11 Set 2021 | domtotal.com

Educação como prática do diálogo


Com o seu método revolucionário de alfabetização, Paulo Freire nos ensinou que a educação é o processo que nos torna mais humanos. Alfabetizar não é apenas ensinar a ler, mas possibilitar a todas as pessoas a participação cidadã e crítica na sociedade

Paulo Freire afirmava que somente a educação não pode mudar a sociedade, mas, ao mesmo tempo, nenhuma sociedade mudará sem que a educação desempenhe um papel fundamental
Paulo Freire afirmava que somente a educação não pode mudar a sociedade, mas, ao mesmo tempo, nenhuma sociedade mudará sem que a educação desempenhe um papel fundamental (Valmir Fernandes MST-PR/Fotos Públicas)

Marcelo Barros

No dia 19 de setembro, celebraremos a data em que o grande Paulo Freire completaria 100 anos. A ONU instituiu o 8 de setembro como Dia Internacional da Alfabetização. Por isso, nestes dias, no mundo inteiro, a sociedade civil internacional se viu envolvida pelos novos desafios de uma educação para todas as pessoas e a busca de novos meios para erradicar o analfabetismo.

Conforme cálculos da ONU, em todo o mundo, o analfabetismo absoluto diminuiu, mas ainda há grande proporção de analfabetos(as) funcionais. Na cidade de São Paulo, 17% dos(as) jovens entre 15 e 24 anos não conseguem ler placas e avisos de uma estação rodoviária ou de Metrô. Não sabem preencher dados para uma ficha de emprego.

Com o seu método revolucionário de alfabetização de adultos(as), Paulo Freire nos ensinou que a educação é o processo que nos torna mais humanos. Alfabetizar não é apenas ensinar a ler, mas possibilitar a todas as pessoas a participação cidadã e crítica na sociedade.

É verdade que nascemos autocentrados(as). Crescemos sob a influência de tendências nocivas que tendem a nos imobilizar quando se trata de correr riscos e abrir mão de prestígio, poder e dinheiro. Daí a necessidade de uma educação profunda da consciência e da sensibilidade das pessoas e das coletividades. As práticas educativas devem infundir valores altruístas, gestos solidários e ideais sociais. Só assim, a vida ganha sentido e as relações humanas se tornam verdadeira comunicação.

Conforme Paulo Freire, a educação só cumpre sua função quando forma seres humanos mais felizes, dotados de consciência crítica e capazes de aprimorar sistemas sociais e políticos no sentido do amor solidário, da igualdade social e da justiça.

Caminhar nesse sentido implica vencer alguns desafios da atual conjuntura. O primeiro deles é superar o avassalador processo neoliberal de desistorização da história. Sem perspectiva histórica não há consciência nem projetos políticos. O filósofo alemão Theodor Adorno afirmava que o desafio mais urgente da educação é desbarbarizar a sociedade. Ele compreendia por barbárie uma sociedade que, de um lado, se encontra em alto grau de desenvolvimento tecnológico e, do outro, mantém as pessoas privadas de viver e expressar a sua dignidade humana.

Paulo Freire afirmava que somente a educação não pode mudar a sociedade, mas, ao mesmo tempo, nenhuma sociedade mudará sem que a educação desempenhe um papel fundamental. E nessa educação humanitária e libertadora, o diálogo é o elemento fundamental.

Diálogo não é qualquer tipo de comunicação. Não é apenas troca de opiniões ou debate. É relação entre pessoas que se colocam em atitude de escuta mútua para buscar juntas a verdade. Inclui a dimensão interior do diálogo consigo mesmo. Realiza-se mais profundamente no encontro amoroso com as outras pessoas e na comunhão com a natureza.

Para quem tem fé, tudo isso compõe o diálogo com o mistério que as religiões chamam de Deus. O grande educador Ruben Alves afirmava: "Educar é mais difícil do que ensinar. Para ensinar, basta saber. Para educar, precisa ser".

Marcelo Barros
Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: "O Evangelho e a Instituição", Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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