19 Out 2021 | domtotal.com

Racionalidade ambiental: Estado e Sociedade na visão de Enrique Leff


A racionalidade econômica desconsidera o valor  do meio ambiente, paradigma que deve ser repensado
A racionalidade econômica desconsidera o valor do meio ambiente, paradigma que deve ser repensado (Krisanapong Detraphiphat/Getty Images)

Newton Teixeira Carvalho

Nossos últimos artigos aqui publicados retrataram a racionalidade ambiental e a reapropriação social da natureza, proposta de Enrique Leff, como meio de superar a crise em que vivemos, principalmente ambiental, consequência de abraçarmos cegamente a racionalidade econômica.

Assim e como adepto que somos das propostas de Leff, bem como por entender que precisamos difundi-las mais, eis que são sérias e têm por escopo uma necessária preocupação com a natureza, sua preservação e por conseguinte a preservação de todo o planeta, bem como leva também em consideração as populações com suas peculiaridades, com o modo de vida próprio de cada uma, continuaremos a falar a respeito da racionalidade ambiental, com os respectivos desafios para sua implementação, tudo lastreado no livro Racionalidade Ambiental - a reapropriação social da natureza.

E Leff explica que esta nova racionalidade, proposta por ele, não é consequência apenas da confrontação com a "racionalidade econômica, mas com o todo social que a contém, com a ordem jurídica e o poder do Estado" (p.239). Assim e "dessa maneira, a questão ambiental veio problematizar as teorias científicas e os métodos de investigação para apreender uma realidade em vias de complexização que desborda a capacidade de compreensão dos paradigmas estabelecidos" (p. 239).

E, conforme sabido, o Estado realmente tem falhado, a ponto de abrir espaço para as milícias, que ocupa o ambiente que deveria ser do Estado, principalmente do Estado social, eis que o braço longa desta organização miliciana se faz presente sobre a população mais carente.

E é por isto que, continua Leff, 

"Apresentou-se, assim, a necessidade de interiorizar um saber ambiental emergente no corpo das ciências naturais e sociais, para construir um conhecimento capaz de integrar a multicausalidade e as relações de interdependências dos processos da ordem natural e social que determinam, condicionam e afetam as mudanças socioambientais, assim como para construir uma racionalidade produtiva fundada nos princípios do desenvolvimento sustentável" (p. 239).

E continua Leff: 

"Essa estratégia conceitual parte de um enfoque prospectivo sobre a construção de uma racionalidade social aberta para a diversidade e a complexidade, que confronta o processo de racionalização da modernidade fundado na busca de uma unidade da ciência e na unificação do mundo através do mercado, o que implica na necessidade de abrir as ciências sociais e a reflexão sociológica à questão ambiental (p. 240).

Portanto, a racionalidade ambiental é inclusiva e democrática, eis que abarca os diversos saberes e não apenas o elitista saber acadêmico, que se acha o melhor de todos. A academia considera, equivocadamente, como a única produtora de saber. É também inclusiva, eis que preocupa com todos, sem, porém, ter a pretensão de domesticá-lo de adestra-lo para que se transforme, como fez a racionalidade econômica, no homem consumidor bestificado, que nada questiona, tudo em prol da globalização da econômica e do mercado consumidor.

Também em questionamento a ciência social que, a partir da noção hegeliana da racionalidade estatal, não levou em consideração o aspecto ecológico. Também em discussão e desconstrução a visão marxista da luta de classes, como propulsora da história, dentre outras teorias que desprezaram, por completo, a natureza.

Assim, 

"a construção de uma racionalidade ambiental é um processo de produção teórica e de transformações sociais. A racionalidade ambiental é uma categoria que aborda as relações entre instituições, organizações, práticas e movimentos sociais, que atravessam o campo conflitivo do ambiental e afetam as formas de percepção, acesso e usufruto dos recursos naturais, assim como a qualidade de vida e os estilos de desenvolvimento das populações. Esse conjunto de processos sociais – em que se entrelaçam as relações entre as formações teóricas e ideológicas, a produção de saberes e conhecimentos, a organização produtiva e as práticas sociais induzidas pelos valores do ambientalismo – orienta as ações para construir uma nova racionalidade social e para transitar a uma economia global sustentável" (p. 240/241).

Nota-se que a proposta de Leff labora antes de tudo sobre os erros diversos e manifestos, até o presente momento, no que tange à adesão cega e irrefletida à racionalidade econômica, encampada como o paradigma do momento presente.

Assim, este aludido autor procura superar os equívocos reinantes e que, apesar de atuais, procuramos usar a lógica do faz de conta cumulada com a lógica do egoísmo, ou da ausência de empatia, ou seja, como se estes sabidos equívocos não existissem, principalmente quando estamos levando vantagem, mesmo que em prejuízo do outro ou das próximas gerações. Mesmo que meu próximo esteja passando por sérias necessidades financeiras.

Evidentemente que a proposta de Leff vai levar algum tempo para ter a merecida adesão, considerando que é a superação de um paradigma, o da racionalidade econômica, que se encontra interiorizado em todos nós e que, se porventura questionado, os questionadores são rotulados de comunista, de esquerdista. Para essas pessoas o sistema capitalista é perfeito e, portanto, não carece de correção de rumos.

A somatização, a introspecção da racionalidade econômica é tamanha, a ponto de a maioria prejudicada acabar aderindo a esta proposta de consumo. A não questionar a situação de pobreza em que se encontra, eis que, vez por outra e principalmente na época de campanha eleitoral, além as insinceras promessas de melhorias, há uma pequena alteração no nível de vida de cada um deles. Depois, tudo volta ao normal, até as próximas eleições. E assim a pobreza continua reinante e institucionalizada em nossa pátria amada!

Newton Teixeira Carvalho
Pós-Doutorado em Docência e Investigação pelo Instituto Universitário Italiano de Rosário (2019). Doutor em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2013), Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2004). Especialista em Direito de Empresa pela Fundação Dom Cabral (1987), Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1985). Desembargador da 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Juiz de Direito da 1ª Vara de Família até junho de 2012. Professor de Direito de Família da Escola Superior Dom Helder Câmara. Autor e coautor de vários livros e artigos na área de família, direito ambiental e processual civil.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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