14 Set 2021 | domtotal.com

Coisificação do mundo e a crise de civilização

Apesar da crise ambiental ainda não percebemos que a natureza tem seu limite

Sem superação da racionalidade econômica, em prol da racionalidade ambiental, a crise em que vivemos persistirá
Sem superação da racionalidade econômica, em prol da racionalidade ambiental, a crise em que vivemos persistirá (Unsplash/Bill Oxford)

Newton Teixeira Carvalho

Conforme alerta, com muita propriedade, Enrique Leff, no prólogo e em todo o seu livro Racionalidade ambiental, "a problemática ambiental emerge como uma crise de civilização: da cultura ocidental; da racionalidade da modernidade; da economia do mundo globalizado. Não é uma catástrofe ecológica nem um simples desequilíbrio da economia. É a própria desarticulação do mundo ao qual conduz a coisificação do ser e a superexploração da natureza; é a perda do sentido da existência que gera o pensamento racional em sua negação da outridade" (p. 15).

A palavra outridade, utilizada por Leff, em toda a obra antes citada, vem de Emmanuel Levinas, em substituição à palavra alteridade (natureza ou condição do que é outro, do que é distinto). Portanto, outridade é o encontro com o outro, e não a distinção entre pessoas. Outridade é o absolutamente outro. Assim, o correto é falar-se em outridade e não alteridade. Outridade surge como enfrentamento ao discurso filosófico que encampou a alteridade. Outridade sim é interação e a interdependência com outras pessoas.

Leff também deixa expresso que "o modo de produção capitalista submete a natureza à lógica do mercado e às normas de produção de mais-valia, ao mesmo tempo que as potencialidades da natureza e do ser humano se convertem em objetos de apropriação econômica" (p. 57), a demonstrar que a crise ambiental persistirá caso não tenhamos capacidade e coragem para superar este preocupante estado de coisa.

Leff fala também da possível morte entrópica do planeta, usando a lei da termodinâmica, sobre a qual falaremos no próximo artigo, e ainda afirma que a crise ambiental é consequência da hegemonia totalizadora do mundo globalizado e da vontade de homogeneizar a ciência, o mercado, bem como da mercantilização da natureza. Assim, a racionalidade econômica é o responsável pela crise ambiental.

Também alerta Leff que a crise ambiental, como coisificação do mundo, "tem, suas raízes na natureza simbólica do ser humano; mas começa a germinar através do projeto positivista moderno que procura estabelecer a identidade entre o conceito e o real" (p. 16). Portanto, a crise global é crise do efeito do conhecimento sobre o mundo, considerando que "o conhecimento voltou-se contra o mundo, interveio nele e deslocou-o".

E apesar da crise ambiental ainda não percebemos que a natureza tem seu limite, diante de uma racionalidade econômica ilimitada, que preocupa apenas com o momento atual, explorando ao máximo a natureza, esgotando os recursos naturais, sem uma necessária recomposição e sem desprezar que várias coisas que são exploradas no momento atual não tem como recompor. É uma perda permanente.  

Portanto, a racionalidade ambiental, em contraponto com a (i)racionalidade econômica, "emerge assim do questionamento da hipereconomização do mundo, do transbordamento da racionalidade coisificadora da modernidade, dos excessos do pensamento objetivo e utilitarista" (p.16), conforme demonstra Leff.  

Outra crítica do autor, no tocante à crise ambiental, é que a mesma é "efeito do conhecimento – "verdadeiro ou falso -  do mundo a partir do momento em que o homem surge como um animal habitado pela linguagem, que faz com que a história humana se separe da história natural, que seja uma história do significado e do sentido atribuído pelas palavras às coisas e que gera as estratégias de poder na teoria e no saber que resolveram o real para forjar o sistema mundo moderno" (p. 16). Portanto, há uma crise de ensino, de cultura, em razão da equivocada racionalidade econômica.

Portanto, a racionalidade ambiental, proposta por Leff, "desconstrói a racionalidade positivista para marcar seus limites de significação e sua intromissão no ser e na subjetividade: para assinalar as formas como atravessou o corpo social, intervindo nos mundos de vida das diferenças culturais e degradando o ambiente em escala planetária" (p. 20).   

Assim e ainda para Leff, "A racionalidade ambiental se forja em uma ética da outridade, em um diálogo de saberes e em uma política da diferença que vão além de toda ontologia e de toda epistemologia que pretendem conhecer e englobar o mundo, controlar a natureza e sujeitar os mundos de vida" (p. 21). 

Não se pode desprezar, também, que a racionalidade da modernidade permite intervenção no mundo, bem como modificá-lo ou acabar com parte ou até com  o todo dele,  e não reconhece as diversas culturas, entendo que o saber está restrito ao que é  ditado pela academia, a ponto de, autoritariamente,  não analisar as outras formas de vidas, de culturas, rotulando-as de atrasadas ou desprezando-as de imediato ou, pior, aniquilando-as, para que apenas o saber acadêmico ou o saber ditado pela economia possa prevalecer.

Não se pode olvidar que as ciências hoje são instrumentos de poder e por consequência da apropriação da própria natureza e de a utilização desse poder de uns contra os outros, a exemplo do "uso bélico do conhecimento e a superexploração da natureza" (Leff, p. 17).

 Assim, sem mudanças paradigmáticas, sem superação da racionalidade econômica, em prol da racionalidade ambiental, a crise em que vivemos persistirá e poderá levar ao aniquilamento de toda a humanidade.

Newton Teixeira Carvalho
Pós-Doutorado em Docência e Investigação pelo Instituto Universitário Italiano de Rosário (2019). Doutor em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2013), Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2004). Especialista em Direito de Empresa pela Fundação Dom Cabral (1987), Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1985). Desembargador da 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Juiz de Direito da 1ª Vara de Família até junho de 2012. Professor de Direito de Família da Escola Superior Dom Helder Câmara. Autor e coautor de vários livros e artigos na área de família, direito ambiental e processual civil.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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