09 Set 2021 | domtotal.com

A vida humana não tem preço

O filme 'Quanto vale?' pode ser considerado uma espécie de rescaldo da tragédia de 11 de setembro

Michael Keaton interpreta Kenneth Feinberg, advogado que coordenou o Fundo de Compensação
Michael Keaton interpreta Kenneth Feinberg, advogado que coordenou o Fundo de Compensação (Copyright Monika Lek / Netflix)

Jorge Fernando dos Santos

Muito já se escreveu e se filmou sobre o 11 de setembro de 2001, dia em que os Estados Unidos sofreram o maior atentado terrorista da História. Na ocasião, dois aviões comerciais sequestrados pela Al-Qaeda destruíram as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, matando quase 3 mil pessoas. Uma terceira aeronave comercial foi atirada contra o Pentágono, em Washington, e um quarto avião dominado por terroristas caiu perto da cidade de Pittsburg antes de atingir o alvo - provavelmente a Casa Branca.

Duas décadas depois, compensa assistir a Quanto vale? (Worth), que acaba de estrear na grade do Netflix. Estrelado por Michael Keaton, o filme dirigido por Sara Colangelo narra a história real do Fundo de Compensação às Vítimas daqueles atentados. Até então inédita, a iniciativa do governo americano tinha o objetivo de indenizar sobreviventes e familiares, além de evitar uma enxurrada de processos contra o Estado e as companhias aéreas.

Keaton interpreta Kenneth Feinberg, advogado que coordenou o Fundo de Compensação. Para tanto, ele formou uma equipe e trabalhou voluntariamente, tendo como meta conseguir pelo menos 80% de adesão aos acordos propostos. Mas quanto vale uma vida humana? Eis a questão com a qual se deparou. Inicialmente, Ken propôs uma tabela baseada nos salários das vítimas, estratégia prontamente rechaçada pelo também advogado Charles Wolf (Stanley Tucci), cuja esposa morrera num dos atentados.

Longe de ser uma superprodução, o filme foi adaptado do livro What is Life Worth?, do próprio Feinberg. O roteiro é do experiente Max Borenstein, autor de diálogos precisos que retratam o drama dos personagens sem escorregar para o sentimentalismo barato. Na verdade, o tema central é de fundo ético e moral: até que ponto seria justo que a vida de um alto executivo valesse mais que a de uma faxineira ou de um simples porteiro?

Quanto vale? pode ser considerado uma espécie de rescaldo da tragédia de 11 de setembro. Afinal, muitas produções já mostraram os bastidores dos atentados que sacudiram o mundo. Algumas delas seguindo a receita do cinema-catástrofe, com cenas bombásticas, efeitos especiais e histórias de heroísmo. Dessa vez, a narrativa é calcada no fator humano e no estrago psicológico provocado pelo trauma que mudou para sempre a vida dos americanos. A interpretação de Keaton (que fez 70 anos no último dia 5) é contida e correta, como sempre.

Teorias conspiratórias

Além da perdas humanas e materiais, a ação terrorista mais ousada da História deixou muitos pontos de interrogação que até hoje servem para alimentar teorias conspiratórias. Por que o FBI nada fez ao ser informado que jovens árabes frequentavam uma escola de pilotagem em solo americano? Por qual razão a Força Aérea não foi prontamente acionada, tão logo os radares captaram aeronaves comerciais voando fora de rota? Como é que o passaporte de um suposto terrorista pôde ser encontrado em meio aos escombros de uma das torres gêmeas?

No momento dos ataques, o presidente George W. Bush visitava uma escola primária. Ao ser informado, ficou paralisado e demorou alguns segundos para reagir à notícia. No mesmo dia, familiares de Osama Bin Laden, líder da Al-Qaeda, encontravam-se nos Estados Unidos, mas, em vez de presos, foram imediatamente embarcados de volta à Arábia Saudita. Outra questão diz respeito à maneira como as torres desabaram. Pequenos flashes de luz na estrutura dos edifícios seriam a evidência de implosões controladas?

Antes que a poeira baixasse, Bush conclamou uma "cruzada" contra o terrorismo internacional. Dominado pelo Talibã, grupo fundamentalista islâmico, o Afeganistão abrigava a base da Al-Qaeda e foi prontamente atacado. Em 2002, o presidente americano ordenaria a invasão do Iraque, incluindo esse país no que chamou de "eixo do mal", ao lado do Irã e da Coreia do Norte. Passados 20 anos, com a retirada das tropas de ocupação, os afegãos voltam a sofrer nas mãos dos talibãs. Enfim, tantos gastos e tantas vidas perdidas por quase nada!

O Fundo de Compensação às Vítimas dos atentados teve a adesão de 97% dos reclamantes elegíveis e se encerrou em dezembro de 2003. Cerca de 5,5 mil pessoas dividiram um montante de quase US$ 7 bilhões. Quanto vale? aborda as nuances do processo, mostrando os dramas de consciência do advogado-mestre e o dia a dia de sua equipe. A conclusão final é que nem todo o dinheiro do mundo seria suficiente para enxugar as lágrimas e o sangue dos inocentes. No entanto, recomeçar a vida com os bolsos vazios poderia ser bem mais difícil.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor e compositor, tem 46 livros publicados. Entre eles, Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa 1989), Alguém tem que ficar no gol (finalista do Prêmio Jabuti 2014), Vandré - O homem que disse não (finalista do Prêmio APCA 2015), A Turma da Savassi e Condomínio Solidão (menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte 2012).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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