capitalismo neoliberal não cabe aqui, o capitalismo não cabe aqui. Reformas não são o suficiente, a violência policial não cabe aqui. Aqui no país de nossos sonhos, pra mudar é preciso mesmo revolucionar, sem desigualdade, sem concentração, sem autoritarismo, sem violência, sem assassinatos de quem não se acomoda. Aqui em nossos sonhos, cabe coletivizar, acomodar a todes igualmente, inclusive a linguagem não binária, pois colocar em comum é isso, comunismo.

Marcel Farah
Educador Popular

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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