19 Ago 2021 | domtotal.com

Coquetel de adrenalina

Em cartaz na Netflix, Beckett é uma boa pedida para os fãs de thrillers políticos

John David Washington dá ao personagem uma coerente consistência psicológica
John David Washington dá ao personagem uma coerente consistência psicológica (Copyright Netflix)

Jorge Fernando dos Santos

Como bem observou Marcelo Hessel, colunista do site de cinema Omelete, um filme intitulado Beckett pressupõe algo em comum com o dramaturgo irlandês que transformou o absurdo numa forma particular de expressão. Em cartaz na Netflix, o filme citado é uma boa pedida para os fãs de thrillers políticos.

Com argumento e direção de Ferdinando Cito Filomarino e roteiro de Kevin Rice, Beckett começa em clima romântico e vai aos poucos se transformando num suspense de tirar o fôlego. Curtindo as férias no norte da Grécia, um jovem casal americano sofre um acidente que mudará os rumos da narrativa para uma trama eletrizante.

Beckett é corretamente interpretado pelo ex-jogador de futebol americano John David Washington. Filho do astro Desen Washington, o ator não tem o charme do pai, mas dá ao personagem uma coerente consistência psicológica entre a culpa e o trauma. Diante da violência e do risco de morte, o bom-mocinho, aparentemente passivo, terá que ser forte para sobreviver e desvendar o mistério.

A sueca Alicia Vikander, ganhadora do Oscar de atriz coadjuvante por A garota dinamarquesa interpreta a mocinha, cuja vida será ceifada numa sinuosa curva do caminho. "Homem errado no lugar errado", o enlutado Beckett esbarra onde não deve. Pouco a pouco, a história entra num clima kafkiano bem no estilo de O homem que sabia demais, de Alfred Hitchcock.

Nervos de aço

Ferdinando Cito Filomarino é italiano e já dirigiu vários curtas-metragens. Aos 35 anos, ele tem feito parcerias com Luca Guadagnino, não por acaso um dos produtores do seu novo filme. Em 2015, dirigiu o longa Antonia, também em cartaz no Netflix, narrando a extraordinária história da primeira maestrina a reger grandes orquestras em meados do século 20.

Não bastassem as referências a Samuel Beckett e Hitchcock, o novo trabalho de Filomarino também remete ao clássico Profissão repórter, do seu compatriota Micheangelo Antonioni. Outra provável influência é o cineasta grego Costa-Gavras, autor de thrillers políticos que marcaram época, como Z, Desaparecido: Um grande mistério (Missing) e Estado de sítio. No entanto, Beckett é um filme original, que prende o espectador do início ao fim.

Além da direção e do roteiro com diálogos precisos e cenas inesperadas, vale destacar a trilha do japonês Ryuichi Sakamoto. Mestre do minimalismo sempre ligado ao cinema, ele atuou em Furyo, em nome da honra (Merry Christmas, Mr. Lawrence), filme de Nagisa Oshima para o qual fez a música, e foi coautor da premiada trilha de O último imperador, de Bertolucci. Repleta de sopros e violinos em pizzicato, a moldura sonora de Beckett realça o suspense nas cenas de maior impacto.

Num mundo em que o radicalismo político e o crime organizado se associam como nunca, ameaçando a democracia e gerando uma guerra de narrativas cada vez mais bizarras, o absurdo beckettiano ganha ares de realismo existencialista no thriller de Filomarino. Coquetel de adrenalina para lubrificar nervos de aço.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor e compositor, tem 46 livros publicados. Entre eles, Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa 1989), Alguém tem que ficar no gol (finalista do Prêmio Jabuti 2014), Vandré - O homem que disse não (finalista do Prêmio APCA 2015), A Turma da Savassi e Condomínio Solidão (menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte 2012).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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