17 Jul 2021 | domtotal.com

Falar em nome da Vida

A vida é o que há de mais sagrado e está acima seja dos interesses econômicos, seja mesmo dos preceitos religiosos

Enquanto a humanidade sofre a tragédia desta pandemia, o presidente do Brasil participa na de 'motociata' com apoiadores em Porto Alegre
Enquanto a humanidade sofre a tragédia desta pandemia, o presidente do Brasil participa na de 'motociata' com apoiadores em Porto Alegre (Isac Nóbrega/PR)

Marcelo Barros

Após quase um ano e meio da Covid-19, já está evidente que Bolsonaro e seu governo colocaram a população brasileira para se contaminar pelo coronavírus e que fizeram isso de propósito, cientes do risco à vida das pessoas. Bolsonaro boicotou a estratégia nacional de vacinação durante a maior parte da pandemia, apostando na infundada imunidade de rebanho por contágio. Enquanto a humanidade sofre a tragédia desta pandemia, o presidente do Brasil participa na de "motociata" com apoiadores em Porto Alegre. Assim como aconteceu em atos anteriores, ele não usou máscara.

A consciência da dignidade e da igualdade de todos os seres humanos e a compreensão de uma cidadania universal é, de certa forma, recente. Para que tais conquistas possam ter ocorrido, foi importante uma evolução da cultura. Hegel dizia que nós não somos donos das nossas ideias. São as ideias que entram em nós e aí elas têm um poder transformador. A luta pelas ideias está na base das grandes lutas emancipatórias da sociedade.

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Uma das tragédias atuais é ver que, muitas vezes, as pautas mais retrógradas e claramente contrárias ao interesse dos pobres são apoiadas e defendidas pela parcela mais pobre da população. Ao se deixar formar por meios de comunicação, dominados pela elite, os pobres tendem a ser conservadores. Nos tempos antigos, as massas defendiam a escravidão e o racismo. Hoje, muitos brasileiros apoiam governos neofascistas. Revelam-se favoráveis à pena de morte, ao uso livre de armas de fogo e à violência policial contra pobres e negros. 

Essa realidade só muda quando a sociedade passa a se organizar em grupos e comunidades que buscam compreender com mais profundidade a realidade social. São os movimentos sociais e as comunidades humanas de base que formam o povo mais consciente de ser povo. 

No mundo romano antigo, o latim fazia a distinção entre plebs (massa) e populus (povo organizado). O Concílio Vaticano II define que a Igreja é uma porção do povo de Deus (populus Dei) e não massa de fieis.

Infelizmente, na história, muitas vezes, Igrejas e religiões foram contrárias aos grandes movimentos de libertação e promoção humana. Nos séculos passados, muitos pastores e ministros cristãos defenderam a monarquia contra a república. Consideravam a superioridade masculina sobre as mulheres como vinda do próprio Deus. Eram contra a igualdade de gêneros e contra a liberdade de expressão e de religião. 

Atualmente, em todo o mundo, pastores e ministros ainda organizam cruzadas contra o direito das pessoas à diversidade sexual. Acima de tudo, acham que religião deve estar sempre ligada à direita política. 

Nos Estados Unidos, um presidente de direita faz guerras, destrói a vida em muitos países, manda prender crianças de 5 anos de idade e as isolar de seus pais. Se este presidente for contra o aborto e a união gay contará com o apoio explícito de muitos bispos, padres católicos e pastores evangélicos. 

No Brasil, nestes dias, conforme órgãos da imprensa, televisões que se dizem católicas ofereceram apoio político ao presidente da República, em troca de ajuda econômica

No Evangelho, falou Jesus dos escribas e fariseus: vestem roupas religiosas, fazem longas orações, enquanto exploram as viúvas pobres (Mc 12, 39- 40). Hoje, esses doutores da religião não precisam explorar diretamente pobres e viúvas. Têm televisão para inundá-los de campanhas de arrecadação econômica. Agora, pedem ao governo para se beneficiar de verbas que vêm diretamente da exploração dos pobres. Para eles, mais vale uma boa reza do que a ética humana e social.

Precisamos com urgência voltar ao Evangelho de Jesus que afirmou: "O sábado foi feito para o ser humano e não o ser humano para o sábado". As leis, mesmo as mais sagradas, devem servir à vida e à felicidade das pessoas. Ao afirmar isso, Jesus enfrenta a tensão entre pessoa e sociedade. Claramente, optou pelas pessoas. Defendeu a mulher adúltera que a religião do templo mandava apedrejar. Revelou o amor divino aos pecadores públicos que eram discriminados. Paulo escreveu: "Onde está o Espírito Divino, aí há liberdade" (2 Cor 3, 17).

Marcelo Barros
Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: "O Evangelho e a Instituição", Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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