04 Set 2021 | domtotal.com

Novos gritos do povo excluído

A independência política tem de ser completada por verdadeira libertação de todas as pessoas que vivem no país

Cartas do 27º Grito dos Excluídos e Excluídas
Cartas do 27º Grito dos Excluídos e Excluídas (Divulgação)

Marcelo Barros

Mesmo em meio à pandemia que ainda nos ameaça com novas cepas, os movimentos sociais se unem às pastorais de Igrejas na organização do 27º Grito dos(as) Excluídos(as). Durante esta semana, na qual o Brasil recorda a sua independência de Portugal, de norte a sul do país, as manifestações populares nos dizem que a independência política tem de ser completada por verdadeira libertação de todas as pessoas que vivem no país. Por isso, é importante que todos e todas escutem o grito das multidões de brasileiros e brasileiras ainda excluídos/as dos seus direitos básicos. O tema deste 27º Grito resume gritos novos e antigos em um só assim formulado: "Vida em primeiro Lugar! - Na luta por participação popular, saúde, comida, moradia, trabalho e renda, já!".

Este tema com seus diversos gritos se insere na campanha Fora Bolsonaro que não é apenas dos excluídos e excluídas. Abrange pessoas de todas as categorias que não querem compactuar com a barbárie. O Brasil vive sob constantes ataques à nossa soberania e democracia. Cada dia, o presidente e sua base ameaçam o povo brasileiro com novo golpe, ora com palavras, ora com tanques das Forças Armadas, ora com chantagens ao Congresso. Desgasta a relação entre as instituições, como nos últimos dias, com notícias falsas e estímulo ao ódio aos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Em um momento no qual o mundo inteiro está alarmado com as consequências dramáticas do aquecimento global e a ONU prepara duas conferências sobre mudanças climáticas, o governo brasileiro privilegia o modelo depredador, favorece queimadas e aposta na destruição da natureza. Toma como inimigos os povos originários e, a cada dia, aprova medidas para lhes roubar terra e direitos adquiridos.

O povo brasileiro amarga um dos piores índices de desemprego da nossa história e um aumento descomunal do trabalho informal e mal remunerado. Por tudo isso e para dar um basta nesta situação, toda pessoa de boa vontade e que ama a Vida é convidada a se manifestar nesta semana e especialmente no dia 7 de setembro, no 27º Grito dos Excluídos e Excluídas e nesta campanha Fora Bolsonaro!

Juntos por um país verdadeiramente independente, sem genocídio da população pobre, negra e indígena, com justiça social e oportunidades para que o povo volte a sonhar e ter orgulho de ser brasileiro.

É urgente mobilizar as comunidades excluídas dos direitos básicos, para que participem nas etapas de formação e mobilização social, especialmente pelo direito à vacina, ao auxílio emergencial e Fora Bolsonaro, assim como nos mutirões pela Vida da 6ª Semana Social Brasileira, promovida pela CNBB e por vários organismos da sociedade civil e que está em processo de construção.

Ainda há quem pense que religião nada tem a ver com Política. Os profetas da Bíblia nunca pensaram assim. Mostraram que a atitude fundamental para adorar a Deus é lutar pacificamente pela justiça e pelo direito de todos. Jesus Cristo tomou como missão testemunhar o reino de Deus e nos ensinou a orar: Venha a nós o teu Reino. Isso significa que Deus tem um projeto para o mundo e esse projeto inclui a organização social e política da sociedade a partir da justiça eco-social e da Paz.

O próprio termo Igreja que o apóstolo Paulo usou para denominar as comunidades de discípulos e discípulas de Jesus era o nome das assembleias de cidadãos nas cidades do Império. Portanto, o próprio fato de se constituir como assembleias (Igrejas) revela que a vocação das comunidades cristãs é serem células de um mundo transformado. Por isso, para quem tem fé, participar do Grito dos Excluídos e Excluídas é não só ato de cidadania mas também de fé e espiritualidade. O próprio Jesus está nesse grito e nos chama recordando suas palavras: "Eu vim para que todos e todas tenham vida e vida em abundância" (Jo 10, 10).

Marcelo Barros
Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: "O Evangelho e a Instituição", Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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