23 Set 2021 | domtotal.com

Lapinha pede socorro

Carvoaria funciona numa fazenda vizinha de reserva ambiental e de atividades turísticas

Imagens dos fornos da Carvão Texano
Imagens dos fornos da Carvão Texano (DR)

Jorge Fernando dos Santos

Reportagens publicadas recentemente no Estado de Minas e no portal Impacto denunciam a poluição atmosférica causada por uma carvoaria, no bairro Lapinha, em Lagoa Santa, Região Metropolitana de Belo Horizonte. Quem reside ou frequenta o lugar conhece o drama. Nesta época o problema se agrava, devido às queimadas e à baixa umidade relativa do ar.

Um vídeo postado nas redes sociais pelo morador Marcos Vinícius da Rocha mostra uma grande quantidade de fumaça sendo expelida pelos fornos. A cena é espantosa! Sem a devida filtragem, a fuligem é jogada diretamente na atmosfera, para desespero da vizinhança.


"Já procuramos a prefeitura, a Polícia Militar de Meio Ambiente e eles falam que a carvoaria está regularizada, mas quem mora perto sabe da realidade. Todos os dias, depois das 17h, os fornos são ligados e o carvoejamento é a noite toda. Ninguém mais consegue ficar nem fora nem dentro de casa... Essa carvoaria vai acabar causando mortes em nossa comunidade", disse Marcus Vinícius à repórter Nivea Machado, do Estado de Minas.

Doenças respiratórias

A carvoaria pertence à companhia Carvão Texano, que produz carvão vegetal de florestas plantadas. A direção da empresa garante que "respeita e cumpre rigorosamente a legislação ambiental, possuindo toda a documentação que legaliza a atividade". No entanto, pelo volume e cheiro de fumaça, ou a afirmação não corresponde à verdade ou está havendo omissão por parte dos órgãos fiscalizadores.

A Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) admite que não constam registros de fiscalização na referida empresa. No entanto, o órgão alerta que a liberação de gases nocivos à saúde, como dióxido de carbono e metano na fase de carvoejamento, coloca a atividade carvoeira em potencial poluidor M (médio), "sendo obrigatório o uso de filtros nas chaminés dos fornos".

Alguns moradores começaram a apresentar problemas respiratórios pouco depois do início da atividade, em 2015. Jordelina Soares, de 88 anos, é um exemplo disso. Ela sofre de doença pulmonar obstrutiva (DPOC) e tem piorado consideravelmente. O cardiologista já alertou sobre o agravamento dos sintomas devido aos efeitos da fumaça no organismo. Nem mesmo no auge da pandemia de Covid-19 a carvoaria deu trégua à população.

"Paraisão" vira inferno

Tosse seca, falta de ar, dor e ardência na garganta, rouquidão, lacrimejamento e vermelhidão dos olhos, alergias, pneumonia, enfisema, insuficiência respiratória, problemas cardiovasculares e câncer pulmonar fazem parte da lista de doenças provocadas pela inalação contínua de fumaça e substâncias tóxicas. Além dos riscos à saúde, o cheiro de fuligem impregna os cabelos e as roupas dos vizinhos da Carvão Texano.

Outro absurdo é que a carvoaria funciona numa fazenda vizinha de reserva ambiental e de atividades turísticas, próximo à Gruta da Lapinha e ao Museu Peter Lund, no Parque Estadual do Sumidouro. A região é repleta de sítios e casas de campo. Uma moradora, que cuida da avó de 99 anos, sempre se referiu ao lugar como "paraisão" e agora teme que ele esteja se transformando num inferno.

Com o aumento na emissão de fumaça, os imóveis tendem a desvalorizar. Afinal, quem vai querer investir numa área residencial sem a garantia de bem-estar e segurança? O caso está parado no Conselho Municipal de Desenvolvimento Ambiental (Codema) e a Prefeitura de Lagoa Santa aguarda o relatório de uma visita técnica a ser agendada. Enquanto isso, a comunidade e o meio ambiente continuam sofrendo com a poluição.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor e compositor, tem 46 livros publicados. Entre eles, Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa 1989), Alguém tem que ficar no gol (finalista do Prêmio Jabuti 2014), Vandré - O homem que disse não (finalista do Prêmio APCA 2015), A Turma da Savassi e Condomínio Solidão (menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte 2012).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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