26 Ago 2021 | domtotal.com

O riso é o melhor remédio

O problema é que os políticos de hoje são demasiadamente arrogantes e mal-humorados

De menino da porteira a 'velhinho da porqueira', o artista sertanejo virou Sérgio Rês
De menino da porteira a 'velhinho da porqueira', o artista sertanejo virou Sérgio Rês (Reprodução/SBT)

Jorge Fernando dos Santos

Confirmando o senso comum, o Brasil firma-se cada vez mais como o país da piada pronta. Vamos aos fatos: recentemente, a pedido do presidente da República, as Forças Armadas organizaram um desfile de blindados na Praça dos Três Poderes. No entanto, o que se viu na manhã de 10 de agosto foram tanques velhos e fumacentos poluindo o ar de Brasília.

Imediatamente, começaram a pipocar memes e piadas nas redes sociais, comparando os armamentos exibidos aos caminhões de fumacê contra a dengue. Muita gente contrapôs as imagens aos desfiles militares realizados na China, dizendo que, depois da deixa, correríamos o risco de ser invadidos pelo país comunista. Outros ressaltaram que os tanques pareciam movidos a carvão e que a fumaça poderia agravar o aquecimento global.

Dias depois, quando as gargalhadas ainda ecoavam, eis que o cantor Sérgio Reis convocou o povo para ocupar o Distrito Federal às vésperas do 7 de setembro. Nada mais coerente, já que ele sopra um berrante para chamar o gado. De menino da porteira a "velhinho da porqueira", o artista sertanejo virou Sérgio Rês, foi alvo de buscas da Polícia Federal, foi proibido de se aproximar da Praça dos Três Poderes e se desculpou pelo vexame.

Outra levantada de bola no humor nacional veio de um lugar improvável, do outro lado do mundo. Tão logo os talibãs retomaram o poder no Afeganistão, surgiram vários posts sugerindo o nome de Eduardo Bolsonaro, o filho 03 do presidente, para chefiar a embaixada brasileira naquele país. Bananinha certamente se sentirá em casa, ao lado de milicianos fundamentalistas e armados, que evocam o nome de Deus para exterminar os inimigos.

Mas as piadas não param por aí. A mais recente é que Zé Dirceu virou cabo eleitoral de André Mendonça junto ao Senado, defendendo a eleição do bolsonarista para a vaga de ministro do Supremo. Terrivelmente evangélico, Mendonça é também terrivelmente petista. Além do mais, os dois são terrivelmente contra a Operação Lava-Jato e o "terrível" ex-juiz Sérgio Moro. Por falar em STF, a segunda turma derrubou a condenação de Gedel Vieira Lima por associação criminosa (risadas da claque).

Humor e caricatura

Segundo o crítico russo Bakhtin, a cultura popular na Idade Média organizou-se principalmente em torno do carnaval e do riso. Rabelais teria sido o autor que melhor refletiu isso em sua obra. O humor e a caricatura foram, portanto, remédios contra o poder repressivo da Santa Sé e dos senhores feudais. Não é à toa que toda corte tinha um bobo de estimação.

Debochar dos opressores é uma forma de resistência. Não por acaso, no Brasil, descendentes do povo escravizado inventaram o samba e transformaram o entrudo momesco no maior espetáculo da Terra. Da mesma forma, piadas de português sempre fizeram parte do nosso cardápio humorístico.

Por mais dramático que seja o momento, o brasileiro tem sempre uma anedota na ponta da língua. Defeito ou virtude, essa incrível capacidade de rir de si mesmo e dos déspotas de plantão o ajudou a superar dificuldades ao longo da História. Isso talvez explique o excelente nível dos nossos sátiros, humoristas e chargistas, desde os áureos tempos do Império.

Nos momentos mais conturbados do período republicando, mestres como Nássara, Péricles, Barão de Itararé, Oscarito, Grande Otelo, Chico Anysio, Golias, Jô Soares, Juca Chaves e a turma do Pasquim (com destaque para os geniais Henfil e Millôr Fernandes) ajudaram a aliviar as tensões nacionais. Em pleno regime militar, o superministro Delfin Neto telefonava para as redações de jornal pedindo para publicarem caricaturas e charges inspiradas nele.

O problema é que os políticos de hoje são demasiadamente arrogantes e mal-humorados. Bolsonaro, por exemplo, odeia charges. Tanto que processou o genial cartunista Aroeira pela audácia de retratá-lo com a suástica. Aliás, o presidente tem emagrecido a olhos vistos. Com a cara chupada e aquela franja na testa, só falta cultivar o bigodinho na tentativa de ser levado a sério. Enquanto isso, ao que tudo indica, seu principal adversário nas urnas no ano que vem será mesmo Lula da Silva. Diante de tanto nonsense, o riso ainda é o melhor remédio.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor e compositor, tem 46 livros publicados. Entre eles, Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa 1989), Alguém tem que ficar no gol (finalista do Prêmio Jabuti 2014), Vandré - O homem que disse não (finalista do Prêmio APCA 2015), A Turma da Savassi e Condomínio Solidão (menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte 2012).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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