03 Set 2021 | domtotal.com

Inflação e a corrosão de direitos

Ao que tudo indica, a inflação deste ano será tão alta ou maior do que a registrada em 2015

Inflação voltou a assombrar os brasileiros na gestão Bolsonaro
Inflação voltou a assombrar os brasileiros na gestão Bolsonaro (Tânia Rêgo/ Abr)

Marcel Farah

Inflação, uma velha conhecida de brasileiros e brasileiras. Temos um trauma com inflação, pois já passamos por muitos anos em que o dinheiro que se pagava para um almoço no dia seguinte não comprava nem um cafezinho. Mas por que isso acontece? E o que os governo tem haver com isso?

Ao que tudo indica, a inflação deste ano será tão alta ou maior do que a registrada em 2015, chegando a mais de 10% ao ano. Esse valor da inflação é um valor médio, não quer dizer que tudo subiu 10% durante o ano, mas sim que algumas coisas chegaram a subir até 30%, como o etanol combustível ou 20% como a gasolina, enquanto outras coisas não aumentaram tanto. Contudo, os combustíveis, os alimentos e o preço da energia puxaram a média para cima, e quem mais sente isso é o povo, é quem vive do próprio trabalho, são as classes trabalhadoras.

A inflação é muito curiosa, sofre influência de diversos acontecimentos, complexos, mas pode ser controlada por políticas econômicas preocupadas com aspectos sociais do fenômeno. O que ocorre é que todo aumento de preço de gasolina, por exemplo, tem impacto em diversos outros preços, como do transporte por aplicativos, por exemplo. O aumento do diesel aumenta o custo de frete, de transporte de alimentos, de produtos industrializados, dos ônibus nas cidades etc. Então um aumento puxa o outro e isso chamamos de inflação, pois os preços dos produtos inflam e o dinheiro perde poder de compra.

Por esta razão há lutas pelos ajustes de reposição dos salários, dos servidores públicos e do salário mínimo. Contudo, enquanto os preços mudam todo mês e até toda semana, a correção do salário só acontece uma vez ao ano, prejudicando ainda mais quem vive de salário.

Por isso, em 2007 foi criada uma política de aumento real do salário mínimo, que cresceria todo ano, acima da inflação.

Por outro lado, a inflação é benéfica para a arrecadação do governo. O imposto, por estar ligado diretamente ao preço, aumenta automaticamente com o aumento, enquanto o salário de trabalhadores e trabalhadoras só aumenta quando ocorre a data-base, a data da correção. Ou seja, a inflação é um imposto que não precisa de lei para existir.

Devido à luta pelo aumento real do salário mínimo, se considerarmos o valor deste nos últimos 30 anos, aumentou mais que a inflação. Em 1994, o salário mínimo de R$64,79 comprava uma cesta básica (aquela definida pelos dieese), em 2014, o salário mínimo de R$724 comprava duas cestas e meia, hoje os R$1.100,00 compram duas cestas.

Principalmente nos governos petistas houve expressivo aumento do salário mínimo. Isso ocorreu porque aqueles governos acreditavam que quando as pessoas podem comprar mais, além de viverem melhor, fazem a economia crescer, pois as empresas têm para quem vender.

Por outro lado, hoje em dia, a política neoliberal deste governo, acredita que para melhorar a economia tem que cortar gastos, ao invés de aumentar as receitas. Por isso acabaram com a política de aumento real do salário mínimo. Pois defendem que o mercado deve se regular quase que autonomamente, por isso liberais. O resultado, em um país periférico mundialmente falando, é que, além da inflação, que corrói o poder de compra, o salário também não será corrigido, nem a economia vai bem, afinal, as empresas não têm para quem vender.

E o que isso tem a ver com direitos? Falamos de direito à alimentação, a salário digno, a correção do valor dos salários, falamos de direito ao transporte etc. Inflação tem relação com tudo isso, e com outros direitos também, como educação, lazer, saúde e outros.

O aumento dos preços vai excluindo as pessoas desses serviços. Por isso, o remédio para inflação é elegermos representantes que se preocupem com aumentar nossos salários, e não congelar. Pois, isso não é benéfico só pra quem é assalariado, mas sim, para a economia como um todo.


Marcel Farah
Educador Popular

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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