14 Out 2021 | domtotal.com

Entre o altar e as urnas

Ainda que a Constituição Federal seja laica, a política nacional sempre esteve ligada à religião

Em Aparecida do Norte, Jair Bolsonaro cumpriu o velho rito de políticos em busca de votos
Em Aparecida do Norte, Jair Bolsonaro cumpriu o velho rito de políticos em busca de votos (Thiago Leon/Santuário Nacional de Aparecida)

Jorge Fernando dos Santos

Em sua visita à basílica de Aparecida do Norte, nessa terça-feira (12), o presidente Jair Bolsonaro cumpriu o velho rito de políticos em busca de votos. Mesmo abençoado por pastores evangélicos, ele é católico e esteve na festa da padroeira do Brasil também em 2019. Contudo, sua frieza diante das mais de 600 mil mortes causadas pela Covid-19 e seu discurso de ódio e intolerância mostram que de cristão ele não tem nada.

No entanto, Bolsonaro está longe de ser o primeiro e último a usar a religião para conquistar eleitores. Às vésperas das eleições de 2018, o candidato Fernando Haddad (PT) e sua vice Manuela D'ávila (PCdoB) rezaram aos pés da santa em Aparecida do Norte. Em maio daquele ano, militantes de camisa vermelha realizaram no famoso santuário a "Romaria Lula Livre", em prol da libertação do ex-presidente condenado pela Operação Lava Jato.

Em 7 de outubro de 2017, exatamente um ano antes das eleições que levariam Bolsonaro à Presidência da República, o então deputado federal pelo Rio de Janeiro participou das solenidades do Círio de Nazaré, em Belém do Pará. Lá também estiveram o presidente Michel Temer (PMDB) e o então prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB). Lula cogitou dar o ar da graça, mas desistiu na última hora.

À direita do 'bispo'

Em 2009, a então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, aproveitou o Círio de Nazaré para fazer propaganda política. Na ocasião, ela se disse comovida ao ver vários devotos carregando miniaturas de casas na procissão que reúne todo ano cerca de 2 milhões de fiéis. A futura presidenta não perdeu a oportunidade de associar a imagem ao projeto Minha Casa, Minha vida, dizendo que o governo Lula estava no caminho certo.

A exemplo de Bolsonaro, Dilma manteve estreita ligação com lideranças evangélicas. Em 31 de julho de 2014, sentou-se à direita do "bispo" Edir Macedo da Igreja Universal, durante a inauguração do Templo de Salomão, em São Paulo. Entre outras autoridades, lá também estavam o vice-presidente Temer, o prefeito da cidade, Fernando Haddad, e o governador Geraldo Alckmin (PSDB).

O "bispo" bolsonarista Marcelo Crivella (sobrinho de Edir Macedo) ocupou o cargo de ministro da Pesca no governo Dilma. No início de 2012, ele era senador pelo PRB-RJ, quando foi convidado a substituir o deputado petista Luiz Sérgio na pasta. A estratégia visava blindar a candidatura de Haddad à Prefeitura de São Paulo no momento em que o ex-governador José Serra (PSDB) entrava na disputa pela sucessão de Gilberto Kassab (PSD).

'Comunismo ateu'

Recentemente, sob a liderança da deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), foi fundado o Núcleo Evangélicos do PT (NEPT). A iniciativa visa retomar o diálogo com os pastores com vistas às eleições de 2022, sem desprestigiar a militância católica. Segundo Gilberto Carvalho, ex-chefe de gabinete do governo Lula, a reaproximação com setores evangélicos é "fundamental" para a retomada do eleitorado de periferia.

Décadas atrás, nas eleições presidenciais de 1989, o candidato Fernando Collor de Mello (PRN) vinculou sua imagem à do líder católico frei Damião, um idoso frade conservador muito influente no Nordeste, onde era apontado como sucessor do legendário padre Cícero. Collor também teve o apoio de pastores de diferentes igrejas evangélicas, que temiam a aproximação do candidato Lula com o "comunismo ateu".

Resumindo a ópera, ainda que a Constituição Federal seja laica, a política nacional sempre esteve ligada à religião. E vale até uma ajudinha do além. Que o diga o empresário paulista Guilherme Afif Domingues. Candidato à Presidência pelo PL em 1989, ele conseguiu a simpatia da vidente minera Leila Alckmin, que lhe previu a vitória. No final das contas, ficou em sexto lugar, provando com isso que a fé nem sempre move montanhas.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor e compositor, tem 46 livros publicados. Entre eles, Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa 1989), Alguém tem que ficar no gol (finalista do Prêmio Jabuti 2014), Vandré - O homem que disse não (finalista do Prêmio APCA 2015), A Turma da Savassi e Condomínio Solidão (menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte 2012).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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