16 Set 2021 | domtotal.com

Delírios mussolinescos

Formação de uma frente ampla oposicionista pode inaugurar a construção do cadafalso presidencial

Bolsonaro recuou do seu propósito golpista provavelmente por não ter o apoio integral dos militares
Bolsonaro recuou do seu propósito golpista provavelmente por não ter o apoio integral dos militares (Alan Santos/PR)

Jorge Fernando dos Santos

Ainda não foi devidamente explicado o aparente recuo de Jair Bolsonaro na sua ofensiva antidemocrática. Logo após as manifestações de 7 de Setembro, ele surpreendeu a nação ao divulgar uma carta redigida sob a orientação do ex-presidente Michel Temer. Em tom conciliatório, a referida mensagem dividiu bolsonaristas e deixou muitas perguntas no ar.

Por qual motivo uma pessoa tão obsessiva e autoritária recuaria de sua posição supostamente vantajosa? O que estaria por trás da atitude de Bolsonaro? Teria sido uma estratégia no jogo em favor do arbítrio ou apenas um “cair em si”, tipo aquele do bebum que se envergonha dos vexames da noite anterior? Fato é que a estranha missiva sinalizou uma trégua entre os Poderes da República, pelo menos até que o presidente sofra uma nova recaída.

Na verdade, o 7 de Setembro não foi aquilo que Bolsonaro sonhava. Na Avenida Paulista, por exemplo, ele esperava quase 2 milhões de adeptos. No entanto, segundo a Polícia Militar do Estado de São Paulo, não mais que 125 mil pessoas teriam comparecido ao comício golpista, no qual o presidente debulhou seu costumeiro rosário de ameaças aos ministros do STF. Alguns ali são de fato censuráveis, mas não cabe ao Executivo a missão de enquadrá-los.

De qualquer forma, é muito estranho que, no auge da ira despótica, Bolsonaro tenha aceitado falar por telefone com seu arqui-inimigo Alexandre de Moraes, cujo currículo chegou a elogiar. Em plena ressaca moral, os índices de aprovação do governo despencaram ainda mais. Um dos primeiros a pular fora do comboio bolsonarista foi o tal de Zé Trovão, representante de uma parcela de caminhoneiros foragido no México. No entanto, pouco depois, ele voltou atrás e pediu desculpas pelas “palavras duras” dirigidas ao presidente.

Corda esticada

No dia seguinte à divulgação das desculpas de Bolsonaro, o ministro da Justiça, Anderson Torres, teve uma reunião de quatro horas com Moraes. Enquanto isso, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, cumpria sua agenda de encontros com lideranças empresarias e políticas. Ser comparado a um cunhado folgadão aumentou a distância entre ele e o titular, levando-o a intensificar diálogos inclusive com adversários do governo.

Mais escaldado que o companheiro de chapa, o vice tem noção da crise que assola o país e sabe dos perigos que rondarão a República, no caso de uma ruptura institucional. Bolsonaro chegou a afirmar que o escolheu às pressas para o cargo e provavelmente não vai convidá-lo para continuar a seu lado nas próximas eleições. De qualquer forma, é evidente que o “casamento” vive momentos de crise e nenhum dos dois parece disposto a discutir a relação.

Bolsonaro recuou do seu propósito golpista provavelmente por não ter o apoio integral dos militares, ao contrário do que sonhava em seus delírios mussolinescos. Mesmo as PMs, das quais muita gente temia quarteladas, agiram dentro das linhas da Constituição, com total obediência aos governadores. Também pesou o duro pronunciamento do presidente do STF, ministro Luiz Fux, alertando para as consequências do crime de responsabilidade.

O atual momento é mais que oportuno para a abertura do processo de impeachment no Congresso Nacional. Não bastassem as conclusões da CPI da Covid-19, a morte de quase 600 mil brasileiros na pandemia e o inquérito das fake news, Bolsonaro comete um punhado de crimes toda vez que abre a boca. Oxalá a corda que ele tanto esticou sirva para enforcá-lo politicamente. 

Os protestos da oposição no domingo (12/9) foram modestos, mas a formação de uma frente ampla oposicionista pode inaugurar a construção do cadafalso presidencial.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor e compositor, tem 46 livros publicados. Entre eles, Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa 1989), Alguém tem que ficar no gol (finalista do Prêmio Jabuti 2014), Vandré - O homem que disse não (finalista do Prêmio APCA 2015), A Turma da Savassi e Condomínio Solidão (menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte 2012).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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