02 Set 2021 | domtotal.com

Golpismo sem projeto

Quais seriam os planos bolsonaristas para um país cujos problemas se agravam a cada dia?

Em vez de apontar soluções, Bolsonaro passeia de moto e recomenda a compra de fuzis
Em vez de apontar soluções, Bolsonaro passeia de moto e recomenda a compra de fuzis (Alan Santos/PR)

Jorge Fernando dos Santos

Jorge Fernando dos Santos*

Por que Bolsonaro insiste no golpe? Simplesmente porque sempre viveu de golpes, a começar pelo esquema das rachadinhas que ensinou aos filhos. O maior deles, no entanto, foi se eleger presidente da República prometendo combater a corrupção e adotar uma agenda liberal na economia. Muito antes, pelo contrário, praticou o maior estelionato eleitoral da História.

Digamos que o autogolpe cogitado para o próximo 7 de setembro se concretize. Qual seria o projeto de governo, além da perseguição implacável aos inimigos e adversários? Independentemente de posições ideológicas, fato é que o Estado Novo de Vargas e o regime militar pós-1964 tinham projetos para o Brasil. Afinal, quais seriam os planos bolsonaristas para um país cujos problemas se agravam a cada dia?

Em vez de traçar estratégias e buscar soluções, Bolsonaro preferiu se tornar parte do problema. Além de semear inimizades gratuitamente, atrapalhou como pôde o combate à maior pandemia dos últimos 100 anos. Não bastassem os mais de 580 mil mortos pela Covid-19, ele insiste no negacionismo e tenta desobrigar o uso de máscaras no momento em que uma nova cepa do coronavírus se espalha pelo país.

Além das crises sanitária e econômica, com alta da inflação e dos combustíveis, temos quase 15 milhões de desempregados. A infraestrutura do país continua deficitária, o que certamente dificultará a retomada do desenvolvimento. Estamos de novo à beira de um apagão, precisando economizar água e energia elétrica. Em vez de apontar soluções, Bolsonaro passeia de moto, faz discursos de ódio e recomenda a compra de fuzis em vez de feijão.

Desespero de causa

No fundo, o risco de um blecaute é a metáfora da falta de luz de um governo que espalha trevas, em vez de iluminar o fim do túnel. O despreparo da equipe ministerial é público e notório. Mesmo oriundo da Escola de Chicago, quem é Paulo Guedes diante de um Oswaldo Aranha, um Roberto Campos ou um Delfin Neto? Quem é Milton Ribeiro, se for comparado a nomes como Gustavo Capanema, Darcy Ribeiro e Eduardo Portella?

Como justificar as trapalhadas do general Pazuello na pasta da Saúde e de Ricardo Salles, no Meio Ambiente? O que dizer do ministro da Ciência e Tecnologia, um astronauta que vive no mundo da Lua e agora faz discursos políticos? E dona Damaris, que teria conversado com Jesus trepada numa goiabeira? Os craques da equipe há muito saíram de campo. Nomes como Santos Cruz, Sérgio Moro e Luiz Henrique Mandetta hoje são adversários do governo. Aos críticos se juntaram esta semana os grandes produtores do agronegócio.

Ao se colocar entre a morte, a prisão e a vitória, Bolsonaro sinaliza que está perdido diante dos fatos. Suas declarações controversas refletem o desespero diante do cerco que se fecha. Como não tem a coragem de Vargas, que saiu da vida para entrar na História, sua opção é promover o caos e dividir o povo na tentativa de resistir. O pior é que suas viagens e comícios provavelmente são custeados com dinheiro público.

Vale lembrar que a gota d'água para a queda de Jango foi ter permitido a quebra de hierarquia nas Forças Armadas. No presente caso, justamente esse erro garantiria ao presidente a permanência no poder? Se de fato ocorrer o golpe, o Brasil se transformará numa Venezuela de extrema-direita. O pior é que dessa vez o problema não será o guarda da esquina, mas os milicianos do bairro.

Entre a cruz e a espada, Bolsonaro nos remete à velha piada. Num momento de crise, o ditador de certo país resolveu declarar guerra à China. Com a derrota do seu exército, os chineses ocupariam seu território e revolveriam todos os problemas. Parecia uma boa estratégia, até que um general levantou a mão e perguntou pelo plano B. Isto é, o que fariam se vencessem a guerra. O ditador não soube responder e imediatamente mandou fuzilá-lo. Moral da história: numa ditadura sem projeto, nem mesmo os militares estão seguros.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor e compositor, tem 46 livros publicados. Entre eles, Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa 1989), Alguém tem que ficar no gol (finalista do Prêmio Jabuti 2014), Vandré - O homem que disse não (finalista do Prêmio APCA 2015), A Turma da Savassi e Condomínio Solidão (menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte 2012).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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