05 Ago 2021 | domtotal.com

O blefe do voto impresso

As urnas eletrônicas foram criadas com ajuda das Forças Armadas, o que deveria servir de garantia de segurança

O que Bolsonaro realmente deseja é manter a nação cada vez mais polarizada
O que Bolsonaro realmente deseja é manter a nação cada vez mais polarizada (Marcos Corrêa/PR)

Jorge Fernando dos Santos

O Tribunal Superior Eleitoral tardou, mas não falhou, ao decidir por unanimidade abrir inquérito contra o presidente Jair Bolsonaro por atentar contra as eleições. Caso seja condenado, ele poderá no mínimo ter sua candidatura à reeleição impugnada. No entanto, o sujeito não se emenda. No dia seguinte à decisão, declarou que não aceitará intimidações nem eleições duvidosas e atacou novamente o presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso.

Nas manifestações de sábado, em Brasília, Bolsonaro subiu no palanque para mentir e vociferar contra as instituições democráticas. É inacreditável que seus seguidores tenham saído às ruas para defender o voto impresso mesmo depois do blefe da última quinta-feira (29), quando ele próprio admitiu numa live não ter provas de fraude nas urnas eletrônicas.

Também no sábado, o TSE lembrou pelo Twiter que qualquer cidadão pode fazer a contagem de votos por meio dos chamados Boletins de Urna. Enquanto isso, os robôs bolsonaristas reforçavam as manifestações na internet. Em resposta aos devaneios, 15 ex-presidentes do TSE divulgaram uma nota conjunta atestando a segurança do sistema eleitoral.

As urnas eletrônicas foram criadas com ajuda das Forças Armadas, o que deveria servir de garantia de segurança para militaristas como Bolsonaro. Até hoje, ninguém nunca provou ter havido fraude em eleições desde a adoção do sistema, em 1996. Boletins da Polícia Federal exibidos e não lidos por ele em sua live descartam essa possibilidade.

Manipulação do eleitorado

Bolsonaro sabe que dificilmente será reeleito presidente. Seus índices de popularidade despencam a cada nova pesquisa. Por isso agride adversários, ameaça instituições e alardeia a possibilidade de ser tungado nas urnas. No entanto, se a manipulação fosse factível, como explicar sua vitória em 2018? Para quem foi eleito com o voto eletrônico, é no mínimo um contrassenso colocar em dúvida o sistema. Curiosamente, em 1993, quando era deputado pelo PPR-RJ, ele defendia a "informatização" das eleições justamente para evitar fraudes.

Além de custar caro aos cofres públicos, a volta do voto impresso facilitaria a manipulação do eleitorado por milicianos, traficantes, pastores, fazendeiros e cabos eleitorais mal-intencionados. Antes da urna eletrônica, esse tipo de coisa era muito comum. Ressuscitar o velho sistema ou mesmo implementar o voto auditável seria tão absurdo quanto voltarmos a usar a máquina de escrever, o telefone analógico, o mimeógrafo ou o rádio de válvulas.

No ano passado, as eleições para a Casa Branca foram cercadas de polêmica e denúncias de fraude justamente porque, nos Estados Unidos, grande parte da votação ainda é feita em cédulas de papel. Portanto, a apuração é demorada e a contagem de votos acabou dando margem a questionamentos por parte de Trump e seus eleitores, inconformados com a vitória de Joe Biden.

O que Bolsonaro realmente deseja é manter a nação cada vez mais polarizada, refém das suas chantagens. A exemplo de Hugo Chávez na Venezuela, ele vê no autogolpe a única forma de se manter no poder e escapar da Justiça. Acuado pela CPI da Covid-19, sabe que poderá sofrer o impeachment e ser julgado por corrupção e genocídio. Para ganhar tempo, rendeu-se ao Centrão, que sempre alugou apoio ao Executivo. Resta saber até quando vai durar a blindagem.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor e compositor, tem 46 livros publicados. Entre eles, Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa 1989), Alguém tem que ficar no gol (finalista do Prêmio Jabuti 2014), Vandré - O homem que disse não (finalista do Prêmio APCA 2015), A Turma da Savassi e Condomínio Solidão (menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte 2012).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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