12 Ago 2021 | domtotal.com

Aquilo que interessa

Os absurdos se sucedem com tal velocidade que sequer temos tempo para digerir o noticiário

A tanquesseata serviu para mostrar o péssimo estado dos blindados nacionais
A tanquesseata serviu para mostrar o péssimo estado dos blindados nacionais (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Jorge Fernando dos Santos

Na tentativa de angariar apoio para o seu projeto autoritário de poder, o presidente Jair Bolsonaro tem liderado há algum tempo as chamadas motosseatas, pagas com dinheiro público. Nessa terça-feira (10/8), foi a vez das Forças Armadas realizarem uma tanquesseata em Brasília. "Mistura de infantilidade e inconsequência", nas palavras do general Santos Cruz, o evento serviu para mostrar o péssimo estado dos blindados nacionais.

Vale lembrar que não é só o poder Executivo que esbanja recursos de maneira irresponsável. Em apenas quatro anos, o Judiciário gastou quase R$ 23 milhões com as mordomias dos ministros do STF, incluindo auxílio moradia, passagens aéreas e ajuda de custo. Já o Legislativo, cujos gastos são notoriamente abusivos, acaba de ampliar a verba do Fundo Partidário sem levar em conta a situação do país.

Tudo isso demonstra o quanto essa gente vive distante da realidade daqueles que pagam o preço de suas extravagâncias. Temos no momento 14 milhões de desempregados, e o aumento do custo de vida evidencia o crescimento da inflação. Sem falar na falência de muitas empresas e nos riscos de uma crise energética.

Diante de tais absurdos, o que fazer para restaurar o bom-senso e o cuidado com a coisa pública? Fato é que a política nacional reserva pouco espaço para a atuação direta do cidadão em defesa dos seus interesses. Simplesmente eleger candidatos em meio a verdadeiras quadrilhas em que se converteram os partidos é muito pouco.

Derrota em dose dupla

A cada nova eleição, o eleitorado assiste à deterioração do modelo político instituído pela chamada Nova República. A vitória de Bolsonaro em 2018 é o melhor exemplo disso. Ele venceu não por mérito próprio, mas devido ao desgaste dos outros candidatos e à insatisfação popular diante da corrupção sistêmica.

Ao se eleger presidente sem um projeto exequível para o país, Bolsonaro cometeu estelionato eleitoral. Sem vocação republicana, passou a cogitar o autogolpe. Contudo, se o Judiciário e o Legislativo agissem com o devido rigor, suas ameaças contra as instituições democráticas já poderiam ter sido freadas. Enquanto os problemas se avolumam, o que percebemos é uma exagerada leniência diante das sandices do mandatário.

O bate-boca diário entre situação e oposição alardeado pela mídia serve de cortina de fumaça para esconder aquilo que de fato interessa. O número de mortos pela Covid-19 se aproxima dos 570 mil e as investigações da CPI ainda se arrastam, longe de uma conclusão que possa de fato condenar os responsáveis pela maior tragédia da história nacional. Em outras palavras, os disparates ocorrem com tal velocidade que sequer temos tempo para digerir o noticiário.

A boa nova da semana é que, em pleno dia da tanquesseata fumacenta, a Câmara Federal reprovou a PEC do voto impresso e o Senado sepultou, de uma vez por todas, a famigerada Lei de Segurança Nacional. A dupla derrota para aqueles que tentam atropelar a democracia acendeu uma luz no fim do túnel. O recado do parlamento foi claro: ditadura nunca mais!

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor e compositor, tem 46 livros publicados. Entre eles, Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa 1989), Alguém tem que ficar no gol (finalista do Prêmio Jabuti 2014), Vandré - O homem que disse não (finalista do Prêmio APCA 2015), A Turma da Savassi e Condomínio Solidão (menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte 2012).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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