22 Jul 2021 | domtotal.com

A modernidade que se foi

Em 1956, iniciava-se um raro período de desenvolvimento em vários setores da vida nacional

Juscelino Kubitschek prestigiou a posse de Guimarães Rosa na ABL, em 1967
Juscelino Kubitschek prestigiou a posse de Guimarães Rosa na ABL, em 1967 (Acervo Família Tess)

Jorge Fernando dos Santos

Há 65 anos, três autores mineiros conquistavam lugar definitivo no hall da fama literária. Fernando Sabino, com o romance O encontro marcado, lançado pela Editora Civilização Brasileira. Guimarães Rosa, autor de Sagarana (de 1946), com Grande sertão: veredas e Corpo de baile, ambos pela Editora José Olympio. E Mário Palmério, com Vila dos Confins, também pela José Olympio. Três mestres da ficção, cada qual com seu estilo, a revelar diferentes aspectos da gente brasileira.

O ano era 1956 e o também mineiro Juscelino Kubitschek, amigo dos três escritores, havia tomado posse em 31 de janeiro na Presidência da República. Iniciava-se um raro período de desenvolvimento em vários setores da vida nacional. Talvez devido ao chamado zeitgest (espírito do tempo), os brasileiros surfavam uma onda de entusiasmo até então inédita. O ápice seria a inauguração de Brasília, a nova capital federal.

Com o lema "cinquenta anos em cinco", JK colocava o país nos trilhos da modernidade e isso teria reflexos principalmente nas artes. O Brasil dava samba em tom maior e a Bossa Nova despontava para o mundo. A arquitetura era moderna, a poesia era concreta, o teatro, de arena, e o cinema, novo. A TV e a indústria automobilística se consolidavam. A democracia era plena e a participação política se intensificava.

O clima de prosperidade também ecoava nos esportes. A Seleção Brasileira de Futebol conquistou a Copa da Suécia, em 1958. No ano seguinte, a jovem paulista Maria Esther Bueno vence o torneio de tênis de Wimbledon, na Inglaterra, conquistando o bicampeonato em 1960. Nesse mesmo ano, Éder Jofre, também nascido em São Paulo, torna-se campeão sul-americano de boxe na categoria peso-galo.

Direita tupiniquim

Mesmo com a alta da inflação e o aumento da dívida externa durante o seu governo, há que se reconhecer que JK foi o presidente mais jovial e carismático da História brasileira. Uma espécie de maquinista no trem do desenvolvimento. Contudo, foi duramente combatido pela UDN de Carlos Lacerda e Afonso Arinos de Melo Franco (signatário do Manifesto dos Mineiros de 1943 e autor da lei contra a discriminação racial).

Conservadores de carteirinha, esses dois nomes são exemplos de que a direita tupiniquim era bem melhor antes da ditadura militar. Aliás, há quem diga que o golpe de 1964, apoiado por eles, teve como verdadeiro objetivo impedir a volta de Juscelino ao poder. Sua vitória nas eleições presidenciais do ano seguinte era quase certa. No auge da guerra fria, isso incomodava aqueles que o consideravam amigo de comunistas.

Quase seis décadas depois, a mediocridade impera à direita e à esquerda do espectro político nacional. Em vez de um presidente bossa-nova e seresteiro, cercado de artistas e intelectuais, temos em Brasília um ex-militar mandrião e apedeuta, inimigo das artes, da cultura e da vida. Na oposição, no lugar de intelectuais como os de outrora, destacam-se falastrões e populistas, alguns comprovadamente corruptos. Ao contrário de JK, ninguém até agora apresentou um projeto de reconstrução nacional.

Diante do fato de que o país ignora solenemente os 65 anos de quatro livros fundamentais para a nossa cultura, podemos concluir que dificilmente será comemorado com a devida pompa, no ano que vem, o centenário da Semana de Arte Moderna. Da mesma forma, deverão passar em branco os 100 anos do Movimento Tenentista e o bicentenário da Independência. No transcorrer das eleições presidenciais, a nação estará mais polarizada do que nunca, sem clima nem lugar para efemérides e grandes ideias.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor e compositor, tem 46 livros publicados. Entre eles, Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa 1989), Alguém tem que ficar no gol (finalista do Prêmio Jabuti 2014), Vandré - O homem que disse não (finalista do Prêmio APCA 2015), A Turma da Savassi e Condomínio Solidão (menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte 2012).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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