21 Set 2021 | domtotal.com

Morte entrópica do planeta

Discurso do desenvolvimento sustentado já não pode mais ser aplicado

há uma crise ambiental que acaba por matar
há uma crise ambiental que acaba por matar (Vale)

Newton Teixeira Carvalho

Segundo doutrina Enrique Leff, no livro Racionalidade ambiental, está acontecendo a morte entrópica do planeta, considerando que ainda não resgatamos o pensamento dialético de Bookchin, em uma crítica a Engels, "amalgando-o na evolução biológica" e estabelecendo "uma filosofia da natureza que possa guiar a ação social através de leis racionais e objetivas" (p. 86).

Como sabido, Hegel rejeita a evolução natural e recorre às teorias mecanicistas da evolução, que prevaleceu principalmente no século 19, bem como também tal questão adentrou no século 20, com o pensamento metafísico. Na verdade, é a teoria sobrepondo ou ignorando os fatos ou então pretendendo modificá-los. O que prevalece são os conceitos, mesmos que abstratos, mesmo que dissociados do real.    

E ainda segundo Leff, "Bookchin está à procura de uma filosofia da natureza que possa apoiar uma moral da 'isonomia'! A ética da natureza foi, certamente, pervertida pelo predomínio da epistemologia sobre as condições ontológicas do ser; a racionalidade científica da modernidade – do mecanicismo ao positivismo lógico e ao estruturalismo – cristalizou-se em uma racionalidade do domínio sobre a natureza" (p. 86/7).

E também não se pode esquecer que "o materialismo dialético, através do qual Engels pretendeu unificar o pensamento e a matéria, não sobreviveu à prova da história e da razão crítica" (p. 87), conforme é fácil de comprovar hoje.  

Assim é que "o pensamento ocidental, obcecado pelas ideias universais e a unidade das ciências, está sendo questionado no pensamento pós-moderno por ter dissociado o real e o simbólico, as ciências lógico-fáticas da natureza e as ciências do espírito" (p. 101).

E com relação "a produção de entropia em qualquer organismo vivente na terra – a morte entrópica de cada indivíduo – assim como a morte entrópica do universo correspondem a processos diferenciados em escala, tempo e significado em relação à formação neguentrópica de biomassa através da fotossíntese" (p. 198).

Certo é que a entropia, uma grandeza termodinâmica, mede o grau de desordem de um sistema físico, em razão de perda de energia e da desordem reinante em um determinado momento, consequência de uma sobrecarga de ações e do desrespeito ao limite de cada um.  

Assim, a racionalidade ambiental questiona a entropização do planeta, uma realidade que não mais pode ser negada. E, na verdade, o discurso falacioso do desenvolvimento sustentado tem contribuído pela perpetuação desta morte já não tão lenta de nosso planeta.

E depois, "a volta ao ser e a transição a um futuro sustentável estão tensionadas por uma diferença real: o hiperconsumo, que, regido pela lei da demanda através da manipulação do desejo, continua remetendo ao imperativo da lucratividade e da necessidade da produção, da exploração do trabalho, da espoliação da natureza, da contaminação do ambiente; de uma pobreza que não consegue esconder seu rosto" (p. 133).

E em uma publicação de 1972, de Os limites do crescimento (Meadows et al., 1972), conforme ainda esclarece Leff, "difundiu pela primeira vez em escala mundial uma visão crítica da ideologia do “crescimento sem limites”, fazendo soar o alarme ecológico e apresentando os limites físicos do planeta para prosseguir a marcha cumulativa da contaminação e do crescimento demográfico". (p. 135).

E, em 1971, Georgescu-Roegen publicou A lei da entropia e o processo econômico, demonstrando "o vínculo entre o processo econômico e a segunda lei da termodinâmica que rege a degradação da matéria e da energia em todo processo produtivo, e, com isso, os limites físicos impostos pela lei da entropia ao crescimento econômico e à expansão da produção. O crescimento econômico avança à custa da perda da fertilidade da terra e da desorganização dos ecossistemas, enfrentando a inelutável degradação entrópica de todo processo produtivo" (p. 135).

E, continua Leff: "É isso o que haveria de manifestar-se no aquecimento global do planeta, efeito da crescente produção de gases com efeito estufa e da diminuição da capacidade de absorção de dióxido de carbono pela biosfera, devido ao avanço do desflorestamento" (p. 135).

E o próprio Leff, inspirado em outros autores, esclarece que, "em resposta a essa crise ambiental, foram propostas e difundidas as estratégias do ecodesenvolvimento, postulando a necessidade de se criar novas formas de produção e estilos de vida baseados nas condições e potencialidades ecológicas de cada região, assim como na diversidade étnica e na capacidade das populações locais para a gestão participativa dos recursos" (p. 135).

Portanto, há uma crise ambiental que acaba por matar, diariamente e já em processo adiantado, o nosso planeta. Entretanto, a (i)racionalidade econômica, o lucro a todo custo, o egoísmo, eis que pensamos somente no momento presente, e não nas gerações futuras, não nos permite enxergar o tamanho do poço que nós mesmos cavamos e que a cada dia o aprofundamos mais ainda, até chegar o dia que cairemos, sem volta, nele mesmo.

Ainda há tempo de reverter a situação, em grande parte. Porém, são necessárias atitudes, superação de paradigmas e que não nos preocupemos apenas com o hoje, mas também com o amanhã. Urge que abdicamos desse pensamento egoísta e paradoxal. Urge que sejamos realmente inteligentes e não (i)racionais.

Newton Teixeira Carvalho
Pós-Doutorado em Docência e Investigação pelo Instituto Universitário Italiano de Rosário (2019). Doutor em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2013), Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2004). Especialista em Direito de Empresa pela Fundação Dom Cabral (1987), Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1985). Desembargador da 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Juiz de Direito da 1ª Vara de Família até junho de 2012. Professor de Direito de Família da Escola Superior Dom Helder Câmara. Autor e coautor de vários livros e artigos na área de família, direito ambiental e processual civil.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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